sexta-feira, 8 de maio de 2026

Nilto Maciel (Sonhos)


Um dia, em plena lua-de-mel, ela amanheceu de cara fechada para o marido. Durante o café só abriu a boca para o leite. Nem biscoito quis. Não sentia fome. Indisposta. Ele insistia, ela recusava. Ele amável, ela áspera. Não, não se tratava apenas de inapetência. Falasse a verdade, deixasse de mistérios.

E ela contou o sonho horrível. Flagrava o marido com outra, no maior amor. E ainda riam da cara dela.

Ele riu, gargalhou. Que tolice acreditar em sonho! A mulher mais parecia criança. Pessoa de mentalidade atrasada.

Durante o almoço, ela conversou muito e comeu como nunca. Quis até biscoito na sobremesa.

À noite, quase não dormiram. Sonhos, só os de sempre: ela e ele. E acordaram amáveis, apetitosos, cheios de disposição, sem um só mistério nos lábios.

Passada a lua-de-mel, o sonho horrível se repetiu. E ela de novo amuada, a xícara de leite diante dos olhos mudos. Mistérios, mentiras, discussão.

Ele gargalhou, se engasgou, quase vomitou. Não concebia ter casado com mulher tão tola. Se fosse analfabeta, uma pobre camponesa, uma vassala medieval, dava-lhe até razão.

Ela chorou, não quis mais sequer o leite. O marido não a compreendia. Se soubesse quem ele era, não teria casado.

Compadecido, ele deixou de rir, pediu desculpas. Ela não tinha culpa de sonhar infidelidades. Sonho nenhum. Estudiosos, psicanalistas, Freud, Jung, fulano e sicrano, ninguém ainda conseguira revelar o misterioso mundo do sonho. Talvez coubesse a ele, o marido, a glória dessa revelação. Se ela, a esposa, tivesse mais confiança nele, contasse tudo, todos os sonhos. Futuros e passados.

Quando menina, sonhava brigas, safadezas, castigos. Acordava com raiva da irmã, nojo do coleguinha, ódio da mãe.

Cresceu e nada mudava. Vivia brigando, discutindo, arranjando inimizades. Chamavam-na de menina problemática. Doida até.

Depois da confissão, viveram em paz por dias e meses seguidos. Toda manhã ela contava sonhos para ele. Riam, pacíficos, civilizados e apetitosos. Ele, porém, nunca contava sonho nenhum. Não sonhava ou não se lembrava dos sonhos.

Numa dessas manhãs, ela acordou de cara fechada para ele. De biscoito nem queria saber. Derramou o leite. Patife, bandido, safado! Ele também se exaltava. Maluca, sonhadora, problemática!

Mesa posta: xícaras, copos, pratos, garfos, facas — tudo luzidio, intacto, perfeito. Como num sonho de fartura e felicidade. Ela empunhou uma faca pontuda. Ele arregalou os olhos. Ela continuou a xingar. Não suportava mais tanta infidelidade. Traidor, adúltero, marido perverso!

A faca reluzia na mão trêmula. Havia ódio nos olhos dela. Não sentia fome? De jeito nenhum. Nem para um biscoitinho? Não, muito indisposta. Ele insistia, ela recusava. Falasse a verdade, deixasse de mistérios.

Flagrara o marido com outra, no maior amor. E ainda riram da cara dela.

Ele riu, gargalhou. Que tolice acreditar em sonho! Não concebia ter casado com mulher tão tola.

Ela empurrava a cadeira para trás, furiosa, faca em punho. Bandido, traidor, safado! O leite transformava-se em sangue. Não podia haver amor onde havia traição.

Sonho desfeito.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing