segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Monsenhor Orivaldo Robles (Crônica por encargo)


“Por tradição, a crônica é um gênero jornalístico. Está ligada ao jornal, à revista, à imprensa, seja diária, semanal ou mensal. A crônica é uma atividade sistemática. O Rubem Braga – que todo mundo cita até sem ler e muitos apenas leem sem citar – disse certa vez que a crônica é uma moléstia. Uma moléstia não é gripe, enxaqueca, fratura de tíbia ou tosse comprida. Moléstia é sinusite, tuberculose, gota, bico-de-papagaio. O sujeito acorda e vai dormir com ela. A crônica é isso: a obrigatoriedade do cartão de ponto. Como nenhum jornal aceita cronista que promete mandar matéria quando achar um bom assunto, é mais ou menos compreensível que a crônica, sendo assídua, aproveite os sonhos, o faz-de-conta, a inspiração do cronista. Na televisão – muito mais rara e menos definida – e no rádio a crônica pode ser substituída por imagens e música, sem que as pessoas reclamem e mudem de emissora. Na imprensa, o cronista costuma ser aguardado pelo leitor e tem o ar de ser estimado pelo dono do jornal, sem nem mesmo conhecê-lo pessoalmente. Mas convém ter cuidados: não pode ser enfadonho, prolixo, repetitivo ou professoral. O cronista precisa fingir que faz crônicas por divertimento e que trabalha por não ter o que fazer”.

O texto é uma das pérolas de Lourenço Diaféria (1933-2008) em entrevista de 2000. Tinha da crônica opinião modesta: “No jornal, a crônica é o intervalo do grande espetáculo. Não resolve nada (…). Só serve para dar um tempo de o sujeito ir lá fora, comprar amendoim, tomar café, espreguiçar-se. Talvez até seja uma inutilidade”. Católico praticante, escreveu em vários jornais de São Paulo. Com ele me correspondi brevemente nos anos 70. Lia-o toda semana na Folha de São Paulo. Mandou-me autografado seu livro, “Um Gato na Terra do Tamborim”, que as muitas mudanças e meu pouco cuidado fizeram-me perder. Para conhecer o Diaféria cronista, basta teclar no Google “Herói. Morto. Nós”. É sua crônica mais conhecida. Que, nos anos de chumbo, lhe valeu dois anos de prisão. Foi acusado de fazer pouco do duque de Caxias, patrono do exército. Bobagem. Ele apenas exaltou o sargento Sílvio Hollenbach que, no Jardim Zoológico de Brasília, se lançou no fosso das ariranhas, para salvar um garoto por infelicidade lá caído. Passeava com a esposa e os 4 filhos pequenos. Salvou o menino. Atacado pelos bichos, morreu de infecção, dias depois.

Por mim, Diaféria ombreia com nossos cronistas da melhor estirpe. Com Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Lya Luft, Rubem Alves, Luís Fernando Veríssimo, Frei Betto, Cony… Fez-me recordar a humilde crônica que, lá em 1958, publiquei numa revista. Reacendeu-me o gosto pelo gênero que presunçosamente teimo ainda em rabiscar. Vez por outra cometo algo razoável. Tenho autocrítica. Falta-me dom para coisas de requintado valor. Mas sigo aqui, bamburrando em garimpo exaurido. Há tempo, o programa “A Praça é Nossa” apresentava o personagem Paulinho Gogó, com o bordão: “Quem não tem dinheiro conta história”. É um pouco o que faço. Na falta de maior talento, conto histórias.

A forma como as recebem varia bastante. Há os que apreciam. Outros são amáveis: percebem que escrevo tirando leite de pedra. Também existe quem imagina que a gente escreve por falta do que fazer. Fazer o que, né?
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Monsenhor Orivaldo Robles (1941 – 2019)
Monsenhor ORIVALDO ROBLES foi um sacerdote católico, professor, cronista e historiador regional brasileiro. Ele nasceu em Poloni (SP) em 1941 e faleceu em Maringá (PR) em 2019, aos 77 anos de idade, vítima de enfisema pulmonar. Sua trajetória intelectual e religiosa confunde-se com a própria consolidação cultural do norte paranaense.
Iniciou sua formação seminarística no interior paulista. Mudou-se para Curitiba em 1957, onde graduou-se em Filosofia e Teologia. Foi ordenado padre em Maringá em dezembro de 1966. Atuou como professor no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, no Instituto de Educação de Maringá e em escolas de Paranacity. Foi pároco de destaque na Igreja Santa Maria Goretti por duas décadas (1989-2009) e encerrou sua missão eclesiástica como vigário da Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória. Trabalhou intensamente como articulista de jornais de Maringá por mais de 15 anos, mantendo colunas semanais de grande audiência local.
Orivaldo Robles possuía uma escrita marcada pelo rigor factual, sensibilidade humana e aguçado dom de oratória. Sua produção literária concentrou-se em dois gêneros principais:
– Crônicas Literárias e Artigos de Opinião: Textos curtos voltados ao público geral e cidadãos comuns da região de Maringá. Discutiam dilemas morais, fé, cotidiano, desigualdade e a vida comunitária. Sua principal coletânea foi publicada no livro "Celeiro Desprovido: Artigos e Crônicas".
Historiografia Regional: Textos longos voltados a historiadores, fiéis e pesquisadores. Robles dedicou anos de pesquisa documental para narrar a colonização do Norte do Paraná sob a ótica religiosa. O ápice desse trabalho foi a monumental obra com mais de 400 páginas "A História da Igreja Católica em Maringá - A Igreja que Brotou da Mata" (2017). O livro chegou a ser entregue diretamente ao Papa Bento XVI.
Embora seu nome não pertença ao cânone ficcional nacional, a contribuição de Monsenhor Orivaldo Robles possui um imenso valor para a literatura historiográfica e a crônica regional do Brasil. Sua relevância está fundamentada no resgate da memória social: ele conseguiu registrar, com alta qualidade estética e textual, a transição do Paraná agrário e pioneiro ("que brotou da mata") para a consolidação urbana contemporânea. Seus textos funcionam como fontes primárias essenciais para entender a identidade do interior sulista brasileiro, provando que a literatura de crônica regional permanece viva e crucial para a preservação do patrimônio imaterial do país.

Fontes:
Portal do Ângelo Rigon. 30/06/2012
Biografia: Arquidiocese de Maringá, Catedral de Maringá, UEM (repositório), Prefeitura do Município de Maringá, etc.

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