Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Folclore Sem Fronteiras (África: Oxóssi)




Marly Rondan

Oxóssi

Percorre a floresta escura.
Sob a luz do luar… caça!
Traz pra Terra a fartura.
Põe mel em nossa cabaça.

Protege a nossa floresta.
Revela novos perigos…
Transforma esta vida em festa
e os Orixás em amigos.

Oferendas vou levar.
Refresco de cambuci,
tucuxi vindo do Mar…

Guerreiro e bom caçador,
Pai Oxossi, sua Benção!
Receba o nosso louvor…

OXÓSSI

         Okê!
         Olofin era um rei africano da terra de Ifé, lugar de origem de todos os iorubas.
         Cada ano, na época da colheita, Olofin comemorava, em seu reino, a Festa dos Inhames.
         Ninguém no país podia comer dos novos inhames antes da festa.
         Chegado o dia, o rei instalava-e no pátio.do seu palácio.
         Suas mulheres sentavam-se à sua direita, seus ministros sentavam-se à sua esquerda, seus escravos sentavam-se atrás dele, agitando leques e espanta-moscas, e os tambores soavam para saudá-lo.
         As pessoas reunidas comiam inhame pilado e bebiam vinho de palma.
         Elas comemoravam e brincavam.
         De repente, um enorme pássaro voou sobre a festa.
         O pássaro voava à direita e voava à esquerda ... Até que veio pousar sobre o teto do palácio.
         A estranha ave fora enviada pelas feiticeiras, furiosas porque não foram também convidadas para a festa.
         O pássaro causava espanto a todos! Era tão grande que o rei pensou ser uma nuvem cobrindo a cidade. Sua asa direita cobria o lado esquerdo do palácio, sua asa esquerda cobria o lado direito do palácio, as penas do seu rabo varriam o quintal e sua cabeça, o portal da entrada.
         As pessoas assustadas comentavam:
         "Ah! Que esquisita surpresa?"
         "Eh! De onde veio este desmancha-prazer?"
         "lh! O que veio fazer aqui?"
         "Oh! Bicho feio de dar dó!"
         "Uh! Sinistro que nem urubu!"
         "Como nos livraremos dele?"
         "Vamos, rápido, chamar os caçadores mais hábeis do reino."
         De ldô, trouxeram Oxotogun, o "Caçador das vinte flechas".
         O rei lhe ordenou matar o pássaro com suas vinte flechas.
         Oxotogun afirmou:
         "Que me cortem a cabeça se eu não o matar!"
         E lançou suas vinte flechas, mas nenhuma atingiu o enorme pássaro.
         O rei mandou prendê-lo.
         De Morê, chegou Oxotogí, o "Caçador das quarenta flechas".
         O rei lhe ordenou matar o pássaro com suas quarenta flechas.
         Oxotogí afirmou:
         "Que me condenem à morte, se eu não o matar!"
         E lançou suas quarenta flechas, mas nenhuma atingiu o pássaro.
         O rei mandou prendê-lo.
         De Ilarê, apresentou-se Oxotadotá, o "Caçador das cinquenta flechas". Oxotodotá afirmou:
         "Que exterminem toda a minha fanulia, se eu não o matar".
         Lançou suas cinquenta flechas e nenhuma atingiu o pássaro.
         O rei mandou prendê-lo.
         De Iremã, chegou, finalmente, Oxotokanxoxô, o "Caçador de uma flecha só". O rei lhe ordenou matar o pássaro com sua única flecha.
         Oxotokanxoxô afirmou:
         "Que me cortem em pedaços se eu não o matar!"
         Ouvindo isto, a mãe de Oxotokanxoxô, que não tinha outros filhos, foi rápido consultar um babalaô, o adivinho, e saber o que fazer para ajudar seu único filho.
         "Ah! - disse-lhe o babalaô.
         "Seu filho está a um passo da morte ou da riqueza. Faça uma oferenda e a morte tomar-se-á riqueza."
         E ensinou-lhe como fazer uma oferenda que agradasse às feiticeiras.
         A mãe sacrificou, então, uma galinha, abrindo-lhe o peito, e foi, rápido, colocar na estrada, gritando três vezes:
         "Que o peito do pássaro aceite este presente!"
         Foi no momento exato que Oxotokanxoxô atirava sua única flecha.
         O feitiço pronunciado pela mãe do caçador chegou ao grande pássaro. Ele quis receber a oferenda e relaxou o encanto que o protegera até então. A flecha de Oxotokanxoxô o atingiu em pleno peito. O pássaro caiu pesadamente, se debateu e morreu.
         A notícia espalhou-se:
         "Foi Oxotokanxoxô, o "Caçador de uma flecha só", que matou o pássaro!
         O Rei lhe fez uma promessa, se ele o conseguisse! Ele ganhará a metade da sua fortuna! Todas as riquezas do reino serão divididas ao meio, e uma metade será dada a Oxotokanxoxô!
         " Os três caçadores foram soltos da prisão e, como recompensa, Oxotogun, o "Caçador das vinte flechas", ofereceu a Oxotokanxoxô vinte sacos de búzios; Oxotogí, o "Caçador das quarenta flechas", ofereceu-lhe quarenta sacos; Oxotadotá, o "Caçador das cinquenta flechas", ofereceu-lhe cinquenta. E todos cantaram para Oxotokanxoxô.
         O babalaô, também, juntou-se a eles, cantando e batendo em seu agogô:
         "Oxowusi! Oxowusi!! Oxowusi!!!
         "O caçador Oxo é popular!"
         E assim é que Oxotokanxoxô foi chamado Oxowusi.
         Oxowusi! Oxowui!! Oxowusi!!!

Fontes:
Marly Rondan Pinto. Poesias para evocar os Orixás. São Paulo: Sol, 2011.
Pierre Catumbi Verger. Lendas Africanas dos Orixás. Salvador: Corrupio, 1997.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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