terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Raul Pompéia (Idílio retrospectivo)


Jamais dois entes se amaram tanto.

Um era para o outro, e ambos para o amor; um amor egoísta, feroz, exclusivo, selvagem, adorável, único.

Tanto ardor era um perigo.

As fogueiras imensas correm sempre o risco de morrer depressa.

Mas aquele amor parecia inextinguível como o fogo de Vesta.

Durante o dia, viviam na comunidade do seu afeto, idolatrando-se mutuamente, com toda a energia de adoração que o olhar possui. Durante a noite, a ilusão do sonho prolongava deliciosamente a ventura dos dias...

Depois, separaram-se, por uma fatalidade... Cada um sepultou religiosamente no mais sagrado recôndito de sua alma a relíquia rara e santa daquela paixão...

Veio então essa coisa terrível que se chama o tempo...

Um ano... dois anos... quarenta anos passaram-se sobre aqueles peitos.

E cada ano que passa é uma túnica de pedra que reveste os corações.

Ela passara quarenta anos no Sul, ele os passara no Norte.

Agora encontravam-se os velhos.

Ela começava a ficar corcunda, a multidão dos netinhos comprimia-se-lhe timidamente nos joelhos, pedindo bênção. O formoso rosto de outrora era uma ruína então; sentia-se, a subir, a hora dos anos. Aqueles lábios que mal se viam, tinham saudade dos lábios de quinze anos, que tão lindos sorrisos souberam fazer... Apenas os olhos, macios como a luz da lua, os dois grandes olhos, eram os mesmos ainda.

Parece até que as sobrancelhas de prata os faziam mais belos. Restava essa compensação.

Às ruínas daquele rosto ficara a doce consolação do luar daqueles olhos..

O venerando sexagenário apertou afetuosamente as mãos magras da avó e colo de crianças, tomou as mãos rugosas longamente aos lábios.

Beijava, nas rugas daquelas mãos, a suave recordação dos bons idílios dos vinte anos.
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Raul Pompéia (Angra dos Reis/RJ, 1863–1895, Rio de Janeiro/RJ) foi um importante escritor, jornalista e desenhista brasileiro, expoente do Realismo/Naturalismo, conhecido pela obra-prima O Ateneu. Estudou Direito, foi republicano, abolicionista e dirigiu a Biblioteca Nacional. 
Principais Obras: O Ateneu (1888), sua obra mais famosa, uma crônica de saudades autobiográfica, centrada na análise psicológica e crítica de um internato; Uma Tragédia no Amazonas (1880): Romance de estreia; As Joias da Coroa (novela). 
Frequentou o Colégio Abílio (internato no Rio de Janeiro) que serviu de cenário para O Ateneu. Cursou Direito em São Paulo. 
Suas obras caracterizadas pelo impressionismo/ realismo, possui descrições subjetivas, psicológicas e minuciosas, muitas vezes focadas na memória e percepção do narrador. Crítica severa às convenções sociais, abordando a hipocrisia e a corrupção do caráter. Influência naturalista, mostrando o indivíduo moldado pelo meio social (o colégio). Narrativa em primeira pessoa com tons confidenciais e irônicos. Descrições cenográficas intensas, reflexo do talento do autor como desenhista. Suicidou-se no Rio de Janeiro em 25 de dezembro de 1895, aos 32 anos.
Fontes:
Publicado originalmente no Jornal do Comércio, seção "Lembranças da Semana", em 1892. Disponível em Domínio Público.
Imagem criada por JFeldman

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