segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Laé de Souza (Dai-nos paciência)


Homens e mulheres, mesmo que casados, precisam viver seus espaços dentro de determinado limite. Essa delimitação deve ser imposta por si próprio e não por coação do parceiro, sob pena de trazer barreiras intransponíveis ao relacionamento. Claro que o homem gosta de se reunir com os amigos e, entre uma cerveja e outra, falar de carro, de futebol, corrida, de quando era... vangloriar-se de sua maior pescaria etc. A mulher, no seu chá ou até tomando uma dose de campari, fala de família, de moda, de sentimentos, poesia, beleza etc. Devemos, portanto, cada um permitir que o companheiro tenha os seus momentos de prazer. Confesso que não foram fáceis os últimos dias vividos com minha segunda ex-mulher, no que se refere às minhas necessidades de troca de ideias com amigos.

Ao chegar em casa às 3 horas da manhã, no maior silêncio, em respeito ao seu direito de dormir (afinal, depois das 22 horas a lei do silêncio deve ser respeitada), deparei-me com ela sentada no sofá à minha espera. Pela cara, uma fera. Dei um beijinho, ela inerte como uma múmia. Tomei banho e, quando me preparava para deitar, ela rompeu o silêncio:

- Precisamos falar sobre o João (nosso filho).

- Não pode falar amanhã? - perguntei com voz mansa de sono.

– É sempre assim. Quando surge algum problema, especialmente com nossos filhos, você não quer assumir. Eu tenho de ver tudo sozinha. Já estou cansada... - disse ela.

E foi por aí afora, falando, falando, até que, não obtendo respostas, parou. De falar sobre esse assunto, claro. Começou a fazer limpeza no quarto. Na verdade, ela nunca foi dada a arrumação, mas quando tinha uma briguinha, baixava o espírito de limpeza e começava a faxina. E era aquele acende luz, bate janela, porta, gaveta, abre e fecha guarda-roupa, passa pano, aqueles papos todos. Dei uma pequena resmungada, de leve. Aí, ela veio com tudo:

- Tá achando ruim, é? Então, vem ajudar que acaba logo! Pensa que minha vida é fácil?

Percebi que a coisa poderia complicar mais para mim. Peguei meu travesseiro, um lençol e fui para a sala deitar-me no sofá. Mas, nem bem comecei a cochilar, ela deu início ao serviço de faxina naquele ambiente. Imagino que devia ser para me irritar, porque ela é de uma moleza infernal para fazer as coisas e o normal é que ainda estivesse limpando o quarto. Fui para a cama. Mas, ela ficou naquele entra e sai, pega uma coisa, outra etc. Não teve jeito. Saí do quarto, pus na vitrola um disco de Waldick Soriano, no copo uma dose de uísque e fiquei o resto da madrugada ouvindo, entre um cochilo e outro. Claro que ela, a toda hora, lembrava: - São 4 horas da manhã e os vizinhos têm direito de dormir.

Não liguei. Fui curtindo o som até às 7 horas, quando saí para trabalhar.
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco. 

Fontes:
Laé de Souza. Acontece… . 44a. edição. SP: Ecoarte, 2018.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

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