sábado, 14 de fevereiro de 2026

Nilto Maciel (Chão pintado de sangue)


Havia anos George Pinho escrevia umas prosas sem pé nem cabeça. E se regozijava com a cara de burrego dos leitores. Diziam não ter entendido nada. Ele ria muito e completava: o problema é seu. Mas se cansou de tanto rir dos outros e decidiu escrever contos urbanos realistas. Arranjava pretextos para passear pela cidade. Queria conhecer de perto os tipos populares, presenciar cenas do cotidiano. Anotava num caderno sinopses de histórias. Uma delas teria apenas dois personagens: um mendigo ou menino de rua, drogado, e um poeta popular ou panfletário. A ação se daria numa praça. Que ação seria essa? Que conflito ocorreria? Para encontrar as respostas, quase todo dia passava pela Praça do Ferreira, metia-se em lojas, lanchonetes, bancos, e, principalmente, andava de lá para cá, olhos e ouvidos atentos.

 Um dia caminhava pela calçada da praça na direção da Guilherme Rocha. Diante do Cine São Luiz, um mendigo comeu uma banana e lançou a casca ao chão. Sentou-se junto à parede e se pôs a olhar para as pessoas que batiam palmas ou vaiavam o rapaz barbudo e de roupas exóticas, em pé num banco, a vociferar: O poema é um punhal que brilhará na carne dos condescendentes. Seus reflexos parirão estrelas que habitarão o céu. Marinas cintilarão como ametistas nas bocas dos desvalidos. Imensas pérolas de enfeite da grande festa anunciada. Nas ruas novamente habitadas por benjamins, sorrisos, brisas nos dentes de marfim, onde se inscreverão os versos dos decapitados. 

Nesse momento George voltou a vista para o espetáculo, pisou na casca de banana e caiu espalhafatosamente. Livros e cadernos se espalharam na calçada do cinema. Uns deram vaias, outros riram. O mendigo se levantou e se esgueirou junto à parede, até desaparecer na galeria que separa o prédio do cine das lojas. 

Conduziram George ao banco da praça. Gemia de dor e pedia insistentemente para lhe trazerem os livros e cadernos. 

O rapaz anunciou outro poema e voltou a gritar: Como será nosso amanhã, criança? O meu, o teu, o da vizinhança? Talvez verde-esperança como sempre razão de viver. Talvez branco-matança, talvez negro black-power soco na cara do branco. Talvez amarelinho-da-silva. Ou será vermelho-festança? Criança? Ou pura lembrança de Ontem e de Hoje? Como será nosso amanhã, criança? Amanhança? 

Bateram palmas, vaiaram, bradaram. George permanecia deitado no banco, pálido e triste. Por que o senhor caiu? Pisei numa casca de banana. Sempre é assim. E esse maluco a dizer besteiras. Pensa que é poeta. 

George se sentou no banco. Está melhor? Preciso ir embora. O rapaz barbudo se entusiasmou de novo e passou a bramar: Neste nove de setembro há mais nove do que tudo e eu me sinto novamente o mais novo dos mortais. É como se o Zé Sarney já não fosse nosso rei e existisse no Brasil o vermelho de novembro. 

Quem é esse maluco? É o poeta Mário Menezes. Policiais passaram, em correria, pela frente do cinema. Deve ter havido algum roubo na Guilherme Rocha. 

Mário deixou o banco e se dirigiu a George. Faria um poema para lamentar a queda do outro. Não precisa disso. Escute só: Ai, meu joelho preferido, como eu queria ser você, pra descansar durante um mês e me sentir o bem-querido. O mais querido das mulheres ou das muletas, das mulatas. Como eu queria ver talheres em vez do fórum e suas batas. Ai, meu joelho maltratado pelas andanças e as peladas, como eu queria diplomado já me sentir e diplomata. Eu preferia, joelhinho, viver na Bósnia, se eu fosse embaixador – com queijo e vinho – em vez de aqui viver na doce vidinha nesta Fortaleza – carimbos, autos, petições, parafernália, tudo para me dar suores e aflições. 

O mendigo reapareceu na esquina da galeria. Alguém alertou: foi ele que jogou a casca no chão. A polícia também reapareceu. Em pouco tempo o mendigo se viu cercado de cassetetes e bordoadas. Houve quem tentasse impedir o sacrifício. 

George Pinho e Mário Menezes imploravam: não façam isso com o coitado. O povo vaiava e aplaudia ao mesmo tempo. Gotas de sangue pintavam o chão da Praça do Ferreira. E mais os soldados batiam no negrinho. George se afastou, a capengar.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes
Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.

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