domingo, 17 de maio de 2026

Iara Tonidandel (A Melhor Estação)


Os dias frios do inverno acenam lentamente em sinal de despedida, desejando-me: "Cuide-se... até o próximo ano!" Em pensamento, retribuo o gesto, pedindo aos céus que as três próximas estações desacelerem os relógios, retardando o desnudamento das árvores, o branco que reveste as campinas e, principalmente, o retorno de chuvas com ventos avassaladores que fazem com que eu passe dias a observar o mundo pelos vidros embaçados e lacrimejantes das janelas de minha casa.

Ela será a primeira a instalar o período de cores e calor pelos ares que respiro. Sim, a primavera é o portal que, ao abrir-se, levará meu olhar a admirar o jardim que estará a florir em breve. Mas flores em canteiros e pergolados não acontecem ao acaso, certo? Aprendi com minha mãe que há várias questões a serem atendidas até que os perfumes exalados por elas transformem em puro êxtase nossos dias e noites. E esses atendimentos antecedem a chegada dessa estação do ano.

Desenhe um contorno de jardim que fará você dançar ao percorrê-lo e, de acordo com o sentido que seus pés tomarem, o ritmo da música poderá variar. Assim, a monotonia de um cotidiano dificilmente se instalará, tornando seu jardim o palco de uma coleção de melodias a serem bailadas.

Arejar e adubar a terra é essencial, tal como manter e renovar os livros de nossas bibliotecas. Pesquise e descubra manejos, produtos e equipamentos inovadores, mantendo os clássicos cuidados já testados e, comprovadamente, eficientes e eficazes. Assim como alimentar nossas ideias com aprendizados nos conduz à ampliação de conhecimento, remexer a terra cria espaços que serão fertilizados por bactérias, fungos e pelo húmus produzido por minhocas que nela, ao se instalarem, se multiplicam.

Escolher quais as plantas e flores a serem cultivadas é um ponto-chave em qualquer instalação de jardim. Quase tão essencial quanto a definição da lista de convidados de uma festa e a disposição destes nas mesas. Na lista, observe se as plantas e flores selecionadas estão presentes em sua região, considerando os aspectos climáticos. Importante avaliar as tensões existentes entre cada uma delas ao dispô-las no ambiente, promovendo harmonia e equilíbrio entre as diferenças que as caracterizam. Defina o local em que o jardim deverá apresentar maior exuberância, para ali plantar as mais próximas de seu gosto pessoal e de sua essência.

O plantio é um momento de apogeu. Luminoso! Veste-se de roupa de festa, sendo regido por uma orquestra sinfônica que apresenta desde os clássicos até os mais irreverentes ritmos, com acompanhamento de variados trinados e penas coloridas. Toque na terra e sinta a energia que dela emana. Saboreie-a como quem degusta um prato do chef mais famoso do planeta.

No transcorrer dos meses em que as flores brotarem, abrindo suas pétalas e folhas em resposta ao piscar dos olhos solares, enfeitando as noites abrilhantadas pela deusa lunar, lembre-se de, cuidadosamente, retirar o inço que ali aparecer. O inço pode ser comparado com aquele que inveja tudo que é belo e busca, de forma sorrateira ou não, ofuscar o que faz bem aos olhos e ao coração. Retirá-lo é trabalho constante, tipo orar antes do adormecer ou reafirmar seu amor ao ente amado.

Finalmente, no transcorrer do novo inverno, a poda. Podar não é cortar. O corte pode eliminar uma planta. A poda, longe de ser um ato que promove a dor, é ação que brinda à renovação, ao renascer, favorecendo a florescência e o crescimento. É como dar limites às crianças e jovens, sem desrespeitá-los.

Lembrando a voz de minha mãe: um jardim não é um conjunto de plantas e flores, mas sim a soma dos sentimentos e emoções de quem o constrói. Jardim não se olha. Jardim se sente, se admira.

Na primavera, reflito sobre meu jardim e as possibilidades que ele me oportuniza.

Fontes:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Publicado em 15 de setembro de 2025 pela Editora Metamorfose https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeprimavera
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