quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 156 *



Poema de 
CRIS ANVAGO
Setúbal/ Portugal

Existe uma beleza inexplicável
em tudo o que nos transcende,
no coração que acelera
com um simples olhar,
uma memória,
um beijo que se conseguiu roubar.
E o corpo incendeia-se
como se estivesse exposto ao fogo.
E, no entanto
somos mar
quando o abraço nos aperta!
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Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Trazes pombas na brancura das tuas mãos
Feridas por cicatrizar no peito dilacerado
O mar dos teus olhos fala de promessas e sonhos adiados
Candura do rosto emoldurando a beleza 
dessa fragilidade acesa e delicada.

Ofereço-te a frescura desta terna flor 
para que possas guardar em mim todos os segredos
Encontrar um abraço no sorriso dos meus olhos
E a coragem renovada de um novo recomeço.

Em cada manhã
Por cada suspiro de primavera
Me desassossegues com o oiro da tua luz
Sussurres brisas acordando a nossa paixão
Rasgando as densas sombras
E eu renascerei ao extinguir-me em ti.
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Soneto de
NATÁLIA CORREIA
Fajã de Baixo/São Miguel/Portugal, 1923 — 1993, Lisboa/Portugal

Mãe ilha

No coração da ilha está um vaso
Cheio das pérolas que pra mim sonhaste,
Ó mãe completa da manhã ao ocaso,
Pastora dos meus sonhos, minha haste.

Parti pras Índias do meu estranho caso
—ó danos que dos versos sois o engate!—
E com maus fados se entendem ao acaso
Lírios e feras do meu vão contraste.

Ave exausta, o retorno quem me dera,
Vou no canta dos órfãos soletrando
O âmbar da manhã que ali me espera.

Feridas asas, enfim ali fechando
Ao pasto e á onda me unirei sincera,
Ilha no manso azul de mãe esperando.
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Poema de
DANIEL FELIPE
(Daniel Damásio Ascensão Filipe)
Ilha da Boa Vista/ Cabo Verde/Portugal, 1925 – 1964, Lisboa/Portugal

Morna

É já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.

os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.

(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta.)

E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
– subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece.
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Trova Popular

Quem roubou o meu amor    
deve ser um meu amigo...
Levou penas, deixou glórias,
levou trabalhos consigo...
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Soneto de
FERNANDO ECHEVARRÍA
Cabezón de la Sal/Espanha, 1929 – 2021, Porto/Portugal

Qualquer coisa de paz

Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.

Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área

de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina.
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Poema de
MANUEL ANTÓNIO PINA
Sabugal/Portugal, 1943 – 2012, Porto/Portugal

Completas

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.
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Soneto de
CESÁRIO VERDE
(José Joaquim Cesário Verde)
Lisboa/Portugal, 1855 – 1886, Lumiar/Portugal

Árvores do Alentejo

Horas mortas … Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido … e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção de uma fonte!

E quando, manhã alta, o sol desponte
A ouro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores, corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
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Poema de
CRISTÓVAM PAVIA
(Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho)
Lisboa/Portugal, 1933 – 1988

Ao meu cão

Deixei-te só , à hora de morrer.
Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos
Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de aceitação
De tudo… e apesar disso, sem o pedir,
Tentando insinuar que eu ficasse perto,
Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão.

Não percebi a evidência de que ias morrer
E gostavas da minha companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado tudo à vida
E começavas a debater-te na maior angústia,
A debater-te
Com a morte.

E deixei-te só, à beira da agonia, 
Tão aflito, 
Tão só 
E sossegado.
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Soneto de
FLORBELA ESPANCA
(Flor Bela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal, 1894 — 1930, Matosinhos/Portugal

Velhinha

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa!…”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio d’ouro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente…
Já murmuro orações… falo sozinha…

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente.
Como se fosse um bando de netinhos.
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Poema de
SAMUEL COSTA VELHO
Lisboa/Portugal

Tanto tempo sem nós

Deu tempo para lembrar tudo
enquanto o meu corpo embatia no chão.

Desde o primeiro olhar fresco que trocamos
até à ausência mútua,
revivi e desvivi, nesse instante.
Com os ossos a desistirem de resistir ao encontro
com o chão suave que me abraçava
e a dor/prazer/tu a começar a sentir-se.
Morri aos pedaços quando a queda acabou, quando
todo eu me apaguei contra o teu peito.
Deu tempo para um pensamento.

O amor ou a tua mão, pergunto-me com qual
me abandonaste primeiro.

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Pantun do
PROFESSOR GARCIA
(Francisco Garcia)
Caicó/RN/Brasil

Pantun da pedra escondida

TEMA:
Nas ruas da minha vida
quantas pedras eu saltei,
mas a pequena escondida,..
Foi nela que eu tropecei!
Vera Maria Bastos Braz 
Juiz de Fora/MG/ Brasil

PANTUN:
Quantas pedras eu saltei,
na menor de todas elas,
foi nela que eu tropecei
em meio a pedras tão belas.

Na menor de todas elas,
eu vi um brilho tão forte,
em meio a pedras tão belas
há nela, o brilho da sorte.

Eu vi um brilho tão forte,
e essa luz, eu não renego,
há nela, o brilho da sorte
da velha cruz que carrego.

E essa luz, eu não renego,
eis a forma desmedida,
da velha cruz que carrego
nas ruas de minha vida!
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Hino de 
SABARÁ/ MG/ Brasil

Entre as lindas montanhas mineiras, 
neste vale que Deus escolheu 
brava gente formando bandeiras 
as primeiras choupanas ergueu!

Em demanda de um vasto tesouro, 
o baiano e o paulista valente 
iniciaram com as minas de ouro 
o progresso da pátria nascente!

Sabará, Sabará, Sabará! 
vila real das áureas tradições! 
Tua imagem gloriosa aqui está 
viva  e presente em nossos corações!

Fluorescente, risonha e formosa, 
enfeitando estas plagas louçãs, 
bem merece o prestigio que goza 
entre as belas cidades irmãs!

Lindos templos cristãos, onde entoa 
o bom gosto com a arte mais rara, 
em que Antônio Francisco Lisboa 
seu talento invulgar confirmara. 

Sabará, Sabará, Sabará! 
vila real das áureas tradições! 
Tua imagem gloriosa aqui está 
viva  e presente em nossos corações!

Aos chamados da pátria querida 
respondeste garbosa e de pé 
'fidelíssima" atenta e aguerrida 
em defesa da honra e da fé!

Grandes feitos se alinham na história 
pela fibra de um povo altaneiro, 
sempre em marcha e vibrante de gloria 
na vanguarda do solo mineiro!

Sabará, Sabará, Sabará! 
vila real das áureas tradições! 
Tua imagem gloriosa aqui está 
viva  e presente em nossos corações!

Corre o aço de forno candente, 
movimenta-se a indústria fabril 
em favor do progresso crescente 
e a grandeza de nosso Brasil!

Salve, salve cidade adorada! 
Grandes filhos que deste ao país! 
Do porvir, na perene jornada, 
Deus te faça maior e feliz.
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Poema de
FERNANDO PESSOA
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935

Quem vende a verdade?

Quem vende a verdade, e a que esquina?
Quem dá a hortelã com que temperá-la?
Quem traz para casa a menina
E arruma as jarras da sala?

Quem interroga os baluartes
E conhece o nome dos navios?
Dividi o meu estudo inteiro em partes
E os títulos dos capítulos são vazios…

Meu pobre conhecimento ligeiro,
Andas buscando o estandarte eloquente
Da filarmónica de um Barreiro
Para que não há barco nem gente.

Tapeçarias de parte nenhuma
Quadros virados contra a parede…
Ninguém conhece, ninguém arruma
Ninguém dá nem pede.

Ó coração epitélico e macio,
Colcha de crochê do anseio morto,
Grande prolixidade do navio
Que existe só para nunca chegar ao porto.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O mono e o leopardo

O leopardo e o mono
Mostravam-se nas feiras
Enchendo as algibeiras.
Bradava o leopardo com entono:
«É conhecida a história
Da minha imensa glória.

O próprio rei quis ver
O meu pelo esquisito, e, ao contemplá-lo,
Ordenou que, no dia em que eu morrer,
Lhe façam um regalo
Da minha pele ondeada,
Zebrada, chamuscada,
Mosqueada, marchetada!»

A cor sempre agradou. Cada qual ia,
Olhava, e nada mais, depois saía.
E o macaco a gritar: «Vinde, senhores,
A ver o rei dos escamoteadores.
Deixai gabar-se o leopardo, que ele
Só tem a variedade à flor da pele:
É vazio no espírito! — Simão,
Vosso servo, que é primo coirmão
E genro de Gaspar,
Que foi mono do papa noutras eras,
Acaba de chegar em três galeras
Só para vos falar.

Sabe falar, cantar, dança e rebola,
Salta, pula, marinha e cabriola,
Faz caretas e partes,
Fura paredes e arcos,
Tudo isto por uns parcos
Quatro vinténs: vinde animar as artes.
E, o que ainda mais importa,
Se a alguém lhe não agrada,
Ensina-se-lhe a porta
E não se leva nada.»

Dou razão ao macaco. Na verdade
A mim não me cativa a variedade
No exterior; chega a cansar a vista.
O espírito, não há quem lhe resista,
Renova-se e seduz.
São certos figurões como o leopardo,
Das galas do trajar fazem alardo,
Tendo os cérebros nus.
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