SANDRA PERES
LUIZ TATIT
São Paulo/SP
Gramática
O substantivo
É o substituto do conteúdo
O adjetivo
É a nossa impressão sobre quase tudo
O diminutivo
É o que aperta o mundo
E deixa miúdo
O imperativo
É o que aperta os outros e deixa mudo
Um homem de letras
Dizendo ideias
Sempre se inflama
Um homem de ideias
Nem usa letras
Faz ideograma
Se altera as letras
E esconde o nome
Faz anagrama
Mas se mostro o nome
Com poucas letras
É um telegrama
Nosso verbo ser
É uma identidade
Mas sem projeto
E se temos verbo
Com objeto
É bem mais direto
No entanto falta
Ter um sujeito
Pra ter afeto
Mas se é um sujeito
Que se sujeita
Ainda é objeto
Todo barbarismo
É o português
Que se repeliu
O neologismo
É uma palavra
Que não se ouviu.
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Soneto de
VILMAR DE ABREU LASSANCE
Niterói/RJ (1915 – 2009)
Descansa, coração
Ausentei-me do amor - vou descansar.
Tudo cansa, afina, até o amor...
Dei demais, de mim mesmo, sem pensar,
e, agora, vou parar, para recompor
meu pobre coração que, sem cessar,
levou anos e anos num furor
de paixões, num querer sem fim, sem par,
num paroxismo que atingia à dor.
Hoje, vou descansar - fechei a porta
à última ilusão, já quase morta,
que pretendia penetrar-me o peito:
disse "não", ao amor que retornou.
Ao amor que se foi e, hoje, voltou,
eu disse, num soluço: - "Não te aceito!"
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Poema de
MANUEL ALEGRE
(Manuel Alegre de Melo Duarte)
Águeda/Portugal
Trovas do vento que passa
Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
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Trova Popular
Olhos pretos matadores,
cara cheia de alegria,
um beijo na tua boca
me sustenta todo dia.
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Soneto de
AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN, 1876 – 1901, Natal/RN
Lágrimas
Eu não sei o que tenho... Essa tristeza
Que um sorriso de amor nem mesmo aclara,
Parece vir de alguma fonte amara
Ou de um rio de dor na correnteza.
Minh' alma triste na agonia presa,
Não compreende esta ventura clara,
Essa harmonia maviosa e rara
Que ouve cantar além, pela devesa.
Eu não sei o que tenho... Esse martírio,
Essa saudade roxa como um lírio,
Pranto sem fim que dos meus olhos corre,
Ai, deve ser o trágico tormento,
O estertor prolongado, lento, lento,
Do último adeus de um coração que morre...
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Poema de
REGINA MÉRCIA
(Regina Mércia Sene Soares)
Novo Horizonte/SP
Essa Felicidade?
Existe essa tal felicidade?
Essa pergunta faço com tristeza
Era só meu aquele amor
Não era a dois...
De repente a dor me surpreende
Por que um amor não correspondido?
Duvidas surgiram de que eu era...
Iludida, só o meu amor vivia
Sinto muita falta e sinto-me
Entregue aos medos e receios
Feliz fiquei ao perceber
Que estava amando...
Meu coração levava consigo
O aconchego de alguém...
Que havia chegado
Precipitando talvez o encontro
Com esse alguém que quisesse
Realmente me amar...
Só esperando o momento certo
Bem lá escondido no cantinho
Do coração cheio de desejo
Para nascer um grande amor…
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Soneto de
JACINTO DE CAMPOS
Canavieiras/BA (1900 – ????) Rio de Janeiro/RJ
As duas palmeiras
Quando passo buscando a humana lida,
A alma tecida de ilusões tão várias,
Junto à velha choupana carcomida
Vejo duas palmeiras solitárias.
Uma já morta, outra reverdecida,
Num desmancho de palmas funerárias,
E ao som da harpa do vento a que tem vida,
Saudosa plange salmodias e árias.
— Ó tu, que me olvidaste no caminho,
Meu coração deixando como um ninho,
Sozinho e triste, ao vento balouçando...
A saudade me diz, como em segredo:
Que és a palmeira que morreu bem cedo,
E eu sou aquela que ficou chorando.
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Quadrão à Beira Mar de
NEZITE ALENCAR
Distrito de Quixariú/Campos Sales/CE
Pelo mar, entre os abrolhos,
Lembro o verde dos seus olhos,
As lágrimas me descem aos molhos,
Pois é grande o meu penar:
Um dia um barco ligeiro
Levou meu amor primeiro
Vestido de marinheiro
No quadrão à beira mar.
“Beira mar, beira mar,
O quadrão só é bonito
Quando é feito à beira mar”.
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Soneto de
OLEGÁRIO MARIANO
(Olegário Mariano Carneiro da Cunha)
Recife/PE (1889 – 1858) Rio de Janeiro/RJ
O meu retrato
Sou magro, sou comprido, sou bizarro,
Tendo muito de orgulho e de altivez.
Trago a pender dos lábios um cigarro,
Misto de fumo turco e fumo inglês.
Tenho a cara raspada e cor de barro.
Sou talvez meio excêntrico, talvez.
De quando em quando da memória varro
A saudade de alguém que assim me fez.
Amo os cães, amo os pássaros e as flores.
Cultivo a tradição da minha raça
Golpeada de aventuras e de amores.
E assim vivo, desatinado e a esmo.
As poucas sensações da vida escassa
São sensações que nascem de mim mesmo.
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Poema de
SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS
Brincando de ser mulher
Brincando de ser mulher,
aquela mulher-menina
sem saber bem o que quer,
segue a sua triste sina...
Á quem pagar o seu preço,
ela cede os seus favores.
Pobre mulher-menina,
desgraçados os senhores.
De shortinho bem curtinho
na esquina a caminhar,
acena a pobre menina
para quem de carro parar.
Mal sabe a pobre menina
que o tempo vai passar,
e um dia, sem que perceba,
se a doença não lhe pegar,
nas mãos de algum cretino,
a morte vai encontrar.
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Pantun de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN
Pantun de elevada prece
TEMA:
Na aurora de cada dia,
a Deus elevo uma prece;
- Pai, enchei de poesia
nosso povo que padece!
Joamir Medeiros
Natal/RN
PANTUN:
A Deus elevo uma prece;
ó Pai, salvai por favor,
nosso povo que padece
por falta de pão, de amor,
Ó Pai, salvai por favor,
os excluídos do afeto,
por falta de pão, de amor,
vivem sem lar e sem teto.
Os excluídos do afeto,
não têm voz, nem têm razão,
vivem sem lar e sem teto
ante a cruel exclusão.
Não têm voz, nem têm razão,
por berço, a melancolia,
ante a cruel exclusão
na aurora de cada dia.
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Hino de
Dourados/MS
Sob um céu de alvorada fagueira,
Surge a terra de amor e afeto;
Eis Dourados, vibrante, altaneira,
Nosso berço, rincão predileto.
Sob um céu de alvorada fagueira,
Surge a terra de amor e afeto;
Eis Dourados, altaneira,
Nosso berço, predileto.
Eis Dourados, altaneira,
Nosso berço, predileto.
Estribilho: (2 vezes)
Eis Dourados cintilante
De labor e anseios mil
No futuro confiante
Lindo Oásis do Brasil.
Eis Dourados cintilante
De labor e anseios mil
Joia brilhante - do Brasil
Seu passado vai longe com glória
Da esperança foi sempre uma flor,
O seu nome desponta na história
Com beleza, com paz e amor!
Seu passado vai longe com glória
Da esperança foi sempre uma flor,
O seu nome, na história
Com beleza - Paz e amor!
O seu nome, na história
Com beleza - Paz e amor!
Estribilho: (2 vezes)
Eis Dourados cintilante
De labor e anseios mil
No futuro confiante
Lindo Oásis do Brasil.
Eis Dourados cintilante
De labor e anseios mil
Joia brilhante - do Brasil
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Poema de
JOSÉ CARLOS DE VASCONCELOS
(José Carlos Torres Matos de Vasconcelos)
Paços de Ferreira/Portugal
Os Versos Guardados
Tímido previdente avaro
guardei os versos
ano após ano
como lençóis de seda fina
ou anel de noivado
como guarda o pobre
as migalhas que não come
como guarda a menina
a boneca antiga
Tímido previdente avaro
guardei os versos
ano após ano
pelo tempo fora
o tempo todo
caminhando descalço
sobre um rio
de lume
ou lodo
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França
O Sol e o Vento
Entraram em contenda o Sol e o Vento
Sobre qual tem mais força, mais alento.
Passava nesse tempo um caminhante,
Assentaram que havia ser triunfante
O que tivesse forças, que lhe bote
Dos ombros para fora o seu capote.
Fez o Vento tal força, que mostrava
Que já por esses ares lhe levava,
Mas o dono às mãos ambas o sustenta;
Porém foi tal a força da tormenta,
Que ele já de sustê-lo desanima,
E, enrolando-se bem, deitou-se em cima.
O Vento andou de roda, deu-lhe um jeito,
Deu-lhe outro; porém tudo sem efeito.
Entrou na empresa o Sol, mas sem violência,
Antes com mansidão e com clemência:
No meio de uma tal serenidade
Os raios tinham tanta atividade
Que já os não sofria o passageiro.
Chegou-se a um sombrio castanheiro,
O capote depôs, que o martiriza,
A veste, e fica em mangas de camisa:
Com assombro do Vento furioso,
Ficou por manso o Sol vitorioso.
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