segunda-feira, 18 de abril de 2016

Fernando Pessoa (Poemas Avulsos)

VENDAVAL

Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!

Indômita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!

Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.

Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles - teu pulso divida
Minh'alma do mundo!

Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar -
Fosse pr'onde fosse, pra longe da ideia
De eu ter que pensar!

Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver -
Porque é que não entras no meu pensamento
Para ele morrer?

Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, é vento; do chão da existência,
De ser um lugar!

E, pela alta noite que fazes mais'scura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.

E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!

Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!

SOSSEGA, CORAÇÃO! NÃO DESESPERES!

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, silente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

PELA RUA JÁ SERENA

Pela rua já serena
Vai a noite
Não sei de que tenho pena,
Nem se é pena isto que tenho...
Pobres dos que vão sentindo
Sem saber do coração!
Ao longe, cantando e rindo,
Um grupo vai sem razão...
E a noite e aquela alegria
E o que medito a sonhar
Formam uma alma vazia
Que paira na orla do ar..

UMA MAIOR SOLIDÃO

Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.
Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar,
A cegar, a escurecer.
Jazo-me sem nexo, ou fim...
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim.

NO FIM DA CHUVA E DO VENTO

No Fim da chuva e do vento
Voltou ao céu que voltou
A lua, e o luar cinzento
De novo, branco, azulou.
Pela imensa 'stelação
Do céu dobrado e profundo,
Os meus pensamentos vão
Buscando sentir o mundo.
Mas perdem-se como uma onda
E o sentimento não sonda
O que o pensamento vale
Que importa? Tantos pensaram
Como penso e pensarei.

SE ALGUÉM BATER UM DIA À TUA PORTA

Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.
Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta.

GLOSAS

Toda a obra é vã, e vã a obra toda.
O vento vão, que as folhas vãs enroda,
Figura nosso esforço e nosso estado.
O dado e o feito, ambos os dá o Fado.

Sereno, acima de ti mesmo, fita
A possibilidade erma e infinita
De onde o real emerge inutilmente,
E cala, e só para pensares sente.
Nem o bem nem o mal define o mundo.
Alheio ao bem e ao mal, do céu profundo
Suposto, o Fado que chamamos Deus
Rege nem bem nem mal a terra e os céus.

Rimos, choramos através da vida.
Uma coisa é uma cara contraída
E a outra uma água com um leve sal,
E o Fado fada alheio ao bem e ao mal.

Doze signos do céu o Sol percorre,
E, renovando o curso, nasce e morre
Nos horizontes do que contemplamos.
Tudo em nós é o ponto de onde estamos.

Ficções da nossa mesma consciência,
Jazemos o instinto e a ciência.
E o sol parado nunca percorreu
Os doze signos que não há no céu.

EU AMO TUDO O QUE FOI

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

BRINCAVA A CRIANÇA

Brincava a criança
Com um carro de bois.
Sentiu-se brincado
E disse, eu sou dois !

Há um brincar
E há outro a saber,
Um vê-me a brincar
E outro vê-me a ver.

Estou atrás de mim
Mas se volto a cabeça
Não era o que eu qu'ria
A volta só é essa...

O outro menino
Não tem pés nem mãos
Nem é pequenino
Não tem mãe ou irmãos.

E havia comigo
Por trás de onde eu estou,
Mas se volto a cabeça
Já não sei o que sou.

E o tal que eu cá tenho
E sente comigo,
Nem pai, nem padrinho,
Nem corpo ou amigo,
Tem alma cá dentro
'Stá a ver-me sem ver,
E o carro de bois
Começa a parecer.

A PÁLIDA LUZ DA MANHÃ DE INVERNO

A pálida luz da manhã de inverno,
O cais e a razão
Não dão mais 'sperança, nem menos 'sperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.
No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem menos sossego sequer,
Para o meu 'sperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.

O CÉU DE TODOS OS INVERNOS

O céu de todos os invernos
Cobre em meu ser todo o verão...
Vai pras profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!

Por ti meu pensamento é triste,
Meu sentimento anda estrangeiro;
A tua ideia em mim insiste
Como uma falta de dinheiro.

Não posso dominar meu sonho.
Não te posso obrigar a amar.
Que hei de fazer? Fico tristonho.
Mas a tristeza há de acabar.

Bem sei, bem sei... A dor de corno
Mas não fui eu que lho chamei.
Amar-te causa-me transtorno,
Lá que transtorno é que não sei...

Ridículo? É claro. E todos?
Mas a consciência de o ser,
fi-la bastante clara deitando-a a rodos
Em cinco quadras de oito sílabas.

sábado, 16 de abril de 2016

Joaquim Maria Machado de Assis (Poemas Escolhidos)



O DESFECHO

Prometeu sacudiu os braços manietados
E súplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.

Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilhão,
Uns cingidos de luz, outros ensanguentados...
Súbito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a águia em cima os olhos espantados.

Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.

Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;
Acabara o suplício e acabara o homem.

MUNDO INTERIOR

Ouço que a natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
Uma escala de luz, uma escala de vida
De sol à ínfima luzerna.

Ouço que a natureza, — a natureza externa, —
Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna
Entre as flores da bela Armida.

E contudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro em mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia — e dorme.

LINDÓIA

Vem, vem das águas, mísera Moema,
Senta-te aqui. As vozes lastimosas
Troca pelas cantigas deleitosas,
Ao pé da doce e pálida Coema.

Vós, sombras de Iguaçu e de Iracema,
Trazei nas mãos, trazei no colo as rosas
Que amor desabrochou e fez viçosas
Nas laudas de um poema e outro poema.

Chegai, folgai, cantai. É esta, é esta
De Lindóia, que a voz suave e forte
Do vate celebrou, a alegre festa.

Além do amável, gracioso porte,
Vede o mimo, a ternura que lhe resta.
"Tanto inda é bela no seu rosto a morte!"

SPINOZA

Gosto de ver-te, grave e solitário,
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante ideia.

E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.

Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas

Sóbrio, tranquilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.

GONÇALVES CRESPO

Esta musa da pátria, esta saudosa
Níobe dolorida,
Esquece acaso a vida,
Mas não esquece a morte gloriosa.

E pálida, e chorosa,
Ao Tejo voa, onde no chão caída
Jaz aquela evadida
Lira da nossa América viçosa.

Com ela torna, e, dividindo os ares,
Trépido, mole, doce movimento
Sente nas frouxas cordas singulares.

Não é a asa do vento,
Mas a sombra do filho, no momento
De entrar perpetuamente os pátrios lares.

 ALENCAR

Hão de os anos volver, — não como as neves
De alheios climas, de geladas cores;
Hão de os anos volver, mas como as flores,
Sobre o teu nome, vívidos e leves...

Tu, cearense musa, que os amores
Meigos e tristes, rústicos e breves,
Da indiana escreveste, — ora os escreves
No volume dos pátrios esplendores.

E ao tornar este sol, que te há levado,
Já não acha a tristeza. Extinto é o dia
Da nossa dor, do nosso amargo espanto.

Porque o tempo implacável e pausado,
Que o homem consumiu na terra fria,
Não consumiu o engenho, a flor, o encanto...

CAMÕES, I

Tu quem és? Sou o século que passa.
Quem somos nós? A multidão fremente.
Que cantamos? A glória resplendente.
De quem? De quem mais soube a força e a graça.

Que cantou ele? A vossa mesma raça.
De que modo? Na lira alta e potente.
A quem amou? A sua forte gente.
Que lhe deram? Penúria, ermo, desgraça.

Nobremente sofreu? Como homem forte.
Esta imensa oblação?... É-lhe devida.
Paga?... Paga-lhe toda a adversa sorte.

Chama-se a isto? A glória apetecida.
Nós, que o cantamos?... Volvereis à morte.
Ele, que é morto?... Vive a eterna vida.

MARIA

Maria, há no seu gesto airoso e nobre,
Nos olhos meigos e no andar tão brando,
Um não sei quê suave que descobre,
Que lembra um grande pássaro marchando.

Quero, às vezes, pedir-lhe que desdobre
As asas, mas não peço, reparando
Que, desdobradas, podem ir voando
Levá-la ao teto azul que a terra cobre.

E penso então, e digo então comigo:
"Ao céu, que vê passar todas as gentes
Bastem outros primores de valia.

Pássaro ou moça, fique o olhar amigo,
O nobre gesto e as graças excelentes
Da nossa cara e lépida Maria".

A CAROLINA

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, — restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Filemon F. Martins (Poemas Avulsos)

ELOGIO AO AMOR

Neste caminho eu sigo contemplando
a Natureza exuberante e bela,
passarinhos nos ramos saltitando
entoando canções em aquarela.

Aonde quer que eu vá, eu vou cantando
a pureza do amor, pintado em tela,
que Deus o produziu, por certo amando,
para mostrar ao mundo, em passarela...

O amor? Triste de quem não tem amor,
nem sentiu nesta vida alguma dor,
nem teve uma saudade a recordar?

Pois o amor é um sublime sentimento
que ferve, vibra e invade o pensamento,
e  nos leva ao delírio para amar!

SEGREDO    
(VERSOS DA JUVENTUDE)

Esse amor que desejo, essa querida
que o pensamento meu jamais esquece,
há de ser, para sempre, a pretendida
que só meu coração a reconhece!

Ela é parte da minha própria vida,
meu segredo, meu sonho e minha prece
que me dá Paz na dor mais dolorida
e Esperança a minha alma que padece.

Talvez ela não pense nem em mim,
mas um desejo eu tenho até o fim:
- é vê-la sorridente no meu lar...

Depois... quando estes versos sem beleza
forem parar nas mãos desta princesa,
ela, ao lê-los, não vai acreditar!

O LAVRADOR

Sou lavrador do campo e planto certo,
mantenho a crença de quem é cristão:
- a minha vida é como um livro aberto
plantando paz, amor, compreensão...

Mas, se o terreno é seco, fico esperto,
nada vale investir na plantação,
que a semente caindo no deserto
se perde e não germina nenhum grão.

É preciso primeiro arar a terra,
tirando a praga que produz a guerra,
que o Mundo terá nova diretriz.

Quando o respeito se fizer presente,
nosso Planeta será mais decente
e o Ser Humano será mais feliz!

LEMBRANDO O LAVRADOR

Eu me levanto cedo e abro a janela
para ver o romper da madrugada,
a Natureza em festa se revela
numa canção de amor bem orquestrada.

O Universo, de luz, parece tela
por um pintor supremo, executada,
tornando-se elegante passarela
onde faz coro a alegre passarada.

O sol desponta, quero uma caneta,
mas a enxada é que vem para a retreta
e quer dançar  comigo no roçado...

A enxada tine e estronda pelo eito,
vou capinar a terra do meu jeito
só amanhã, que agora estou cansado!

NOITE E VERSOS
Vai alta a noite. A madrugada é fria,
a insônia chega, fica e me namora.
Levanto-me à procura da poesia,
mas ela, impaciente, vai embora.

Percorro o céu do amor, da fantasia,
fico em vigília e vejo a luz da aurora:
- que paz a humanidade alcançaria,
se o amor reinasse pelo mundo afora.

Ouço, distante, o farfalhar do vento,
e por que minha voz não tem alento,
- se o dia vai nascer como criança?

Surge, então, o cantar da passarada
e outros versos virão, na madrugada,
talvez mais coloridos de esperança!

UTOPIA
Uma ternura infinda estou sentindo
já no ocaso do meu viver tristonho.
Meu coração se abriu, feliz, sorrindo,
pois a esperança renasceu num sonho.

Meu desejo é cantar um hino lindo
para falar de Paz, tudo transponho,
que toda Humanidade siga ouvindo
os acordes do Amor que já componho.

Eu quero ver o povo trabalhando,
construindo, vivendo e se educando
para que todos sejam mais felizes...

Que os políticos sejam mais honestos
e possam nas ações e nos seus gestos
construir um País livre das crises!

Fonte:

sexta-feira, 1 de abril de 2016

José Lucas de Barros (Caderno Poético I)

A Criança e as Estrelas

Dormitava a criança com febre
junto às margens de doce regato…
Um cicio de folhas do mato
levantava as orelhas da lebre.

Para que na parede não quebre
a corrente da rede, em recato
a mãe reza ao Senhor, e, de fato,
dorme em paz o silente casebre.

Apesar do inocente martírio,
corre o dia sem febre e delírio…
Cai a noite risonha nas telhas,

e as estrelas, em hora tão bela,
entram pela pequena janela
como enxame de louras abelhas!
-
Um Lar

Nessa casa modesta e pequenina,
linda prole acomoda-se à vontade
e, seguindo as lições que a vida ensina,
dá prova de gentil fraternidade.

Como bênção feliz da mão divina,
fortes laços de amor e lealdade
dão mais vida à família, em que domina
o traço indestrutível da unidade.

No trabalho febril do dia a dia,
os irmãos se unem cheios de alegria
para, em casa, jamais o pão faltar.

Firme, o casal, no antigo compromisso,
dá segurança a todos e, por isso,
todos têm a beleza e a paz de um lar.
-
O Amor da Velhice

Bem sei que o peso da velhice
a pouco e pouco nos domina,
mas vale a pena (alguém já disse)
pelas lições que a vida ensina.

Se já está longe a meninice
e a fronte agora já declina,
é previsão da lei divina,
não é o fim nem a sandice.

A cada passo em novo dia,
ganha-se mais sabedoria
e a vida assim, será mais rica.

Mais fé, mais luz, dentro do lar;
vai-se a paixão que faz pecar
e cresce o amor que santifica!
-
A Poesia de Meu Bairro

Toda tardinha, o sol, ao se deitar,
escreve um poema de ouro no “Penedo”
e, com tinta barrenta, no lajedo,
o “Seridó” faz trovas ao luar.

As carnaúbas, lenços verdes no ar,
são mil acenos de esperança; cedo,
acordamos a ouvir o passaredo
trinando o amor sonhado em cada lar.

O açude, em suas águas tagarelas,
faz ressoar as modinhas das donzelas
que se enfeitam com bolhas de sabão.

E, completando o quadro que enternece,
ao lado este convite para a prece:
a capela de São Sebastião.

Fonte:
BARROS, José Lucas de. Pelas trilhas do meu chão. Natal/RN: CJA, 2014.

Olivaldo Júnior (O Livro de Ouro)

O menino não sabia mais onde havia posto seu livro de ouro. Aliás, nem sequer sabia que história contava o tal livro, mas, como era de ouro, tinha-lhe guardado o sentido, a essência, do escrito e sorria, feliz, quando se lembrava dele.

Revirou a casa inteira, foi atrás do cachorro, que tinha aquela mania canina de levar e de trazer coisas, como se, por isso, ganhasse uns gramas a mais de ração ao fim de seu incansável dia de trabalhador. Nada, nem um osso encontrara...

"Pelo menos, fica longe do computador enquanto isso...", falou a mãe à comadre, ao telefone, sobre a busca incessante do filho ao livro de ouro que tanto queria. A comadre quis saber se era mesmo de ouro, mas a mamãe não sabia.

Cansado, sem saber o que fazer, tomou de um caderno novo, em branco, limpinho, resolvido a recriar seu livro de ouro, tal como se lembrava dele. Por onde começar? Não se lembrava direito da história... Pois bem, começou a escrever.

O pobre menino jamais saberia que o livro de ouro estava dentro da mente de cada um, que jamais tinha existido realmente e que, além disso, todos os escritos eram apenas uma tentativa de, mais uma vez, encontrá-lo. Era uma vez...

Fonte:
O Autor
Imagem = http://planetadmcom.blogspot.com/2008/10/livro-de-ouro.html

Contos Populares Portugueses (O Coelhinho Branco)

Era uma vez uma princesa que costumava pentear-se sempre à janela do seu palácio, que deitava para o jardim. Todos os dias ia um coelhinho branco muito bonito passear debaixo da janela. Um dia, estando a princesa a pentear-se, vai o coelhinho e levou-lhe o pente.

Passados dias, estando outra vez a princesa a pentear-se, veio o mesmo coelho e levou-lhe o laço, e, passados mais uns dias, tendo a princesa tirado um anel e posto na janela, o coelho tornou a aparecer e levou-o.

Passaram-se uns poucos de dias e o coelho nunca mais voltou.

A princesa, com muitas saudades por ele não aparecer, adoeceu.

Vieram os médicos e não atinaram com a moléstia. O rei, muito aflito por ver que a filha não podia resistir à doença, não fazia senão chorar.

A princesa tinha uma aia que era muito sua amiga e que sabia a razão de tudo aquilo. A doente sonhou uma noite que bebendo um copo de água duma fonte que havia no meio de um bosque distante do palácio lhe daria saúde. Pediu à aia que lha fosse buscar, porque só da sua mão a queria beber, pois só nela confiava.

A aia foi, chegou à fonte e, quando ia a encher o copo, abriu-se o chão e saiu um negro com um burro carregado de barris.

Ela escondeu-se e o preto encheu os barris, carregou o burro e foi-se embora. A aia foi atrás dele e o preto, chegando ao sítio por onde tinha aparecido, disse:

- Abre-te, chão!

Imediatamente o chão se abriu e apareceu um palácio muito rico. A aia entrou e escondeu-se, muito admirada por ver semelhante riqueza.

O negro veio, trouxe uma bacia e um jarro de ouro, deitando os barris de água dentro da bacia. Depois foi-se embora. Daí a pouco viu ela vir o coelhinho branco, que costumava ir ao jardim da princesa. O coelho meteu-se na bacia de água e fez-se logo um formoso príncipe. Depois abriu uma gaveta e, tirando um pente, um laço e um anel, começou a dizer:

- Pente, laço, anel de minha senhora! Vejo a ti e não vejo a ela! Ai, que morro por ela, ai de mim!

Depois arrecadou tudo, voltou a banhar-se, tornou-se logo em coelho e fugiu. A aia, quando se viu só, chegou ao sítio por onde tinha entrado e disse:

- Abre-te, chão!

O chão imediatamente se abriu, saiu ela e chegou ao palácio muito contente, com um copo de água da fonte.

A princesa bebeu-a e começou a achar-se melhor. A aia, então, contou-lhe o que tinha visto e a princesa ainda mais contente ficou. Depressa se achou boa e foi um dia passear com a aia ao mesmo sítio e esconderam-se. Daí a pouco tempo abriu-se o chão e apareceu o negro. Encheu os barris, carregou-os no burro e foi-se embora. Chegou ao tal sítio e fez que o chão se abrisse. E logo apareceu o tal rico palácio.

Entraram a princesa e a aia e foram seguindo o preto sem que ele as visse. Depois esconderam-se no mesmo sítio onde estivera a aia da outra vez. O preto foi buscar a bacia e o jarro de ouro, despejou a água dentro e depois retirou-se.

Daí por um bocado, veio o coelhinho branco, banhou-se dentro da bacia e tornou-se no tal príncipe. Abriu a gaveta e repetiu as mesmas palavras diante do pente, do laço e do anel.

Só que dessa vez apareceu a princesa, que lhe disse:

- Se morres por mim, meu amor, aqui me tens! Acabou-se imediatamente o encanto do príncipe, que ficou muito contente por tornar a ver a princesa.

Ajustou-se o casamento, casaram e o pai dela ficou muito satisfeito.

Fonte:
Viale Moutinho (org.) . Contos Populares Portugueses. 2.ed. Portugal: Publicações Europa-América.