segunda-feira, 11 de maio de 2026

José Feldman (A Ampulheta de Asfalto)


O asfalto de São Paulo, às seis da tarde, não é apenas chão; é um organismo vivo, febril e impaciente. No cruzamento da Avenida Paulista com a Consolação, o semáforo não é um equipamento de trânsito, mas um juiz implacável. Quando a luz muda do verde para o amarelo, o coração do motorista não pede cautela, ele exige um último esforço desesperado. E quando o vermelho finalmente se impõe, o que se vê não é o respeito à lei, mas o colapso de mil expectativas.

Dentro de um sedã prateado, com o ar-condicionado no máximo para abafar o mundo, estava Eufrazino. Para ele, aqueles noventa segundos de espera eram uma afronta pessoal do destino. Eufrazino era um homem de "objetivos". Ele não via ruas, via trajetos. Não via pessoas, via obstáculos. Suas mãos tamborilavam no volante em um ritmo de guerra, e seus olhos estavam fixos, hipnotizados, na lanterna traseira do carro à frente, esperando o milagre da luz verde.

Estava sofrendo da doença mais moderna de todas: a cegueira da chegada. Estava tão focado no "lá" que o "aqui" havia deixado de existir.

Enquanto bufava e conferia o relógio pela décima vez, a vida acontecia em alta definição ao seu redor, do lado de fora do vidro fumê.

A dois metros dele, no corredor entre as faixas, um entregador de aplicativo equilibrava a moto e a vida. O rapaz retirou o capacete por um instante para secar o suor e sorriu para uma foto de uma criança colada no painel da moto. Era um sorriso de cansaço, mas de uma doçura que faria qualquer trânsito parecer leve. Eufrazino não viu.

Na calçada, um senhor vendia paçocas. Fazia um truque de mágica simples com as moedas para entreter uma menina que esperava o ônibus com a mãe exausta. A menina gargalhava, um som que cortava o barulho dos escapamentos como um sino de cristal. Eufrazino, imerso em sua própria urgência, apenas praguejou mentalmente contra o "caos urbano".

Havia também o crepúsculo. O sol, entre os prédios de concreto, tingia o céu de um laranja impossível, transformando as vidraças em espelhos de fogo. Era um espetáculo gratuito, uma pausa poética no meio do caos. Mas para Eufrazino, o céu era apenas um pano de fundo irrelevante para o seu atraso inexistente.

A filosofia do sinal vermelho é cruel: quem tem pressa de chegar, já partiu antes mesmo de ir. Eufrazino estava fisicamente parado, mas sua mente já estava na reunião de amanhã, no jantar que ainda não fora servido, nas contas que ainda não haviam vencido. Ele perdia a única coisa que possuía de fato: o agora. Ao não olhar para o lado, não apenas ignorava o próximo; ignorava a si mesmo como parte do mundo. Ele era uma ilha de metal e nervos, isolada do fluxo da existência.

Finalmente, o vermelho cedeu. O verde brilhou como uma promessa de libertação. Ricardo acelerou com uma agressividade triunfante, deixando para trás o mágico da paçoca, o pai motociclista e o pôr do sol de fogo. Chegou em casa cinco minutos mais cedo. Mas, ao descer do carro, sentia um vazio estranho, um cansaço que não vinha do trabalho, mas da resistência constante à vida. Ele tinha corrido tanto para não perder tempo que acabou perdendo a experiência de estar vivo.

Moral:
A vida não acontece apenas nos destinos que traçamos, mas nas pausas que somos forçados a fazer. O sinal vermelho não é um atraso, é um convite: quem olha apenas para a luz que vai abrir, esquece que a beleza e a humanidade do mundo estão sempre estacionadas logo ali, ao lado da nossa janela. A pressa nos faz chegar mais rápido, mas a atenção nos faz chegar mais inteiros.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado, pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Marechal das Letras, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
José Feldman. Receitas de vida. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing