domingo, 31 de maio de 2026

Aparecido Raimundo de Souza (O sorriso do abismo)


VÁRIAS PESSOAS que conheço costumam dizer com convicção acirrada e espírito crente, que o abismo é puro silêncio. Um silêncio enorme e vazio, pesado e ausente. Todavia, imbuído de bons presságios creio ser de vaticínios alvissareiros.  Eu juro por tudo quanto é sagrado, apesar dos pós e contras, o abismo me sorriu. Embora procure ser a cada novo dia um homem de instintos fáceis, é bem verdade, posso afirmar com precisão se tratar de uma alacridade da mais pura alegria e felicidade, sem aqueles indesejados percalços repletos de flagelos e calamidades. 

Esse regalo que capturei no rosto do despenhadeiro, apesar de se moldar num gesto enigmático, (como quem guarda um sigilo intransponível em roupagem de cautela) só se revela verdadeiramente a quem ousa encarar sem medos ou receios a negritude de sua escuridão pesada e densa, sem piscar, ou melhor, sem ao menos descambar para o terreno da morbidez exasperada. O sem fim sorriu para mim, sorriu generoso, voraz, (e disso me lembro bem), sorriu radioso apesar de uma tarde triste e melancólica, em que a vida me parecia suspensa, sem sentido e sem direção. 

Eu estava à beira de um turbilhão de escolhas, onde só conseguia contemplar perdas. Nada de ganhos. Na verdade, eu estava à mercê de um buraco enorme, de uma cratera em torno da qual via lá no fundo a mim mesmo. E foi ali, no limite entre uma espécie sórdida de medo e uma nesga de coragem, atrelado igualmente a uma dúvida traiçoeira e cruel amarrado a uma incerteza paralítica, que percebi: o abismo ali bem aos meus pés, por mais imenso que me espionava, não se constituía num inimigo. Ele se transformara, do nada, mostrando tudo, como uma espécie de visão do amanhã. 

Uma visão benfazeja onde o seu sorriso para lá de mavioso se formava como um convite amável. Um chamamento inocente não para me puxar simplesmente e me fazer mergulhar em uma profundeza sem volta, ou algo pior. Em nenhum momento me vi movido ou atrelado, cativo e açoitado por forças hercúleas, onde procurasse, a todo custo, ou por puro medo cair fora sem me deixar ser abatido. O sorriso do abismo a meu ver, se fez terno lembrete de que não há chão ruim, não há certezas inabaláveis. Entretanto, é o riso discreto de quem sabe que a vida é feita de saltos.

E são nesses saltos que a gente descobre que quem se arrisca verdadeiramente a abrir os braços, não se machuca. Talvez o abismo sorriu e o fez porque conhecia a minha teimosia em acreditar que o controle de tudo é possível. Talvez (dito de outra forma), o profundo me sorriu porque sabia que no fim, seria ele quem me ensinaria a viver. E eu, diante dele, sorri de volta. Não por desafio, mas por gratidão. Porque o abismo, com seu sorriso franco e sem gestos maldosos me mostrou que é possível assimilar, na integra, que o medo também pode ser e, de fato é, um caminho.

O imensurável, lá embaixo, à frente de meus olhos, me mostrou não ser apenas um espaço vazio diante de um medo bobo que me segurava como se tivesse grudado no acaso. Ele se fez a metáfora daquilo que eu não podia controlar: o tempo que escorria, a morte que me esperava, o acaso que nos atravessava a todos. E, ainda assim, ele me arreganhou os dentes. Sorriu feliz, não num misto de zombaria, mas de revelação. Me sorriu, acima de tudo, porque sabia da minha busca por um sentido mais promissor e que em cada pergunta que eu fizesse, redundaria numa resposta que me mostraria novos horizontes. 

Por conta disso, esse abismo, bem aqui na minha frente, me lembrou num dado momento que viver é como caminhar sobre pontes frágeis, passear por viadutos suspensos, sabendo que no próximo passo o chão poderá ruir, contudo, apesar dessa incerteza, eu deveria seguir em frente. O sorriso do abismo é o paradoxo da existência. O nada que nos olha e, ao mesmo tempo, nos dá a chance de criar e recriar tudo. É o convite amável para transformar o medo interior em impulso. A incerteza em criação, onde o limite final se delimita em liberdade.

Precisamos entender que quando o abismo sorri, ele o faz, de fato, matreiro, e nessa hora nos mostra que não há garantias, mas possibilidades. E talvez seja justamente nesse sorriso enigmático, silencioso e inevitável que descobrimos que a vida não é sobre evitar a queda, mas sobre aprender a dançar no perigoso frágil da borda, lembrando aquela frase de uma história contada por Ariano Suassuna, onde ele começa dizendo que “ao redor de um buraco tudo é beira”. Pois bem! Esse tom existencial abre espaço para reflexões sobre liberdade, finitude e criação.  

Não devemos esquecer também que o abismo sorri porque conhece de cabo a rabo, a minha finitude. Ele sabe que sou feito de tempo, e que o tempo é feito de limites. Cada instante que passa é um passo em direção ao fim, e é justamente essa consciência que me obriga a pensar. E eu matuto com meus botões, penso: sem o limite, não haveria urgência. Sem a morte, não haveria vida. O sorriso do abismo nada mais é que o lembrete de que o NADA nos observa, mas também nos dá a chance de inventar o TUDO. Com isso, aprendi que criar é o gesto humano diante do abismo: escrever, amar, construir, imaginar... 

Isso tudo se transforma nas respostas que damos ao vazio, como quem planta flores na beira de um precipício. O abismo me sorri porque sabe que, ao me confrontar com o fim, me oferece a possibilidade de transformar o medo em arte, a angústia em liberdade, o silêncio em palavra. O abismo não é prisão. Ele é passagem. Há momentos em que a gente se sente engolido por sua escuridão, como se não houvesse saída. No entanto, o sorriso do abismo também é promessa: ele mostra que podemos atravessá-lo, que não precisamos permanecer ali.  

Encarar o abismo é reconhecer a fase em que estamos presos em imensa dor, abarrotado de dúvida, de perda e aceitar que ele não é destino, mas uma etapa a ser transposta. O sorriso do abismo nos ensina que sair dele é possível, que a vida continua além da borda, e que cada mergulho na escuridão pode nos devolver mais inteiros, mais conscientes, mais vivos. A meu entender, essa versão filosófica conecta o meu sentido de abismo à finitude e não só a ela, igualmente à criação, mas termina com uma reflexão libertadora: o abismo não nos aprisiona, ele nos transforma.

Estar prestes a cair num abismo, ou de forma mais branda, tentar sair de um, seja ele emocional, existencial ou simbólico não significa apagar o que vivemos, mas aprender a atravessar os percalços sem deixar que as marcas se tornem feridas permanentes. O segredo está em transformar o encontro com o abismo num eterno aprendizado de experiência e de crescimento. Jamais em prisão. Reconhecimento do limite: admitir que estamos diante de um vazio, de uma fase difícil, é o primeiro passo. Negar o abismo só prolonga a sua sombra em nós.

Criação como resposta: escrever, pintar, conversar, reinventar rotinas, qualquer gesto criativo é uma forma de devolver sentido ao que parecia sem forma. Liberdade interior: compreender que o abismo não nos define. Ele é circunstância, não identidade. Podemos sair dele sem carregar o peso como destino. Finitude como impulso: lembrar que a vida é breve e que cada fase, mesmo a mais sombria, é apenas uma parte do caminho. Isso nos dá coragem para seguir em frente.

Superação como travessia: sair do abismo não é esquecer, mas atravessar. É olhar para trás e perceber que o sorriso do abismo foi apenas um convite para nos tornarmos mais conscientes de quem somos. No fim, o abismo pode ser encarado como uma fase da vida dura, intensa, mas passageira. Ele nos ensina que não estamos presos, que podemos sair vivos e inteiros, e que cada mergulho na escuridão pode nos devolver mais fortes. O sorriso do abismo, então, deixa de ser ameaça e se torna lembrança de que até o vazio pode ser mestre, e que seguir em frente é sempre possível

O abismo pode ser encarado também como uma fase da vida dura, intensa, mas passageira. Ele nos ensina, agora reiterando em repeteco, que não estamos presos, que podemos sair vivos e inteiros, e que cada mergulho na escuridão pode nos devolver mais fortes. O sorriso do abismo, então, deixa de ser ameaça e se torna lembrança: de que até o vazio pode ser mestre, e que seguir em frente é sempre possível. Há quem diga que o abismo é silêncio, vazio, ausência. Mas eu o vi sorrir. Não era um sorriso de alegria, tampouco de malícia. Era um gesto enigmático, como quem guarda segredos que só se revelam a quem ousa encarar a escuridão sem piscar. E eu fiz isso.

Entre prós e contras, o abismo sorriu para mim numa tarde em que a vida parecia suspensa. Eu estava à beira dele, à passos de um bocado de perdas, à ribanceira de mim mesmo. E foi ali, no limite entre o medo e a coragem, que percebi: o abismo não é inimigo. Ele é espelho. Seu sorriso é convite não para cair, mas para mergulhar em profundezas que evitamos por comodidade. O sorriso do abismo é o lembrete de que não há chão eterno, e mesmo estando tão distante de tudo não há certezas inabaláveis. É o riso discreto de quem sabe que a vida é feita de saltos, e que só descobre asas quem se arrisca a abrir os braços. E eu, abri. Voei como Ícaro, num sonho que me fez viajar entre a vida terrena e a verdadeira, onde meu Deus, muito tempo depois, refeito de mim, alegre e saltitante, A C O R D E I.

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Texto enviado pelo autor.