Conta-se que o califa Al-Ualid, filho de Iazid, da dinastia dos Omaiadas, comprazia-se na companhia de um certo comilão cujo nome passou a caracterizar a profissão dos parasitas, que se convidam a si mesmos a bodas e banquetes. O nome desse famoso comilão era Tufail dos Festins. Ao lado de sua gula, o homem era inteligente, culto, espirituoso, cínico, com boas réplicas e atitudes simpáticas. Foi ele que estabeleceu o código do bom parasita nestes versos:
Aquele que for convidado a uma festa
deve comportar-se com a segurança
de um dominador;
entrar com ar alegre e ocupar o melhor lugar
sem prestar atenção a ninguém
para que cada conviva o considere
um homem de importância;
desprezar os pratos como indignos
de tão alto personagem;
e, contudo, manobrar para ter perto de si
o melhor vinho e os melhores cigarros;
e enquanto trinchar e engolir os frangos
pedaço a pedaço,
lançar olhares de homem superior,
rodeado por homens que não lhe chegam da altura.
Certa vez, um mercador de projeção convidou alguns amigos a um jantar de peixes selecionados. Quando a voz bem conhecida de Tufail foi ouvida falando ao porteiro, um dos convivas exclamou: “Alá nos proteja do parasita. Escondamos pelo menos esses peixes maiores e só deixemos nas bandejas os peixes menores. Depois de ter ele engolido estes peixes e ido embora, daremos prosseguimento a nossa festa.”
Quando, após saudar os presentes, Tufail se sentou à mesa, satisfez-se com uma insignificante fatia de peixe. Os convivas alegraram-se e perguntaram-lhe:
“Bem, mestre Tufail, o que achas destes peixes? Não parecem agradar-te.”
- Há muito tempo que estou de relações cortadas com o mundo dos peixes. Mais ainda, detesto-os. Meu pai morreu afogado no mar, e esses selvagens o devoraram.
- Aí tens a ocasião de vingar-te deles, comendo-os por tua vez, disseram vários convivas.
-Tendes razão, mas esperai um instante. Apanhou um peixe magricela e aproximou-o do ouvido, parecendo escutar sua conversa.
- Sabeis o que este pedacinho de peixe está me dizendo? perguntou finalmente aos demais.
- Por Alá, como iremos saber? responderam.
Disse Tufail: “Está me dizendo: “Eu não tinha ainda nascido quando teu pai foi devorado no mar. Se quiseres vingá-lo, ataca os peixes grandes que se refugiaram lá no canto. Foram eles que se jogaram sobre o santo homem e o devoraram.”
O anfitrião e seus convidados se deram conta de que o olfato treinado do parasita havia localizado os peixes e desmascarado a malícia dos que queriam enganá-lo. Não vendo escapatória, preferiram rir gostosamente, e trouxeram a bandeja escondida para a mesa, dizendo ao parasita:
“Come, em nome de Alá. E tomara que sofras uma terrível indigestão”.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =
As Mil e Uma Noites é uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. As histórias que compõem as Mil e uma noites têm várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe versão definitiva da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O Imperador brasileiro Dom Pedro II foi o primeiro a traduzir diretamente do árabe para o português partes da obra mais conhecida da literatura árabe, e o fez com um rigor raro para a época. Já em idade avançada, aos 62 anos, ele começou o processo, o último registro de texto traduzido é de novembro de 1891, um mês antes de sua morte.
O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.
Fontes:
As Mil e uma noites. (tradução de Mansour Chalita). Publicadas originalmente desde o século IX. Disponível em Domínio Público
Imagem obtida com IA Microsoft Bing

Nenhum comentário:
Postar um comentário