sexta-feira, 1 de maio de 2026

Arthur Thomaz (Domingo)


Acordou bem cedinho e foi tomar sol no estacionamento do condomínio. Logo em seguida apareceram as famílias vestindo bermudas, chinelos e camisetas sem mangas, dirigindo-se à padaria mais próxima para o tradicional café da manhã dominical. Os mais simpáticos dirigiram-se a ele:

– Bom dia, senhor, deseja que eu traga um pãozinho com manteiga?

Respondeu educadamente:

– Não precisa, mas muito obrigado.

Ao responder pela décima vez que não precisava de pãozinho às várias famílias que passavam, ele resolveu entrar para enfim tomar o seu café, com a estranha sensação de aparentar estar muito magro para lhe oferecerem tanto pãozinho.

Algum tempo depois, foi até a janela e viu aquelas famílias retornando, e em seguida quase todos ligaram seus aparelhos de som. Ouviu-se pelo condomínio uma infinidade de músicas de discutível qualidade, e parecendo disputar uma competição para ver quem coloca o som mais alto.

Olhou novamente pela janela e observou as famílias, agora vestindo roupas de festa, dirigindo-se aos cultos ou missas. Os mais simpáticos novamente perguntaram:

– O senhor quer que rezemos pela sua saúde?

Ateu convicto que era, respondeu ironicamente:

– Sim, sempre é bom um apoio divino.

Saiu mais uma vez para completar os minutos de exposição aos raios solares para sintetizar a vitamina D. Logo em seguida, depois do retorno das famílias, já abençoadas, viu e ouviu um frenético movimento de motoboys entregando refeições nas residências.

Também pôde sentir o aroma de churrasco vindo das casas das pessoas mais abastadas, já que, com o preço da carne atualmente, somente o pessoal com melhores condições financeiras pode dar-se ao luxo de fazê-lo.

Simultaneamente, ouviu-se o tilintar dos talheres chocando com o fundo dos pratos.

Entrou para almoçar e logo em seguida ouviu o alarido das crianças brincando no estacionamento, porque o pai queria assistir sossegadamente o tradicional jogo de futebol do domingo à tarde.

Durante 90 minutos, escutou-se os gritos de gol e os palavrões emitidos respectivamente pelos torcedores do time ganhador e do perdedor do jogo.

Por não ser fã de futebol, resolveu ir até o estacionamento e ficar no frescor da sombra de uma árvore. Algumas crianças, gentilmente, em uma brincadeira, disputaram quem conseguiria levar a sua cadeira de rodas mais rápido e mais longe.

Momentos de apreensão, até que elas cansaram da brincadeira e o abandonaram bem distante, fazendo-o voltar com muito esforço até sua casa.

Ao término do jogo, ouviram-se os gritos das mães chamando as crianças para tomar banho, jantar e preparar-se para dormir. Em seguida, recomeçaram os estrondosos barulhos das motos dos entregadores de pizza e lanches.

Depois de colocarem as crianças na cama, alguns moradores saíram para conversar em altas vozes nos bancos do jardim. Na ocasião, abordaram assuntos interessantes, como novelas, fofocas de artistas ou receitas de bolo.

Novamente, ele saiu para tomar um ar fresco, e elas vieram conversar:

– O senhor está bem?

– Como vai de saúde?

– Passou bem o domingo?

– O senhor tem escrito muitos livros?

Vendo-se cercado e sem saída, educadamente respondeu:

– Eu estou bem, obrigado, e vocês?

Elas imediatamente tabularam uma conversa que parecia não ter fim. Sempre uma delas, sabendo que um dia ele foi mé- dico, indagou:

– O senhor que foi doutor, pode dizer o que a tia da amiga da minha irmã, que está com tosse há mais de 15 dias, tem? E o que o senhor receitaria para ela?

Pacientemente, escutou e deu uma resposta evasiva, correspondente ao nível idiota da pergunta. Tentou inutilmente despedir-se, pois elas queriam contar as fofocas do dia.

Então, ele desligou-se um pouco da conversa, acenando com a cabeça concordando ou discordando, mesmo sem saber o que estavam falando.

Em determinado momento, elas insistiram para que respondesse algo que não ouvira. Desinteressado e distraído, ele concordou com o que falaram, deixando-as contentes; imediatamente despediram-se dele e foram para as suas casas.

Ficou durante alguns minutos respirando ar noturno para recuperar-se daquela conversa inútil. Apareceu uma senhora acompanhada de seu marido, um sujeito enorme, com uma “cara de poucos amigos”.

Ela o interpelou, dizendo:

– Quem o senhor pensa que é para dizer que eu estou errada? Fique sabendo que eu sou uma mulher honesta e nunca fiz o que o senhor disse que está errado.

Virou-se para o marido e continuou:

– Não é, meu bem?

O troglodita do marido respondeu algo que pareceu um rugido de leão. Tentando não aparentar medo, ele respondeu:

– Quem sou eu para dizer algo desse tipo? Eu nem a conheço, como poderia falar sobre a sua vida? Com certeza, deve ter sido outra pessoa.

O marido, nessa hora, diz a ela:

– Meu bem, ele tem razão, se não a conhece, não poderia emitir opiniões a seu respeito.

Ela, muito a contragosto, querendo continuar o “barraco”, sentiu que precisava ir embora, já que tinha perdido o apoio do marido.

Aliviado por ter escapado de uma possível agressão, entrou rapidamente em casa pensando que a agonia do domingo tinha terminado. Ledo engano, ouviu a sua campainha tocar e outra mulher, moradora do condomínio, entrou já perguntando o que ele poderia fazer, porque o filho da tia da faxineira dela estava com febre há três dias.

Delicadamente, disse a ela que levasse o bebê até o pronto-socorro.

Ela insistiu:

– Mas o senhor não vai receitar nada?

Pacientemente, ele repetiu que seria melhor, já que não conhecia o caso, que levasse a criança a um pediatra.

Com cara de quem não gostou, ela resmungou:

– Não se faz mais médicos como antigamente.

Deu um seco boa noite e foi embora. Com certeza vai dizer às amigas que ele é um velho decrépito e que nem servia para receitar.

Telefonou a um amigo relatando os infortúnios do domingo no condomínio. O amigo respondeu que nem todos os domingos poderiam ser tão desafortunados assim.

Ele respondeu:

– Tem razão, meu amigo, nem todos os domingos são iguais. O que diferencia um do outro são os times de futebol no jogo da televisão.

Escapando ileso, foi dormir ao som dos inúmeros cães existentes no condomínio.
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, publicou os livros: Coleção Leves Contos ao Léu: I- Mirabolantes; II– Imponderáveis, III– Inimagináveis, IV– Insondáveis; Trovas: “Rimando Sonhos”, “Rimando Ilusões”, “Rimando Devaneios”. Romances: “Pedro Centauro”; “O Mistério da Princesa dos Rios”, “Vila Esperança” e outros.

Fonte:
Texto e imagem: Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.