Era um botequim. Muito triste, muito desajeitado. Perdido lá no fim daquele beco de luzes tímidas. Enfurnado no bairro mais esquecido da cidade.
Era um botequim. Triste, desajeitado, miserável. Bem como o rapaz de azul-escuro que ia entrando. Que ia entrando e pedindo um trago bem forte. O trago mais forte daquele comércio.
O portuga amansou a bigodeira e procurou a garrafa que era branquinha. O trio da mesa do fundo se virou sem discrição. O casal do lado direito se beijocou publicamente. Ele pegou na coxa dela, ela soltou um palavrão, os dois soltaram uma gargalhada enorme que fez eco e mais parecia uma vontade de se amarem ali mesmo, só pra divertir a vizinhança e matar de inveja o marinheiro de blusa encardida. O marinheiro fechou a cara, lembrou-se de quando esfaqueara um parceiro em qualquer porto sem importância do estrangeiro, afogou a raiva no copo de cerveja ordinária. Nem percebeu o agrado que lhe queria fazer um cachorrinho de cor inexplicável. O animal ficou mexendo o rabo, o qual era curto e quase sem pelo. De repente tomou coragem, lambeu-lhe a perna, saltou-lhe ao colo. Foi a conta. O marinheiro descarregou nele o que desejaria jogar sobre o rival. Socos, pontapés, e substantivos obscenos. Como convém a marinheiros solteiros em noite de feriado nacional...
Todos riram. Com exceção do portuga, por nobre prudência comercial. E do moço de azul-escuro, porque este tinha o pensamento muito longe. Tão longe que ia até saindo sem pagar a despesa. No que foi imediatamente impedido pela mesma prudência lusitana. Sentou-se outra vez, como represália à própria distração. E pediu um trago ainda mais carregado. O trago mais forte de todos os comércios.
Pediu, enquanto o casal da direita se entortava todo nos assentos, para que as mãos peludas do homem continuassem a fazer viagens proibidas...
II. Coreto
Era um coreto. Redondo, pequeno. Erguido numa pracinha sem nome glorioso. Na pracinha em que, aos domingos e feriados, as mulatas costumavam brilhar exuberantemente. Sobretudo quando a banda da polícia chega pra executar suas valsinhas enlanguescentes e aqueles trechos tão bonitos de operetas velhíssimas. Há, até, uma valsa em si menor cuja terceira parte consegue nutrir o pessoal de romantismo para todo o resto do mês. Nesse momento, ficam os olhares menos furtivos, e as palavras adquirem intenções mais perigosas, e os fins de noivado parecem infinitamente mais doloridos.
Era um coreto pequeno e redondo. Que sequer possuía bom teto. Porque a chuva atravessa aquela fenda antiga, e está caindo logo em cima do segundo banco. Nesse mesmo lugar que o clarinetista semanalmente ocupa, para a exibição (aliás comentadíssima) do seu grande talento suburbano.
Por causa da chuva, a praça permanece abandonada, sem cabrochas namoradeiras nem trigueiros galãs invencíveis. E o coreto está úmido, sem luz, silencioso. Silencioso, sem personalidade.
Porque a personalidade dos coretos das pracinhas existe em função das valsas em si menor. Dessas valsas e de quaisquer trechos de operetas velhíssimas...
Nos postes solitários, a chuva, que é fininha e impertinente, escorre mansamente e põe, nas bordas das lâmpadas, refrações instantâneas. Ao mesmo tempo, substitui a banda da polícia, executando, na cobertura do coreto, certa música esquisitíssima. A cobertura é de zinco e a água faz, sobre ela, um chiado monótono, desafinado, sem fim, capaz de adormecer todos os homens inquietos da vizinhança.
Então ele chega. Devagar, devagarinho. De mãos enterradas nos bolsos. Com os cabelos empastados na grande cabeça. Com os olhos brilhando em terríveis brilhos ignorados.
Ele chega, ladeia os postes, pisa as poças da pracinha adormecida, sobe ao coreto, senta-se no segundo banco, violando o privilégio do clarinetista. Continua de mãos nos bolsos, deixa que a água chegue pela fenda do teto de zinco e encharque ainda mais seus cabelos, e caminhe mansamente em seu rosto cheio de sombras.
Então, ele fica sendo, na noite quieta do bairro inútil, o homem mais triste, mais úmido, mais abandonado do mundo.
III. Cais
Encostou-se ao cais. Afundou olhos ansiados nas águas tão serenas, nelas procurando a solução para o mistério dos seres. Mas as águas continuaram serenas, não responderam nada.
Era úmido, o frio. Um frio que entrava nas carnes, que punha manchas, que punha discretas manchas arroxeadas no livre rosto do homem triste.
A luz das lâmpadas — das lâmpadas dispostas sem nenhuma regularidade — se refletia, tremelicando. Os reflexos não tinham sentido, mas eram fiéis, não cessavam.
Jogou as pernas no lado do poente. Caminhou até o fim. Até o ponto em que desaparecia o cais, rebatido pela montanha. Olhou-a, de frente. Pareceu-lhe mais inimiga, a montanha, protegida pela noite, dilatada pelas sombras. A lâmpada, que assinalava aquela fronteira, pendia de um poste carcomido, desnivelado, distante dos companheiros.
E a sua luz era fraquinha, agonizante, medrosa do vento de mar alto que chegava de vez em quando.
Debruçou-se no ângulo da terra com as águas. E sentiu ímpetos absurdos. O mistério crescia, crescia a angústia. As dúvidas se repetiam, renovando-se as torturas. A tortura de penetrar a misteriosa fundura dos destinos. De dominar o significado inicial das coisas. De compreender o sentido daquele coração pulsando magnífico, daqueles nervos que tanta sutileza sabiam colher.
O vento cresceu, o mar engrossou, ficou violentando o cais estrepitosamente. As águas perderam a serenidade, mas guardavam – os olhos do homem – o mesmo brilho ansiado. Os olhos então se fixaram na lâmpada da fronteira, na lâmpada distante da grande curva iluminada do cais. A luz era fraquinha, parecia agonizar. Mas o homem não queria que ela morresse. Desejou, com todas as forças, que o poste carcomido adquirisse a segurança dos companheiros, e não tentasse tanto o amparo da montanha dilatada pelas sombras.
Lampadazinha solitária, não se apague, não se apague não! Porque aquele homem está desesperado, só lhe resta essa luzinha da fronteira, todas as outras luzes, todos os outros postes se anularam na tormenta.
A tormenta se declarou como nunca, o mar invadiu o cais, a cerração domina a cidade, todos os seres se recolheram ao abrigo mais próximo. Por isso não se apague, lampadazinha, não se apague não. A montanha já desapareceu, a água também perdeu a compostura, não sabe o que faz, sobe na terra, volta pro mar, gesticula no ar, doidamente. Só a luzinha da fronteira não fugiu aos olhos do homem. O homem não quer que ela se apague, porque então seu desespero não terá remédio. Luzinha, luzinha do poste carcomido! Vá resistindo, vá resistindo sempre, sempre, sempre. Mas, talvez não resista, a luzinha. Talvez acompanhe o coro das trevas, abandone o homem do cais. Agora está piscando. Piscando duas vezes, três vezes, quatro vezes. Ameaça desaparecer, começa a agonizar.
Um grito agudíssimo parte do peito do homem, daquele peito abrigando um coração que pulsava magnífico. O grito se perde, não encontra resposta, não ecoa na montanha nem ecoa no mar.
A luz ainda não morreu de todo, vai diminuindo, devagar.
Mas o homem pede que não o abandonem tanto. Por isso, luzinha do cais, não se apague. Não se apague, não, pelo amor de Deus!
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Newton Sampaio natural de Tomazina/PR, 1913 e falecido na Lapa, em 1938, foi um médico, ensaísta, escritor e jornalista brasileiro. Newton é considerado um dos mais importantes contistas paranaenses sendo o precursor do conto urbano moderno. Em 1925, saindo da pequena Tomazina foi estudar no Ginásio Paranaense, em Curitiba, e precocemente, passou a lecionar nesta instituição, além de colaborar para alguns jornais da capital paranaense, principalmente o "O Dia". Ao ser admitido na Faculdade Fluminense de Medicina, transferiu-se para a cidade de Niterói. Após formado em Medicina, permanece na capital do país, porém, com a saúde bastante abalada, retornou a Curitiba e em seguida internou-se em um sanatório na cidade da Lapa onde faleceu no dia 12 de julho de 1938. Duas semanas após o seu falecimento, recebeu o Prêmio Contos e Fantasias concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Irmandade. Newton Sampaio pertenceu ao Círculo de Estudos Bandeirantes de Curitiba e como homenagem ao jovem modernista, um dos principais prêmios de contos do Brasil leva o seu nome: Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio. Algumas obras: Romance “Trapo”: trechos publicados em jornais e revistas; Novela “Remorso”, 1935; “Cria de alugado”, 1935; Contos: “Irmandade”, 1938, “Contos do Sertão Paranaense”, 1939; “Reportagem de Ideias”: contos incompletos, etc.
Fontes:
Newton Sampaio. Ficções. Secretaria de Estado da Cultura: Biblioteca Pública do Paraná, 2014. Disponível em Domínio Público.
Biografia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Newton_Sampaio

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