segunda-feira, 11 de maio de 2026

David Mourão-Ferreira (Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa)


ALVORADA

E de súbito um corpo! Alvorada sombria,
alvorada nefasta envolta nuns cabelos…
Eram negros e vivos. Quem sofria,
dentro de mim, e assim tremia
só de vê-los?

Eram negros; e vivos como chamas.
Brilhavam, azulados, sob a chuva.
Brilhavam, azulados, como escamas
de sereia sombria, sob a chuva…

Veio cedo de mais a trovoada:
o vento me lembrou
de quem eu sou.
— Alvorada suspensa!, contemplada
por alguém que chegou a uma sacada
e à beira da varanda vacilou.
= = = = = = = = = 

CANTIGA

Todo o dia senti, bem funda, em mim,
a tortura do beijo que não demos:
lago sereno, preso num jardim,
saudoso dum nenhum sulcar de remos…
= = = = = = = = = 

EPIGRAMA PARA UMA DESPEDIDA

Pasmo de ainda murmurar «Bom dia!»,
depois de tudo quanto aconteceu.

Ó meu amor, a minha cobardia
foi afinal muito maior do que eu.
= = = = = = = = = 

EPIGRAMA PARA UMA SEGUNDA DESPEDIDA

Eis o que espanta: ainda nós sabemos
os gestos rituais de despedida!

E, tarde ou cedo, à noite adormecemos,
embora sem a alma adormecida.
= = = = = = = = = 

EPITÁFIO

Cada sorriso teu agora só desperta
este remorso vil que a minha vida tem:
— A tua alma estava à minha espera, aberta…
Repousei no teu corpo e não fui mais além.
= = = = = = = = = 

INSCRIÇÃO SOBRE AS ÁRVORES

A secreta viagem foi aquela
por entre estrelas verdes esboçada…

Chamei, a cada fruto, verde estrela.
Tombei, ébrio de estrelas, sobre a estrada…
= = = = = = = = = 

INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS

Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.
= = = = = = = = = 

LÁPIDE

Sortílego castelo pardacento,
por onde as pombas ágeis se extasiam
em curvas que são delas, e do vento…

Castelo onde os teus gestos se mediam
pela graça que os deuses consentiam
às deusas que faziam seu tormento…
= = = = = = = = = 

MINUTO

O amor? Seria o fruto
trincado até mais não ser?
(Mas para lá do prazer
a Vida estava de luto…)

Fui plantar o coração
no infinito: uma flor…
(Mas para lá do fervor
a Vida gritou que não!)

O amor? Nem flor nem fruto.
(Tudo quanto em nós vibrara
parecia pronto a ceder…)

Foi apenas um minuto:
a fome intensa, tão rara!,
de ser criança, ou morrer…
= = = = = = = = = 

PAISAGEM

Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exato.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)
= = = = = = = = = 

PARAÍSO

Teu corpo, agora tão perto,
é brisa que me consente
na aridez do meu deserto
a graça duma nascente…

Logo a nascente permite
o florescer dum pomar…
(Eu amei-te — mas perdi-te
por começar a pensar…

Às simples evocações
dum possível paraíso,
logo em nossos corações
se delineia um sorriso…)

E teu corpo, inda mais perto,
é brisa que me desmente…
(Sob o sol do meu deserto,
alonga-se uma serpente.)
= = = = = = = = = 

TEORIA DAS MARÉS

Calidamente nua,
sob o vestido leve,
tua carne flutua
no desejo que teve.

Timidamente nua,
revelas, num olhar,
em minhas mãos, a lua
que te fez oscilar.
= = = = = = = = = 
Fontes:
David Mourão-Ferreira. Obra Poética [1948-1995]. Porto/Portugal: Porto Editora, 2019
Imagem criada por Jfeldman