sábado, 9 de maio de 2026

Irmãos Grimm (Avezinho)


Era uma vez um guarda-florestal que saiu à caça e, encontrando-se no bosque ouviu, de repente, uns soluços como os de uma criancinha. Dirigindo-se ao ponto de onde vinha o choro, chegou a uma árvore alta, em cuja copa se achava uma criança bem pequenina. A mãe dela havia adormecido sentada no chão com o pequeno nos braços, quando uma ave de rapina, vendo o bebe no seu colo, baixara voando e, depois de apanhar a criança com o bico, a depositara na copa daquela árvore.

O guarda-florestal trepou na árvore e, agarrando a criança, viu que era um menino e pensou: "Eu o levarei para minha casa e o criarei junto com a minha Heleninha. "

Assim fez ele e as crianças cresceram juntas. Ao menino que fora encontrado na árvore puseram o nome de Avezinho. Ele e Heleninha se queriam, tanto, tanto, que, quando um não via o outro, ficava triste.

O guarda-florestal tinha uma cozinheira velha que certa tarde, apanhou dois balões e foi ao poço buscar água. Tantas vezes encheu os baldes que Heleninha, intrigada, perguntou-lhe:

- Para que vai buscar tanta água, velhinha?

- Se não contares a ninguém, eu te digo. - respondeu a cozinheira.

Heleninha assegurou-lhe que nada diria e a velha, então, lhe revelou o que ia fazer:

- Amanhã bem cedo, depois que o patrão tiver saído à caça, ferverei esta água e, quando a caldeira estiver chiando, jogarei Avezinho dentro para cozinhá-lo.

No dia seguinte, de madrugada, o guarda-florestal levantou-se para ir caçar, enquanto os meninos continuavam na cama. 

Heleninha, então disse a Avezinho:

- Se não me abandonares, também eu não te abandonarei.

Respondeu-lhe o menino:

- Nem agora, nem nunca.

Continuou Heleninha:

- Bem, vou te contar uma coisa: ontem de noite vi que a velha criada trazia muitos  baldes de água do poço e lhe perguntei por que fazia aquilo. Respondeu que me diria se eu não contasse a ninguém. Prometi-lhe e ela, então, contou que esta manhã, quando meu pai estivesse caçando, ferveria a água na caldeira e te jogaria nela para  te cozinhar. Vamos saltar da cama para nos vestirmos e fugir daqui.

Os dois se levantaram, aprontaram-se rapidamente e depois fugiram mais que depressa. 

Quando a água ferveu na caldeira, a velha foi ao quarto em busca de Avezinho, com intenção de pô-lo à cozinhar, mas ao aproximar-se da cama, viu que os dois pequenos haviam desaparecido. Diante disso, assustou-se e pensou: "Que direi quando o guarda-florestal voltar e as crianças não estiverem mais aqui? Devo trazê-las de volta."

Ordenou a três criados que saíssem atrás dos dois meninos e os trouxessem para casa.

Enquanto isso, os pequenos se haviam sentado na margem da floresta e, ao verem de longe os três criados que se dirigiam a eles, disse Heleninha a Avezinho:

- Se não me abandonares, também eu não te abandonarei.

- Nem agora, nem nunca - respondeu Avezinho.

E Heleninha tornou a  falar:

- Transforma-te em roseira e eu serei a rosa.

Quando os três criados chegaram ao bosque, não viram mais que uma roseira com uma só rosa. Dos dois meninos, nem rasto.

- Aqui não há ninguém! - disseram eles.

Deram volta e foram dizer à cozinheira que só tinham visto uma roseira com uma única rosa. Aí a velha gritou indignada:

- Idiotas! Deviam ter cortado a roseira, apanhando a rosa e trazido para casa. Saiam correndo e façam o que lhes disse.

E os três tiveram de voltar ao bosque. As crianças porém, os avistaram de longe e Heleninha falou:

- Avezinho, se não me abandonares, também  eu não te abandonarei.

E o menino respondeu:

- Nem agora, nem nunca.

- Então transforma-te numa igreja. Eu serei uma  coroa, dentro dela.

Quando chegaram os criados só viram a igreja e a coroa em seu interior. Puseram-se, então, a comentar:

- Mas que é que havemos de fazer aqui? O melhor é voltar para casa.

Lá a velha perguntou-lhe se haviam encontrado os meninos. Eles responderam que não e que apenas tinham visto uma igreja com uma coroa dentro.

- Idiotas! - gritou a velha. Por que não derrubaram a igreja e não me trouxeram a coroa?

Pôs-se, então, ela mesma, a caminho, acompanhada dos três criados, em busca dos pequenos. Mas estes viram aproximar-se os três homens e a velha, que vinha rengueando atrás. E Heleninha disse:

- Avezinho, se não me abandonares, também eu não te abandonarei.

E o menino respondeu:

- Nem agora, nem nunca.

- Pois transforma-te num lago e eu num pato nadando em tuas águas.

Chegou a cozinheira e, ao ver o lago, abaixou-se para sorvê-lo. Mas o pato veio nadando,  a toda pressa e, apanhando-a com o bico, pelos cabelos, puxou-a para dentro da água e a velha bruxa afogou-se. Os meninos regressaram à casa, alegres e contentes, e caso não tenham morrido, com certeza ainda estarão vivos.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.
Imagem obtida no Youtube