domingo, 17 de maio de 2026

JFeldman ( O Mundo sob as unhas de terra)

Crônica tendo por base a trova de Eduardo A. O. Toledo (Pouso Alegre/MG)
Quem dera se o povo inteiro
num gesto de amor profundo,
fosse apenas jardineiro
plantando rosas no mundo!

A trova que ecoa esse desejo singelo — a humanidade trocando armas e pressas por pás e sementes — carrega uma utopia que não cheira a papel, mas a terra molhada. Se o povo inteiro decidisse, em um levante silencioso, tornar-se jardineiro, a primeira coisa que desmoronaria seria a nossa arrogância.

Ser jardineiro é, antes de tudo, aprender a gramática da paciência. No jardim, nada é para "ontem". O botão da rosa não acelera o passo porque o mundo está em crise; ele exige o tempo justo do sol e a dose exata do cuidado. Se fôssemos todos cuidadores de canteiros, talvez as guerras cessassem por um motivo muito prático: quem tem uma roseira para podar e uma muda para proteger não tem as mãos livres para carregar o ódio.

O gesto de plantar uma rosa no mundo é um ato de rebeldia contra o cinza do asfalto e a frieza dos algoritmos. Imagine o cenário: o político que, antes de discursar, precisasse retirar os matos secos do caminho; o vizinho que, em vez de erguer muros de concreto, plantasse cercas vivas de perfume. A política do jardim é a política da vida. Nela, o sucesso não é medido pelo que se acumula, mas pelo que se faz florescer no espaço que é de todos.

No entanto, ser jardineiro do mundo exige um "amor profundo", como diz o verso. Não é um passatempo de domingo, mas um compromisso de alma. É entender que a rosa que eu planto na minha calçada é o perfume que o vento levará para a sua janela. É a percepção de que o planeta não é um almoxarifado de recursos, mas um solo sagrado que pede cuidado constante sob as nossas unhas.

Se trocássemos o ego pelo adubo, descobriríamos que a beleza é a única riqueza que aumenta quando é dividida. Enquanto esse dia não chega, resta a cada um de nós cuidar do pequeno quadrado de terra que o destino nos deu. Porque, no fundo, todo mundo que sorri para uma flor já começou, sem saber, a sua revolução.
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JFELDMAN (JOSÉ FELDMAN) (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Marechal das Letras, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal).  Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
JFeldman. Caleidoscópio da Vida. vol. 2. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por JFeldman com IA Microsoft Bing