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| General romano Crasso |
A cultura popular incorporou essa expressão a partir do erro do general romano Marco Licínio Crasso, que em 53 a.C. perdeu a batalha de Carras e nela também a própria vida. Crasso era um figurão que dividiu o poder com Júlio César e Pompeu no ano 59 a.C, no período historicamente conhecido como Primeiro Triunvirato. Obcecado por conquistar o Império Parto, na Mesopotâmia, esse oficial atacou a cavalaria inimiga em campo aberto com uma tropa de infantaria a pé, e o resultado foi que teve seu exército dizimado.
Assim, a expressão "Erro crasso", equivale a um erro grosseiro, visível, primário, inaceitável e possui duas conotações: a da sua origem linguística real e a aventura militar que devastou tantas vidas.
A palavra deriva do latim “Crassus”, que literalmente significa gordo, denso, espesso, bruto ou volumoso. Com o tempo, passou a ser usada em sentido figurado para indicar algo sem refinamento, tosco ou muito evidente. Um "Erro crasso" é um erro elementar, percebido de cara, algo tão denso, volumoso e visível, que não pode passar despercebido.
Quanto à origem histórica, como dito antes, a expressão é associada à tragédia das tropas do general romano Marco Licínio Crasso, que viveu de 115 a.C. a 53 a.C., o homem mais rico de Roma, cujo eco anabolizado e superlativa vaidade, eram infinitamente maiores do que sua própria fortuna pessoal.
Faminto por glória militar, liderou ele uma campanha contra o Império Parta (região onde está o Iraque), porém ignorou os conselhos dos oficiais do seu “staff”, recusou a ajuda de aliados e marchou com 40.000 soldados pelo deserto para o combate frontal, sem o devido respaldo tático ou logístico. O resultado dessa sandice foi que, ao encontrar as tropas adversárias na Batalha de Carras, a infantaria romana foi cercada e quase aniquilada pelos arqueiros partas, que disparavam flechas certeiras de um plano mais alto, montados em seus cavalos.
Na refrega, que os apanhou desprotegidos, mais de 20.000 combatentes de sua tropa morreram, incluindo o general e seu filho, sendo os milhares de feridos e sobreviventes, capturados e aprisionados. Foi um dos piores desastres militares de toda a história de Roma, que desfrutava da fama de ser imbatível.
Embora linguistas reforcem que o adjetivo “crassus” já existia no latim com o sentido de "grosseiro" antes mesmo do general Crasso ficar famoso pela fragorosa derrota, que consolidou para sempre a expressão na cultura popular.
No cotidiano, jornais, blogs, sites, redes sociais e o noticiário televisivo nos revelam notícias estarrecedoras sobre erros crassos cometidos nas mais diversas profissões, sejam manuais, técnicas ou intelectuais.
Cirurgiões esquecem pinças no abdome de pacientes; engenheiros constroem prédios que desabam ao sopro mais vigoroso do vento; comandantes encalham navios por equívocos nas plotagens de rumos; motoristas morrem e matam ao ultrapassarem em locais proibidos; árbitros de futebol validaram gol feito com a mão em Copa do Mundo, dentistas erram nos moldes das próteses móveis e o cliente sai praticamente mudo do consultório...
Na literatura, na música popular brasileira e em geral no cancioneiro nacional, o termo "erro crasso" é frequentemente usado por críticos literários, professores e linguistas para classificar graves desvios gramaticais, de concordância nominal ou verbal, inadvertidamente cometidos por desatentos autores. As petições judiciais, redigidas na refinada linguagem forense, é o território fértil onde argutos advogados alfinetam impiedosamente colegas que por pura desatenção cometem gafes primárias, denunciando-as ao juiz em termos respeitosos, porém destilando veneno contra “quem de direito”. Um exemplo, pinçado do anedotário jurídico, foi o que escreveu o causídico, contestando incisivamente o pedido feito pela parte contrária:
“MM JUIZ: O pedido da autora é improcedente. Ajuizou a presente ação de investigação de paternidade em favor do menor M.D.C, porém laborou em grave equívoco, pois na aludida ação figura como ré Marinusa da Silva(*). Trata-se, a toda evidência, de clamoroso, lamentável e imperdoável erro crasso de para V. Exa., por impossível biologicamente, que a senhora Marinusa Silva não é o pai do menor M.D.C!!!...”
Ainda no universo das relações jurídico-processuais, os Oficiais de Justiça, quem diria, eventualmente engordam as extravagâncias forenses com suas certidões incorretas, imprecisas, quando não simplesmente anedóticas. Em “Ação de busca e apreensão de uma motocicleta” proposta por uma instituição financeira contra o cliente que deixou de pagar as prestações do financiamento, o zeloso meirinho certificou nos autos:
“CERTIFICO E DOU FÉ, que no dia 28/07/1997 compareci ao endereço constante do mandato e lá chegando, fui informado na portaria do prédio que o requerido não mais residia naquele endereço. Dialogando com alguns moradores presentes ao ato, uma atenta e bem informada vizinha do réu declarou que tão logo soube da ação visando apreender sua moto, o devedor se evadiu para lugar ignorado, montado na mercadoria. Assim, devolvo o presente mandato para os devidos fins”.
O festejado escritor, historiador, pesquisador, palestrante, artista plástico, acadêmico e advogado Sebastião Godinho, destacado membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Academia Paraense de Letras e da Academia Paraense de Jornalismo, que lidera quixotescamente as batalhas contra a dilapidação dos monumentos de Belém e a deturpação da memória história do Pará, recentemente se valeu da expressão “Erro crasso” para denunciar mais uma danosa omissão da Prefeitura, quanto à incorreta denominação dos logradouros da Capital paraense. Profligou ele, em sua apreciada página no Facebook e sem dissimular a indignação, a grafia incorreta da placa que identifica uma das nossas importantes ruas:
“Outro erro crasso que compromete o bom entendimento da História. Angostura e não Angustura era o nome da fortificação que se rendeu, sem combate, às forças brasileiras que a ocupou em 30 de dezembro de 1868, dentre os conflitos ensejados pela Guerra do Paraguai. Mais um equívoco que expõe a nossa ignorância a respeito do tema, sem que ninguém mova uma palha para retificá-lo. Enquanto isso, o presidente da câmara de Belém se preocupa em aprovar uma lei que eleva a condição de patrimônio imaterial do povo belenense, o som automotivo. Pode?”.
Ressalve-se, por necessário, que no ilimitado universo da arte, em especial na poesia, o que poderia ser visto como "erro crasso" é tolerado e aceito como licença poética, recurso estilístico ou variação linguística necessária para manter a métrica, a rima e a identidade cultural de uma canção.
Ildefonso Guimarães, saudoso mestre da ficção que no passado abrilhantou a Academia Paraense de Letras, em seu livro “Senda bruta” (que em 1963 merecidamente recebeu o Prêmio Samuel Mac Dowell da APL), discorrendo sobre as antigas festas juninas, nos mostra em “Caminhos do Vento” (p. 40/41) que fazer rimas perfeitas não é a única forma de dar musicalidade aos versos:
“Eu sou caçador afamado
Que vim lá da cabeceira;
Hoje eu mato esse boi,
Seja lá de que maneira!
Não caçador!
Faz pena, faz horror!
Não mate esse boi
Que meu amo criou!!!”
Um verdadeiro show, em especial por se tratar de texto da lavra de poetas anônimos, o que nem de longe significa escrever errado. E a prova disso são os versos de rima falsa que o genial escritor utilizou, como acima se vê. Regra geral, versos rimados precisam terminar com a mesma sonoridade, isto é, não se pode combinar singular com plural, som fechado com aberto, nem tônico com átono, etc. Por tal razão, fora do amplo espectro da licença poética, rimar de outra forma, sempre é vista pela crítica como “erro crasso”, expressão cuja origem o leitor agora já sabe exatamente de onde veio, assim como e porque se albergou em definitivo no nosso português de cada dia!
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(**) Nome fictício
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Célio Simões (1947)
O advogado e escritor CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é uma das personalidades intelectuais e jurídicas mais respeitadas do estado do Pará, destacando-se como cronista, poeta e guardião da memória histórica e cultural da Amazônia. Nasceu na histórica cidade de Óbidos/PA, em 1947. Embora suas raízes obidenses definam profundamente sua identidade literária, ele construiu grande parte de sua vida residencial e profissional em Belém, capital paraense, onde mora atualmente. Entre 1945 e 1953, durante a juventude, também viveu em regiões de várzea às margens do Rio Amazonas. Sua trajetória na área jurídica e acadêmica é extensa e renomada: Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará e pós-graduou-se em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Atuou como Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) na classe de jurista e foi membro da Advocacia Consultiva da União. Professor na Universidade da Amazônia (UNAMA), na Escola Superior de Advocacia (ESA) e na Escola de Árbitros e Mediadores do Pará. Serviu como Conselheiro Estadual, Juiz do Tribunal de Ética e Disciplina e presidiu a Comissão de Combate ao Trabalho Forçado.
Prolífico cronista, ensaísta, poeta e memorialista. Suas produções abordam desde a cultura popular, expressões idiomáticas e histórias do cotidiano até profundos resgates históricos regionais. Pelo seu prestígio, integra importantes instituições: Academia Paraense de Letras (APL) – Membro "Imortal"; Academia Paraense de Letras Jurídicas (APLJ) – Membro titular e ex-presidente; Academia Paraense de Jornalismo (APJ) – Sócio-fundador e ex-vice-presidente; Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) – Idealizador, fundador e seu primeiro presidente; Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) – Sócio efetivo; Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGT), fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém, membro do Instituto dos Advogados do Pará. membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (PR).
Ao longo de sua carreira literária, recebeu três prêmios literários principais, incluindo uma destacada Medalha de Prata em concurso promovido pela tradicional Revista TROFÉU, de São Paulo. Em 2022, também foi condecorado com o Título Honorífico de Honra ao Mérito pela Câmara Municipal de Belém. Possui seis livros autorais publicados, além de coautorias. Destacam-se: Recados da Memória (2018) – Cujas rendas de lançamento foram inteiramente revertidas em doação para a Santa Casa de Misericórdia de Óbidos; Um Pouco de Muitas Histórias (2017); Rio Amazonas – Um Abraço Apertado – Obra em coautoria.
A relevância de Célio Simões para a literatura paraense e amazônica reside na sua atuação como um "escritor memorialista". Assim como fez o clássico autor obidense Inglês de Sousa, Célio Simões transporta para as suas crônicas e contos a alma do Baixo Amazonas, o cotidiano ribeirinho e a identidade do povo paraense. Além disso, seu papel institucional foi fundamental para descentralizar a cultura no estado; ao idealizar e fundar a Academia Artística e Literária de Óbidos, ele criou um polo essencial para a preservação e fomento de novos talentos fora da capital jurídica e literária de Belém.
Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem = Zentral Media
Biografia = Obidos.net, Obidense, Jeso Carneiro, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Confraria Brasileira de Letras.


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