O nosso cronista maior, Luiz Fernando Veríssimo, uma das penas mais lúcidas e mais saborosas do Brasil – Não se usa mais pena. Que pena! -, escreveu um artigo que leio em página da Internet: Uma Vizinha Maravilhosa. Falava de certa moradora há pouco chegada no bairro e que passou a ocupar apartamento em frente ao seu. Uma mulher, como explica, que existe e não existe. Em outras palavras, para o escritor o cotidiano passa a ser uma mescla da realidade e da ficção, quando expresso no papel ou como se costuma fazer hoje, quando materializado no écran do computador.
A partir daí assumi a condição de observador do meu entorno, sem desejar encontrar gente maravilhosa, mas interessado nessas rotinas domésticas, sobretudo aquelas dos finais de semana, nos quais há surpresas e fugas do repetitivo de todos os dias. Talvez os sábados e os domingos tenham mais utilidade do que as manhãs, as tardes e as noites dos dias considerados úteis, à exceção do que se assiste nos canais de televisão do Brasil. Não importa imaginar, como Veríssimo, que a penitente faz tudo em função do vizinho mais antigo. Como na crônica do mestre, entretanto, ela existe e não existe, tudo ao mesmo tempo.
Em prédio do tipo caixão, no segundo andar, depois de dois lances de escada, chega pelas seis da noite em geral, uma criatura de seus quarenta anos. Mora só, como já notei, mas muito raramente traz uma companhia masculina, jovem, bem mais novo que ela, cujo papel nos feriados é o de transitar em casa vestido em trajes menores. Abre as janelas todas, como se precisasse de ar e vai ao banho. Sai do chuveiro às carreiras, com uma toalha enrolando a cabeça. Mulher bonita tem isso, envolve-se dessa maneira e deixa o resto a descoberto. Veste-se com uma camisola azul e vai assistir aos programas da telinha.
Vez ou outra desce e fica em frente ao edifício esperando alguém. Não se pode divisar bem se o acompanhante de ocasião é o menino ou se não é. Parece não ser! Passeia, vai aos bares mais badalados ou assiste aos filmes em cartaz, mas cuida em voltar logo, pelas dez no máximo, pois amanhã é dia de branco, imagino. Cumpre o ritual de sempre e cai nos braços de Morpheu. O estado civil não se consegue revelar nesses contatos quase virtuais, mas por certo é separada, sem filhos de um casamento efêmero, fortuito ou de um marido que não lhe soube apreciar os dotes físicos e intelectuais.
É do tipo pícnico*, segundo Lombroso, que teria uma paixão fulminante, se vivo fosse e por cá viesse. Baixinha e um tanto gorducha, cheinha melhor diria, com destaque para um busto bem sucedido e as cadeiras alargadas, como cumpre ser mesmo. Há pouco acrescentou umas gramas a mais e com certeza faz regime para reaver o tempo. Cuidadosa com a pele, passa cremes e mais cremes no corpo, na face e nos braços, mas dedica-se à manutenção de sua performance glandular, fazendo movimentos circulares no tórax, sempre. É fácil notar que usa condicionador do bom, importado, quiçá.
Nos feriados, nunca dispensa a música mais antiga, as de Nelson Gonçalves, especialmente. E Dolores Sierra ganha os ares da rua e todos já sabem, até as crianças, que nascida em Salamanca cumpriu a rudeza da vida na beira do cais, em Barcelona, como tantas que vi. Há até quem brinque e indague: “Onde nasceu Dolores Sierra?”. Toda gente conhece a resposta! Ao que parece, sente falta do pai, porque não deixa de ouvir uma letra a propósito dessas ausências sofridas, com certeza, na orfandade: “Naquela mesa/Está faltando ele/E a saudade dele/Está doendo em mim/...”. Dói mesmo! E como dói!
Toma uma cerveja em lata, cuja marca não se identifica à distância, depois dorme como uma justa diante do Criador e só acorda pelas cinco ou seis horas. Perde o sono da noite, porque com o passar dos anos o travesseiro fica ingrato, cansado, talvez, de acolher e acalentar. Por isso, arruma o guarda-roupa e nunca vi tanta peça de vestuário sendo posta e reposta ou exposta nos cabides e nas gavetas. Há lugar pra tudo, como penso, para aquelas de maior luxo e as de seu cotidiano. Quando termina a noite vai alta e não existe opção diferente do simplesmente deitar e dormir ou madornar, como dizia minha tia velha.
E assim vai. Existe e não existe!
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* O termo pícnico refere-se a um tipo constitucional humano caracterizado por baixa estatura, formas arredondadas, abdômen proeminente e membros curtos.
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Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.
Fontes:
Geraldo Pereira. Fragmentos do meu tempo. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
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