Texto sobre o trístico de José Feldman
No jardim, só uma flor,
triste, abandonada...
é o resto de nosso amor.
Certa manhã, enquanto caminhava por um antigo jardim da cidade, fui atraído por uma flor solitária que brotava em meio ao mato. Era uma flor simples, mas sua beleza tímida se destacava no cenário de descaso e abandono. Olhei para ela e senti uma pontada de tristeza. Aquela flor parecia representar muito mais do que um mero elemento paisagístico; era um símbolo de algo perdido.
A lembrança de um amor que um dia floresceu em minha vida invadiu minha mente. Lembrei-me de como tudo começou: sorrisos, promessas e a esperança de um futuro juntos. O jardim de nossas vidas estava repleto de cores vibrantes, onde cada momento compartilhado era como uma pétala que se abria em direção ao sol. Mas, como muitas histórias, a nossa também teve seus altos e baixos. Com o tempo, as brigas e desentendimentos começaram a sufocar a beleza que havíamos cultivado, até que um dia, aquele amor se foi, deixando apenas uma flor triste e abandonada.
O que restou foram memórias e ecos de risadas, mas também um profundo vazio. Assim como a flor, eu sentia que aquilo que um dia fora vibrante se tornara algo solitário e melancólico. A vida seguia em frente, mas havia uma parte de mim que ainda permanecia naquele jardim, presa ao que poderia ter sido.
Enquanto observava a flor, percebi que, apesar de sua aparência triste, ela ainda lutava para sobreviver. Era um testemunho silencioso de resiliência em meio ao descaso. Aquela flor, assim como eu, estava tentando encontrar seu lugar em um mundo que parecia esquecer. A beleza da luta pela vida, mesmo em condições adversas, era algo que não poderia ser ignorado.
Decidi me aproximar e toquei suavemente suas pétalas. Foi quando percebi que, mesmo em sua solidão, ela ainda guardava uma esperança silenciosa. A flor estava tentando se adaptar, a buscar luz mesmo em meio à sombra. O coração apertou ao compreender que, muitas vezes, o amor também é assim: uma luta constante por reconhecimento e cuidado, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis.
De repente, uma ideia surgiu em minha mente: e se eu cuidasse daquela flor? O jardim poderia ser restaurado, e a beleza poderia voltar a florescer. A vida é feita de ciclos, e, assim como a flor, nós também podemos renascer, mesmo após um amor que deixou marcas.
Com essa nova perspectiva, decidi que não apenas me importaria com aquela flor, mas também com meu próprio jardim interior. Começaria a regar as memórias boas, a cultivar novos sentimentos e a deixar para trás o que já não servia mais. Afinal, a vida continua, e cada um de nós tem a capacidade de florescer novamente.
Ao me afastar do jardim, percebi que a flor, embora triste e abandonada, tinha me ensinado uma valiosa lição: mesmo as situações mais difíceis podem nos ensinar sobre resiliência e esperança. E, assim, o resto do nosso amor poderia se transformar em um novo começo, onde novas flores poderiam brotar, trazendo cor e alegria aos dias que ainda estão por vir.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul.
Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing