“Salaam' Aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus jovens amigos de alma nova e antiga. Aproximem-se, não tenham pressa, pois o tempo é um rio que corre, mas aqui, sob o dossel de estrelas de Bagdá, nós aprendemos a nadar contra a corrente.
Eu sou Mustafá, o peregrino. Olhem para estas mãos: elas estão sulcadas como o leito seco de um "wadi" (rio), cada linha uma estrada que percorri. Por mais de cinquenta anos, minhas sandálias beijaram a areia ardente do Saara, as pedras frias das montanhas do Cáucaso e o barro fértil das margens do Nilo. Fui um "musafir" (viajante) por destino e um colecionador por vocação.
Enquanto outros mercadores enchiam seus alforjes com ouro, seda ou mirra, eu buscava algo que os ladrões não podiam roubar: as histórias. Ouvi lendas sussurradas por beduínos ao redor de brasas moribundas e decifrei parábolas escondidas nos mercados de Damasco e nas bibliotecas de Alexandria. Vivi aventuras que fariam o coração do mais bravo guerreiro palpitar como o de um passarinho, e cometi erros que me ensinaram mais do que mil livros.
Agora, "alhamdulillah" (Louvado seja Deus), meus pés pedem repouso, mas minha voz ainda anseia por voar. Aqui, nestas almofadas gastas no coração de Bagdá, entre o cheiro do sândalo e o aroma do café com cardamomo, eu abro o baú da minha memória.
Deixem que o barulho do mercado se apague e que as minhas palavras pintem o ar. Pois uma história não é apenas entretenimento; é um espelho onde a alma se vê por inteiro.
Acomodem-se sobre as almofadas, pois a noite é longa e a lua de prata hoje testemunha uma história que guardo no fundo do meu alforje. Trago comigo a poeira de mil estradas e o eco de mil vozes.
"Bismillah" (Em nome de Deus), iniciamos este relato sobre o peso que carregamos nos ombros e a leveza que só o perdão pode trazer.
Nas terras de Omã, vivia um homem chamado Omar, cuja riqueza era superada apenas por seu orgulho. Ele tinha um filho, o jovem Karim, o pupilo de seus olhos.
Em uma tarde de mercado, uma discussão fútil por causa de uma dívida de poucos dinares escalou para uma tragédia. Um jovem estrangeiro, num momento de desespero e cego de raiva, empurrou Karim, que caiu e bateu a cabeça contra uma pedra.
O filho de Omar não despertou mais.
O estrangeiro, apavorado, fugiu para o deserto. Omar, consumido por um fogo negro, jurou: "Wallahi" (Eu juro por Deus), não descansarei até que o sangue desse homem lave a terra que meu filho pisou.
Anos se passaram. Omar tornou-se um homem amargo, caçando sombras.
Certa noite, uma tempestade de areia terrível açoitou sua tenda. Alguém bateu à porta implorando por hospitalidade. Seguindo a lei sagrada do deserto, Omar abriu a porta e acolheu o viajante exausto, dando-lhe tâmaras e água fresca.
Enquanto o estranho dormia, a luz da lamparina revelou uma cicatriz no braço do hóspede. Omar reconheceu o homem que tirara a vida de seu filho. A mão de Omar voou para o punhal. "Ya Allah" (Ó Deus), sussurrou ele, "a vingança está em minhas mãos."
Mas, ao olhar para o rosto cansado do homem, ele viu não um monstro, mas um ser humano que também fora devorado pela culpa durante anos. Omar lembrou-se das palavras de seu próprio pai: "O perdão é a fragrância que a violeta deixa no calcanhar que a esmagou."
Na manhã seguinte, antes que o sol queimasse o horizonte, Omar acordou o homem. "Sabah al-Khair" (Bom dia), disse ele com uma voz que parecia vir de uma montanha. O estrangeiro, ao reconhecer Omar, caiu de joelhos, esperando o golpe fatal.
Em vez disso, Omar entregou-lhe as rédeas de seu melhor camelo e uma bolsa de ouro.
"Tome", disse Omar. "Ontem eu era um prisioneiro do seu erro. Hoje, ao te perdoar, eu quebro minhas próprias correntes. Vá em paz, pois a justiça pertence ao Altíssimo."
O homem chorou e partiu, mas o peso que saiu do coração de Omar foi maior do que todo o ouro do deserto.
"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pois a paz que o perdão traz é o único oásis que nunca seca.
"Shukran" (Obrigado) pela vossa atenção. Que vossos corações sejam sempre mais leves que vossas sandálias. “As-salaam 'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (Portugal), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (Suiça), Ordo Equitum Calami et Calicis (Romênia) etc. Certificados e Medalhas de Mérito Cultural de diversas Academias do Brasil, Portugal e Romênia. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Obras:
Publicadas: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas); "Almanaque Poético Brasileiro vol.1"; “Canteiro de trovas”, "Trovas de José Feldman e Izo Goldman" (Coleção Terra e Céu);
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Versos", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas", "Grinaldas Indígenas"; "Minhas irmãs de quatro patas"; "Histórias do Oriente Místico".
Fontes;
José Feldman. Contos do Oriente Místico. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing
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