sábado, 16 de maio de 2026

Renato Benvindo Frata (Um quintal, um mundo)


Quando se é criança, a dimensão das coisas como as vemos se agiganta aos nossos olhos em relação ao nosso próprio tamanho. Tudo é grande, comprido, balofo.

Minha mãe era alta, espadaúda, ligeira e silente. Pisava manso enquanto cantava baixinho hinos sacros à Santa Maria. Em casa, o rádio era ligado apenas para notícias e novelas.

Enquanto cantava, passava roupas assoprando o ferro em brasa. As músicas britavam de seu íntimo e eu a olhava, sem a distrair. Admirava-a sem sair do redor de seus pés.

Na sala, cercado de búricas e papéis, assistia aos movimentos dos seus braços e dos chiados do ferro quente sobre o pano respingado de água, sobreposto à roupa sendo passada.

Quando me ponho a lembrar, ainda o escuto e, se bem apurar também o olfato, saberia distinguir o cheiro peculiar do tecido ao ser secado pela quentura do ferro, até que a fumaça bambeasse bêbada pra aqui e ali, pelo vento da janela.

Nosso quintal de esquina era tomado por pés de chuchu, de bucha, uma horta, o galinheiro, o pé de araticum, de santa bárbara e de um enorme forno a lenha. Embaixo dele, achas de lenha, gravetos e até ninho de galinha.

Nesse quintal eu era o Zorro. Eu era o Tarzan. Eu era o Randolph Scott, o mais rápido no gatilho, e vivia meu mundo de moleque magrelo a cavalgar um cabo de vassoura com rédeas de trapo, cuja montaria tanto poderia ser o ‘Stardust’ do Randolph, ou o ‘Silver’ do Zorro. E tudo era tiros, gritos de “mãos ao alto” e relhadas sob estalos imaginados.

Os caroços de santa bárbara enchiam-me os bolsos, fazendo do meu estilingue o revólver mais certeiro com o quintal transformado em pradaria replicada do Grand Canyon, das matinês dos domingos, com o mocinho a dominar os bandidos. E eu gritava.

Lá pelas tantas, minha mãe chegava e, sem muito falar, tomava-me pela mão para o banho. A passada de bucha nos encardidos doía, o mercúrio cromo nas machucaduras amenizava, para terminar com um beijo, a roupa limpa e um tapinha no traseiro.

Cresci. Meus olhos perderam a extensão que avolumava coisas, e minha mãe envelheceu. Ficou menor, arcada, lenta e calada. Dependente. Seus braços já não aguentavam nem o ferro agora elétrico, mais leve. De sua boca já não saíam mais os cânticos religiosos, mas pedidos em sopros entrecortados pelo esforço dos lábios, enquanto tentava, com os olhos miúdos, a me reconhecer. Então pedia: "minha casa, filho, quero a minha casa..."

Talvez, nesses lances, ela se visse, ainda, com o ferro de brasa na mão a cochichar cantigas... e imaginava ver de sua suposta janela o menino arteiro a cavalgar o mundo.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fonte:
Texto e imagem enviados pelo autor.