O engenheiro Adriano Walsh havia chegado de viagem, e convidara para almoçar em seu palacete, no dia seguinte, o seu opulento amigo Dr. Polidoro Tavares, advogado jovem e competentíssimo que era tratado na família com as maiores considerações.
O almoço, nesse dia, correu delicioso.
Alta, esguia, elegantíssima com os fartos cabelos de ouro arranjados com encantadora simplicidade, Mme. Walsh mostrara-se, como sempre, deslumbrante de formosura e de espírito. Atordoada pela alegria do marido, os seus olhos, cinzentos e lindos, lembravam duas pérolas grandes e misteriosas, luzindo, magníficas, entre os canteiros de violetas das olheiras. Vestida de linho espumante, o seu vulto emergindo, na mesa, do tumulto dos cristais e da baixela de ouro, era como uma grande rosa branca, em torno da qual fervilhassem, disputando-lhe o pólen, miríades de insetos faiscantes.
Após o almoço, quando o sol já sonhava, cansado, com o leito longínquo das colinas, os dois amigos tomaram o automóvel, e desceram, juntos, para a cidade.
Na Avenida, saltaram, e caminhavam, palestrando, por uma das ruas transversais, quando diante de uma fabrica de móveis, o engenheiro estacou, preocupado:
- Diacho! - proclamou. - Minha mulher pediu-me para mandar consertar um móvel em casa, e eu não me lembro agora, qual é a peça da mobília?
- Não é o divã da alcova, que está rangendo muito? - atalhou o advogado, insensível.
- É isso! é isso mesmo! É o divã da alcova! - lembrou-se o Dr. Walsh batendo na testa.
E entrou na marcenaria.
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Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.
Fontes:
Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing
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