quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Arthur Thomaz (Professor Pardal)


Juvenal era conhecido no bairro em que morava pelo apelido de Professor Pardal, por estar sempre a inventar aparelhos e maquinários extravagantes e quase sem utilidade prática.

Nos “butecos” que frequentava com assiduidade, também era chamado pela mesma alcunha, mas porque, depois de algumas doses, passava a inventar histórias inverossímeis.

Seus pais torciam para que ele concluísse o curso técnico em Química Industrial, arrumasse um emprego e mudasse de casa, já que, com suas estapafúrdias invenções, havia colocado fogo na garagem três vezes. Mas Juvenal justificava os incidentes, convicto, afirmando que todas as grandes invenções que mudaram o rumo do mundo sofreram percalços semelhantes.

Sua mãe, então, precisou tapar a boca do marido, que já ia dizendo que Juvenal fosse ter percalços em outro lugar.

– Dorival, por favor, não vá ferir a sensibilidade do nosso menino. Afinal, ele está apenas em busca de realizar seu sonho em prol de um futuro melhor para a humanidade.

Dorival pensou que seria melhor se o filho sonhasse bem longe de casa, mas calou-se para evitar discussões inúteis.

Juvenal conheceu Maria Letícia quando tomava café em uma padaria antes de ir trabalhar, apresentado pela moça do caixa, que já o conhecia por ser freguês assíduo. Começaram a namorar e, passado algum tempo, a moça levou-o até sua casa para apresentá-lo aos pais.

À noite, após o trabalho, Juvenal ia até a casa de Letícia para namorar no sofá da sala e depois trocar beijinhos no portão ao se despedir.

Em certa ocasião, presenciou a sogra, com sérios problemas na coluna, apresentar enorme dificuldade em calçar os sapatos. Juvenal, que até aquele dia se contivera em não mostrar suas invenções, não resistiu e, na noite seguinte, levou uma de suas criações para facilitar o ato da sogra.

O resultado foi desastroso: ela ficou com os pés presos, gritando de dor, e ninguém conseguia soltá-la da geringonça.

Tiveram que chamar os bombeiros para serrar o invento. De repente, Juvenal olhou para trás e viu o sogro correndo em sua direção com algo nas mãos. Nem tentou ver o que era e saiu correndo, só parando em casa. Nunca mais viu Maria Letícia.

Solitário, já que seus pais, cansados das invenções malucas, mudaram-se para uma cidade a 1.800 km de distância, teve a oportunidade de desenvolver suas criações sem colocar a família em perigo.

Buscou incessantemente a produção de algo que substituísse o caríssimo combustível utilizado nos veículos.

Certa manhã, precisando abastecer sua moto 125 cc para ir ao trabalho e estando sem dinheiro, resolveu colocar no tanque um produto no qual estivera trabalhando a noite toda, mas que ainda não havia testado.

Surpreso, viu sua moto desenvolver um excelente rendimento.

Naquele dia, após o expediente, nem passou pelo “buteco”, como sempre fazia, e foi direto para casa aprimorar sua inesperada invenção. Na manhã seguinte, descobriu que havia criado um tipo de combustível de baixíssimo custo e com rendimento muito acima do comum.

Precavido, foi registrar sua fórmula no Departamento de Marcas e Patentes. O funcionário que o atendeu, percebendo ali uma oportunidade de lucro ilícito, procurou um diretor de uma estatal petrolífera, cuja fama de corrupto era notória, e expôs a situação.

Foi imediatamente levado ao gabinete do presidente da empresa, a quem Juvenal reconheceu por já tê-lo visto várias vezes em noticiários de corrupção e desmandos.

O funcionário vendeu a preciosa informação e saiu de lá com os bolsos cheios de dinheiro.

Já o presidente, acostumado ao ambiente nefasto da corrupção, foi pessoalmente ao endereço de Pardal.

Para ele foi fácil enganar o inocente Juvenal, afirmando que, ao comprar a fórmula do combustível barato, iria fabrica-lo em grande escala e, assim, ajudar a população mais carente.

O dirigente abriu a maleta que trouxera e ofereceu R$5 milhões em espécie ao rapaz, dizendo que ele nem precisaria declarar à Receita Federal, pois isso já estaria regularizado.

Sem entender muito de assuntos financeiros, Pardal aceitou, acreditando ingenuamente que seu invento ajudaria os pobres do país.

Na volta, o presidente da estatal pediu ao motorista que parasse em frente a um terreno baldio. Ali, destruiu a fórmula e o registro da patente.

Voltando ao carro, disse, regozijando-se:

– Ajudar os pobres? Que tolice! Vamos continuar a vender combustível caro e alimentar nosso esquema de desvio de verbas.

Com o dinheiro, Juvenal adquiriu uma propriedade na zona rural, distante da opressiva megalópole. A casa confortável vinha acompanhada de um galpão a prudente distância, onde ele podia criar suas extravagantes invenções sem colocar nada, nem ninguém, em risco.
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, úblicou os livros: “Rimando Ilusões”, “Leves Contos ao Léu – Volume I, “Leves Contos ao Léu Mirabolantes – Volume II”, “Leves Contos ao Léu – Imponderáveis”, “Leves Contos ao Léu – Inimagináveis,“Leves Aventuras ao Léu: O Mistério da Princesa dos Rios”, “Leves Contos ao Léu – Insondáveis”, “Rimando Sonhos” e “Leves Romances ao Léu: Pedro Centauro”.

Fontes:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

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