A genética, às vezes, gosta de brincar de poeta. Maya, uma Pastora Belga albina, imponente como um bloco de neve, em sua segunda cria, trouxe ao mundo uma única herdeira. Não houve ninhada barulhenta, apenas ela: Mel. Contrariando a imponência física da mãe, Mel nasceu pequena, com uma pelagem que honrava o nome — um tom de mel dourado que contrastava com o focinho muito preto, como se tivesse sido mergulhado em nanquim.
Mel não era apenas uma cadela; era uma lição de etiqueta e caráter em quatro patas. Enquanto o mundo canino costuma ser movido por instintos caóticos, Mel parecia ter nascido com um código de conduta invisível debaixo da pata. Nunca lhe ensinei as regras da casa, mas ela as conhecia por uma espécie de osmose espiritual. Ela nunca cruzava o umbral da porta sem que meu olhar ou minha voz dessem o "amém" necessário. E na hora do carinho, aquele momento em que a matilha se torna uma confusão de pelos e lambidas, ela mantinha a sobriedade. Esperava, com uma paciência de monge, ser chamada. Quando eu finalmente dizia seu nome e passava a mão em seu rosto, a "Dama de Mel" se desmanchava. Ela se derretia, perdendo a pose, revelando que por trás daquela educação britânica batia um coração carente de toque.
Mas essa doçura tinha um limite bem claro: a disciplina da casa. E o alvo principal era Fluffy, o Border Collie que era a personificação da travessura. Fluffy era o caos; Mel era a ordem. Sempre que o pegávamos retornando de alguma estrepolia — Mel não se omitia. Ela chegava junto, com latidos curtos e autoritários, uma verdadeira "bronca" que deixava claro: "Nós não fazemos isso nesta família, garoto". Era impossível não admirar aquela pequena autoridade. Ela não precisava morder; sua postura e seus sermões caninos colocavam o bagunceiro nos trilhos.
A vida era um quintal seguro enquanto Maya estava lá. Mel e a mãe eram grudadas, uma simbiose de branco e dourado que parecia eterna. Mas o tempo, esse senhor implacável, trouxe mudanças. Mudamos de casa e, logo depois, aos 11 anos de Mel, a luz de Maya se apagou. O luto de um animal é um silêncio que ensurdece a gente. Mel entrou em depressão. A cadela que cuidava de tudo, que ralhava com o irmão e guardava o portão, recolheu-se à sua casinha. Seus olhos, antes atentos, tornaram-se janelas para uma tristeza profunda. Ela estava sozinha, a última de sua linhagem, e parecia apenas esperar o tempo passar.
Foi então que a vida, em sua sabedoria de ciclos, nos trouxe Shine e Cléo. Duas pequenas retiradas das ruas, cheias de energia e sem modos. No início, Mel apenas observava. Mas a alegria caótica das novatas foi o remédio que nenhum veterinário poderia receitar. Ao ver aquelas duas brincando, Mel sentiu o chamado do dever. Ela recuperou as forças, levantou-se da casinha e assumiu o papel de matriarca. Ensinou a Shine e à Cléo tudo o que sabia: como vigiar o portão, como latir para o estranho com a medida certa de autoridade e como manter a dignidade da casa. Ver as três juntas no portão, formando uma barreira de proteção e lealdade, era um espetáculo que enchia o peito de orgulho.
Mas os anos pesam, mesmo para os anjos. Aos 15 anos, o corpo de Mel começou a falhar. Vieram os desmaios. O diagnóstico era o de uma velhice avançada, o coração já cansado de tantas batidas e de tanto amor. Aqueles foram meses de uma vigília desesperada. Eu me tornei a sombra da Mel. Sempre que percebia que ela ia desfalecer, eu corria. Cruzava o quintal em um desespero mudo, estendendo os braços para que ela não atingisse o chão duro, para que não se machucasse. Quando ela voltava a si, eu a envolvia em carinhos, com meu próprio coração acelerado, tentando passar para ela um pouco da minha própria vida através das mãos.
Até que chegou o fatídico 8 de outubro de 2019.
Dizem que o sol brilha de forma diferente quando uma história de quinze anos se encerra. Mel se foi, e com ela, a última memória viva da linhagem de Maya. A dor de perder um animal assim não é algo que se descreve com facilidade; é um vazio que tem o formato exato do corpo dela.
Ficou o silêncio no lugar das broncas no Fluffy. Ficou o portão vazio de sua presença dourada. Mas, acima de tudo, ficou a lembrança daquela cadelinha cor de mel que, sem que ninguém pedisse, decidiu ser a guardiã da nossa ordem e o consolo da nossa alma. Mel não foi apenas uma cachorra; foi o exemplo de que a educação vem do coração e que, mesmo quando perdemos o chão, sempre podemos encontrar forças para ensinar os que vêm depois de nós a latir para a vida com coragem.
(texto integrante do livro de José Feldman: “Minhas irmãs de quatro patas”)
