domingo, 31 de maio de 2026

José Feldman (Trapalhadas de Pafúncio num estúdio de TV)

Pafúncio era jornalista da revista Fofocas & Cia, famoso por ser o mais atrapalhado de toda a redação: esquecia o caderno, trocava nomes, tropeçava em tudo o que via e sempre saía das entrevistas com histórias que ninguém entendia. Desta vez, a missão era grande: entrevistar os protagonistas da novela Amor e Caos,  maior sucesso da TV.
 
Chegou ao estúdio com o caderno de capa rosa (que era da irmã), uma caneta que não funcionava e um gravador que ele nem sabia ligar direito. Encontrou primeiro a atriz Mariana, que interpretava a doce e elegante Luísa.
 
— Boa tarde, dona Marisa! — disse ele, já errando o nome, estendendo a mão e tropeçando no próprio pé, quase caindo em cima dela.

— Mariana. E tudo bem? Você não se machucou? — perguntou ela, segurando o riso.

— Tudo ótimo, tudo ótimo! Descuido meu, sou meio… assim mesmo. Vamos à entrevista: na novela, sua personagem vive um amor proibido com o mocinho. Você acha que na vida real esse tipo de amor daria certo?

— Ah, com certeza! Se houver respeito e confiança, tudo dá certo — respondeu Mariana, sorrindo.

— Entendi! Então você namora alguém proibido na vida real? — perguntou Pafúncio, abrindo os olhos, achando que tinha descoberto uma bomba.

— Claro que não! Eu falei se houvesse, não que eu faça isso — explicou ela, já começando a se arrepender de estar ali.

— Ah, sim, sim! Então é um segredo, entendi, entendi… — ele anotou no caderno, mas como a caneta não funcionava, só fazia riscos pretos no papel. — Próxima pergunta: qual é a sua comida preferida para comer nos bastidores?

— Gosto muito de pastel de queijo, é simples e gostoso.

— Pastel de queijo! Anotado… — ele fingiu escrever. — E você já comeu pastel com goiabada com o seu par romântico?

— Que pergunta é essa? Nunca! E por que eu faria isso?

— Para ter sorte no amor, dizem que funciona! Eu mesmo tentei uma vez e queimei a língua — contou ele, sério, enquanto Mariana não sabia se ria ou se ia embora.
 
Nisso chegou Carlos, o ator que fazia o papel do galã Pedro, todo arrumado e cheio de confiança.
 
— Olha só quem vem! O grande Carlos Alberto! — gritou Pafúncio, correndo até ele e esbarrando numa pilha de cabos, que quase derrubaram uma luz gigante.

— É só Carlos. E cuidado, hein? Você vai derrubar o estúdio inteiro — brincou o ator.

— Desculpa, desculpa! É a empolgação! Vamos lá: você interpreta um homem corajoso, que enfrenta tudo por amor. Na vida real, você é assim tão valente?

— Mais ou menos. Tenho medo de barata, por exemplo — respondeu Carlos, rindo.

— MEDO DE BARATA?! — Pafúncio gritou tão alto que os técnicos olharam para eles. — Que furo! O grande galã da televisão tem medo de bichinho pequeno!

— É normal, muita gente tem! Não é nenhum furo, não — tentou explicar Carlos.

— Claro que é! Vou colocar na capa: “O Herói da Novela Foge de Baratas”! Vai vender milhares de exemplares!

— Por favor, não faça isso! Vão me chamar de medroso para sempre!

— Tudo bem, tudo bem… eu penso num título melhor. Que tal: “Pedro, o Valente, Tem Um Segredo Fofo”? 

— Melhor, mas ainda assim… — suspirou Carlos. — Vamos para outra pergunta?

— Claro! Você beija muito bem na novela, todo mundo comenta. Você pratica muito em casa?

— Pratico o quê? Claro que não! É atuação, é trabalho!

— Ah, então é dom natural! Que sorte a sua. Eu já tentei praticar uma vez com a minha almofada e caí da cama — contou Pafúncio, muito sério, enquanto Mariana cobria o rosto de vergonha e Carlos não parava de rir.
 
De repente, apareceu a diretora da novela, Dona Rosália, uma senhora muito séria e brava.
 
— O que é toda essa algazarra aqui? Vocês estão atrasando as gravações! — esbravejou ela.

— Dona Rosa! Que honra! — disse Pafúncio, correndo até ela e tropeçando novamente, dessa vez derrubando uma mesa com copos de água. — Ai, meu Deus! Me perdoa, eu pago tudo, eu juro!

— É Rosália! E pare de derrubar as coisas, pelo amor de Deus! Quem é você mesmo?

— Pafúncio, da revista Fofocas & Cia. Estou fazendo a grande matéria sobre a novela!

— Grande matéria? Até agora você só errou nomes, fez perguntas absurdas e derrubou metade do equipamento — disse ela, cruzando os braços.

— É que… sou muito dedicado, mas às vezes as coisas saem um pouco diferente do planejado — explicou ele, coçando a cabeça. — Mas já tenho tudo pronto!

— Ah é? E o que você descobriu de tão importante? — perguntou ela, desconfiada.

— Muita coisa! Mariana gosta de pastel, Carlos tem medo de barata e vocês todos são muito legais! — disse ele, todo orgulhoso.

— Isso é tudo? — perguntou Mariana, surpresa.

— Não! Também descobri que vocês têm muita química! Porque toda vez que eu falo alguma coisa, vocês riem juntos! É amor, tenho certeza!

— Nós rimos de você, Pafúncio! — falou Carlos, ainda rindo muito.

— Ah, então é amizade! Melhor ainda! Vou escrever: “Amor, Risadas e Pastel: Os Bastidores Mais Divertidos da TV”!

— Pelo menos o título é bonito — concordou Rosália, já sem jeito. — Agora, por favor, saia daqui antes que você derrube o teto também!

— Já vou, já vou! Muito obrigado a todos! Vocês são os melhores! — disse ele, acenando, e na saída esbarrou numa porta, que bateu forte e fez cair um letreiro da novela.
 
Quando chegou à redação, o chefe perguntou:

— E aí, Pafúncio? Conseguiu uma boa história?

— Consegui, chefe! É a melhor de todas! E ainda saí de lá sem quebrar nada… bem, quase nada! — respondeu ele, mostrando o caderno cheio de riscos e poucas palavras.
 
E a matéria saiu na semana seguinte: cheia de erros, histórias inventadas e detalhes engraçados que ninguém tinha dito, mas que fez a revista vender muito. E os atores, ao lerem, só conseguiram rir muito — e combinaram que, na próxima entrevista, iam se preparar muito… ou então fugir assim que vissem Pafúncio chegando.

Fonte:
José Feldman. Nossas risadas de cada dia. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.