Tentei analisar o meu silêncio para saber o que tinha nele; afinal, o silêncio, pela importância que tem não poderia ser deixado ao silêncio, abandonado como fazemos com as coisas que nos parecem difíceis. Não, haveria de ter nele algo aproveitável, razão que me levou a procurar decifrá-lo.
Eu queria saber e tentava, mexia, fuçava e não fui feliz nessa empreitada. Sentei-me apoiando a cabeça na parede e percebi que a maneira usada para procurá-lo não era a ideal, por isso deixei a questão dormente, sabendo que as respostas muitas vezes, se escondem também no âmago do próprio. Sim, do silêncio.
Um dia, haveriam de aparecer.
E foi nesse instante que um imenso quadro negro se desenhou em meus olhos. Era como uma lousa de escola, só que mais comprida e mais alta. Tão alta que exigia degraus para alcançar sua parte superior. E que também na sua base havia apenas uma pequena barra de giz branco, ainda intocado, e logo me questionei: só uma? O que farei com uma barra de giz diante dessa imensidão de lousa?
Se da dúvida nasce a luz, aquela pariu incerteza, mas me rendi à ansiedade, pondo-me a escrever na posição incômoda que permitiam os degraus e o manuseio da escada, e foi um sobe-desce nas dificuldades que minhas pernas logo se cansaram, para se amortecerem em câimbras. Porém, não me dei por vencido e fui escrevendo o que alguém ditava em frases curtas aos meus ouvidos. A impaciência era tão grande que nem tentei pôr reparo nos lábios de onde saía a voz, nem se essa boca se fixava num rosto, apenas escrevia sem precisar de retoques, e o interessante é que á medida que as palavras iam sendo registradas o pequeno giz se mantinha ileso, sem arranhão ou desgaste, tal como o pegara, e a lousa foi tomando a forma da lousa de escola em que a professora ao tempo que escreve, ensina. Bem assim.
Minutos passaram. Ou foram horas? Não saberia dizer.
A velocidade das palavras era tão grande que não tive tempo de perceber, e o fato é que ao chegar ao canto inferior do rodapé direito, a lousa se mexeu abrindo espaço para mais escrita, que foi sendo feita até que dores no braço pediram que parasse e lesse o que a voz ditara; e só aí percebi que não havia voz alguma a cochichar, mas apenas o reflexo da minha consciência despejando pela minha mão as respostas almejadas.
O meu silêncio se escondera por muito tempo em mim próprio, e o que vi ali estampado a giz, era um cipoal de coisas feitas e das deixadas de fazer. Questões não resolvidas ou quase solucionadas, incompletas, e outras satisfeitas, cujo resultado ensejava sorriso, mas que no conjunto pediam meu esforço. Vi pessoas sisudas, olhos tristes, garras afiadas, mãos unidas em oração, corações constritos, gestos cênicos e enganadores, sonhos voláteis, missões desprezadas e o mais interessante: o sossego desassossegado, insatisfeito com essa condição, sinal de que o tempo perdido não fazendo, cobrava-me agora os porquês de não ter feito o que devia.
Mas vi o importante: o silêncio guardado em nós cobra postura quando exposto numa lousa nossa, como a palavra amiga que deixamos de dizer por comodismo, o abraço que não demos, o favor que não fizemos, o gesto de atenção despercebido. É também a reação bruta que não contivemos, o mal que disseminamos, a palavra mal dirigida e que um dia, sem que esperemos, passam por uma moenda a nos lembrar, porque o silêncio não é apenas o estado de quem se cala ou se abstém de falar, nem somente a privação, voluntária ou não, de falar, de publicar, de escrever, de pronunciar qualquer palavra ou som, de manifestar os próprios pensamentos etc., como diz o dicionário. O silêncio é mais que isso, posso dizer: é aquela gaveta que se esconde em nossa alma e que armazena fatos que só nossa consciência pode um dia revelar.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs: Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.
Fontes:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais: contos e crônicas. Editora EGPACK Embalagens, 2024. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing
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