RICARDO REIS
(Fernando Pessoa)
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935
34
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos Deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
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Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal
Eros
À luz da vela titubeante
pasmado pela ciência dos antigos
convoco-te, deus do amor
ao palácio da minha ousadia
em concílio de desesperança
Não mendigo ambrósia e néctar
nem as graças do teu acolhimento
pois sou insignificante mundano
perdido no seio da adversidade
Desfecha tuas setas certeiras
no coração do homem descrente
de deuses de honra e de amor
Penetra no coração empedernido
ferindo de morte a cobiça vil
entorpecida em iludido sono estígio
Que a beleza da lenda
torne da razão a fantasia
Que o puro sentimento peregrino
seja conduzido nos braços
servis do gentil zéfiro
levando o mesquinho rastejar
à imortalidade alada da alma.
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Poema de
SONIA CARDOSO
Curitiba/PR
Chuva
A cortina úmida
Molha a terra que
Entusiasmada exala
O cheiro suave, de seu ventre
A água em livre demanda
Carrega pelas sarJetas
As mágoas da natureza,
Do nosso tempo, a alegria
E a tristeza do viver.
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Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ
Vendaval
O vento frio açoitando meu rosto
Penetra na pele, mas também na alma
Fico parada só a contra gosto
Querendo muito que a mim tragas calma.
A doença não há de me vencer
Tenho amigos com quem posso contar
Para tanto busco o que merecer
Busco alívio e meto-me a trabalhar.
Os trovões retumbando ao longe trazem
Insegurança, inquietação e fazem
A angústia, a saudade da pátria aflorar.
Lá fora ruge o vento inquietante
Assustando o coração desta imigrante
Despertando o ensejo de à pátria voltar.
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Poema de
DANIEL RODAS
Campina Grande/PB
Descriação
às vezes passo dias
procurando a palavra certa
o rumo certo
vasculho dicionários estéreis
mergulho
em versos frios e obscuros
mas nada encontro: nenhuma
semente do que queria
dizer
e o que me resta é olhar pela
janela
os bem-te-vis plantando flores
nos seus ninhos.
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Soneto de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP
Vila dos Andradas
Nasci naquela vilazinha feia,
sem árvores nem flores nas calçadas.
Rua? Perdão! Errei se assim chamei-a,
era apenas a Vila dos Andradas.
Saí criança e não voltei. Lembrei-a,
saudosa das cirandas nas calçadas.
Foi lá, que eu aprendi que a lua cheia
era a Mansão dos Sonhos e das Fadas!
Não mais existe a minha velha Vila,
mas, pobre e triste, seu passado atesta
que nela havia luz que ainda cintila
a ultrapassar os sóbrios horizontes:
- Naquela Vila, plácida e modesta,
viveu, rimou o nosso Martins Fontes!
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Spina de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP
Noite de inverno
Decanto teus versos
em suaves nuances,
aquecendo a poesia
que existe na noite fria.
Sinto os ecos do vento
açoitando no ar, tua ira.
Ouço o silêncio do luar,
sorrio... Ele é meu guia.
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Soneto de
HUMBERTO RODRIGUES NETO
São Paulo/SP
Flagelo
Do passado não deixes que a lembrança
te ponha o peito em pranto a flagelar
para a noite da dor não apagar
o antigo sol dos tempos de bonança.
Procura um outro amor pela esperança
de novas alegrias desfrutar,
pois diz velho provérbio popular
que aquele que algo espera sempre alcança.
Limpa da mente aquele antigo rosto
que agora só te traz mágoa e desgosto
e afasta da tua vida esse flagelo!
Varre, pois, da tua alma o sofrimento,
apaga da lembrança esse tormento
e exuma dela esse já morto anelo!
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Poema de
RITA DELAMARI
Curitiba/PR
Luminescência
Noite longa e misteriosa,
e o silêncio me consome...
Apareces por trás das nuvens,
fica a observar-me de longe.
Com teu brilho prateado,
banhas o céu totalmente.
Brincas de esconde-esconde,
que até parece se divertir.
Teimosa, se fazes presente,
e sorri bem sorrateira!
Conversas comigo, não queres partir
Solidão, não é mais companheira.
Consegues enxugar-me o pranto,
preenches todo meu pensamento.
Percebes que a ti tenho encanto!
Sabes como ninguém, seduzir.
Então, sem pedir licença
acalma a minha noite,
domina os meus sonhos...
Derrama sobre mim, sua luz!
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Soneto de
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP
O Andarilho
“Não me fale de amor”, alguém me disse,
“o amor morreu, já não existe mais”.
E eu retruquei que aquilo era tolice,
– será pecado alguém amar demais?
Ficou parado ali, talvez me ouvisse
que o amor perdoa e espera, sem jamais
querer em troca o favo da meiguice
que perpetua a vida entre os casais.
O tempo foi passando e pela rua
eu vi aquele vulto olhando a lua
perambulando como um peregrino.
E percebi, então, que aquele rosto
marcado pela dor, pelo desgosto,
nunca teve um Amor em seu destino!
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Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR
Desavisado
Trazia um beijo antigo
Guardado no peito
Mas ao te ver com outro
Fiquei tão sem jeito
Que deixei que o beijo
Caísse no chão.
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Soneto do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN
Ilha de Sant’Ana
Tua origem, de fato, ninguém sabe,
mas nasceste das cinzas deste pó;
Ilha amada, em teu ventre, tudo cabe,
aos sussurros do velho Seridó!
Que teu nome, no tempo, não desabe,
nem te deixem viver assim tão só;
que o teu canto de amor, nunca se acabe,
ante o olhar de Sant'Ana, nossa avó!
Sob as bênçãos de nossa padroeira,
e os arpejos de cada cachoeira,
que deságua nas terras deste chão...
Quando o rio, de verde se reveste,
tens a imagem mais pura do Nordeste,
e és a Ilha mais linda do sertão!
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Quadra de
IDEL BECKER
Porto Casares/ Argentina (1910 – 1994) São Paulo/SP
Você diz que sabe muito,
há outros que sabem mais;
há outros que tiram pomba
do laço que você faz.
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Hino de
Matinhos/PR
Ó berço romântico, de ingênuo fulgor.
Ó filha do Atlântico, ó paraíso em flor.
Na calma que anseias, escrínio do mar.
As tuas sereias são joias sem par.
Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.
Na azul madrugada, tu a cintilar.
És sonho de fada que o sol faz dourar
Nas noites serenas, secreto rumor.
Escuta-se apenas, o mar teu cantor.
Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.
Doçura sem conta, propício rincão.
Oásis que aponta a vasta amplidão
Teu mar sem fronteiras, excelso e viril.
Em ondas brejeiras, te beija sutil.
Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.
Seus torvos cuidados, ó praia feliz.
Em ti namorados passeiam tão gentis.
Com rútila vida, mais bela não há.
Matinhos querida, gentil Caiobá.
Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.
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Triverso de
VANICE ZIMERMAN
Curitiba/PR
fim de tarde -
sutil gota d’água
na folha seca.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França
O carvalho e a cana
«Teu ser bem pouco à natureza deve!
— Disse o carvalho à cana.—
O pássaro mais leve,
Se pousa sobre ti, logo te abana;
Um ligeiro soprar
Que a face encrespa do regato, apenas,
Faz-te logo vergar
E obriga-te a sofrer bem duras penas;
Enquanto eu ergo a fronte com vaidade,
Do Sol detenho o raio
E afronto a tempestade!
Todo o vento é me um zéfiro de maio,
Para ti todo o vento é vendaval!
Se da minha ramada
Nascesses abrigada,
Não sofrerias um tamanho mal.
O fado foi contigo muito injusto!...
— A tua compaixão,
Lhe respondeu o arbusto,
Abona o teu sensível coração;
Mas tanto não te mates
Chorando as minhas penas:
Melhor que tu, do vento sofro embates;
Não quebro, dobro apenas.
Tens resistido a rígidas nortadas...
Porém atrás do tempo, tempo vem!»
Tais vozes acabadas,
Bóreas em seus furores se despica;
A pobre cana dobra,
Firme o carvalho fica.
Ativa Bóreas a feroz manobra,
Faz tão cruenta guerra,
Que deita enfim por terra
Quem com a fronte nos astros topetava
E no abismo as raízes ocultava!
Não consegue o seu fim na estância térrea
Quem tudo quer levar à virga-férrea;
E é de crer que bem pouco se moleste
O que se abaixa quando a onda investe.

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