sábado, 31 de janeiro de 2026

Monsenhor Orivaldo Robles (Cuide de sua vida)


“Feliz foi Adão que não teve sogra”, diz jocosamente nosso povo. Claro que se trata de brincadeira sobre interpretação literal do texto bíblico. Nessa linha de leitura, haveria de ser um tédio viverem somente os dois num paraíso suficientemente espaçoso para abrigar uma multidão. Que novidade ia ter um para contar ao outro, no fim do dia? Pior que a deles, só a situação de Robinson Crusoé, na sua ilha, ao lado do selvagem Sexta-Feira, a quem se viu forçado a ensinar inglês para ter com quem conversar.

Por razão diferente, no entanto, ocorre-me que, apesar da solidão, Adão e Eva devem ter formado um casal feliz. Se houve aperreação com que não precisaram se preocupar foi com o falatório de pessoas, que parece terem nascido para bisbilhotar o que acontece aos que se encontram à sua volta. Não foram azucrinados, no jardim do Éden, pelos que investigam, até com lupa, o que se passa com quem teve a má sorte de viver ao alcance de sua língua.

A vida é repleta de ocupações e problemas tantos que, ainda com grande trabalho, cada um mal consegue dar conta dos próprios. Alguns gênios, entretanto, parecem dispor de capacidade e tempo para controlar também e, talvez sobretudo, a vida alheia. Com a posterior e irreprimível necessidade de divulgá-la. Trata-se, quase sempre, não de fatos importantes, mas de invencionices, fantasias ou fofocas repletas de maldade. Tudo proporcional à pequenez de alma do maledicente. Entretanto é difícil existir quem não lhes dê crédito. E, como o gosto de mexericar não se restringe a dois ou três, o comentário se expande em proporções impensadas. Quando lesivas à dignidade, arrastam a honra da vítima para o cesto de lixo. Nunca mais ela será vista com os olhos de antes. De pouco adiantam desmentidos. Sempre persistirá nem que seja uma sutil desconfiança.

Conta-se que São Felipe Neri (1515-1595), o alegre confessor de Roma, recebeu, certo dia, uma senhora que confessou ter falado mal da vizinha. Ele aconselhou-a bondosamente e recomendou que, como gesto penitencial, matasse uma galinha, a depenasse, soltasse as penas no alto de uma colina, e voltasse, depois, para vê-lo.

– “Pronto”, falou ela, de regresso, horas mais tarde, “cumpri a tarefa que o senhor me deu”.

  – “Ainda não”, disse ele. “Agora volte lá, recolha todas as penas e traga-as aqui”.

  – “Isso é impossível”, desesperou-se a pobre mulher. “O vento espalhou-as por toda a cidade”.

  – “Pois é justamente o que acontece com a boa fama da pessoa de quem falamos mal”, ensinou o santo. “Ainda que confidenciemos a um único amigo, daí a pouco, a cidade inteira estará sabendo. Então, não há mais como recuperar o bom nome que nosso comentário destruiu”.

  A mulher tanto apreciou a lição, que não se constrangeu em ela mesma divulgá-la para que mais pessoas tirassem proveito. Sabia a boa senhora não ser ela a única a fazer fofoca. A língua, adverte São Tiago (Tg 3,2-11), é uma arma terrível.

 A moderna mídia colocou o mundo inteiro na minha mão. Que penitência daria São Felipe Néri para a fofoca eletrônica?
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Monsenhor Orivaldo Robles nasceu em Polôni (SP) em 1941. Estudou em Jales e Poloni e ingressou no Seminário Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto, em 1953. Cursou Filosofia em Curitiba (PR), graduando-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de Mogi das Cruzes SP, com diploma reconhecido pela USP, São Paulo. Graduou-se em Teologia no Studium Theologicum de Curitiba, afiliado à Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma. Lecionou no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, e no Instituto de Educação, em Maringá (PR) (1967-1969). No Colégio Estadual e na Escola Normal de Paranacity (PR) (1970-1972). Por quase onze anos trabalhou como pároco de Marialva, de onde saiu no início de 1983 para assumir, por seis anos, o cargo de reitor do Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória – Instituto de Filosofia de Maringá. Em 1989 assumiu a Paróquia Santa Maria Goretti, em Maringá, onde trabalhou por mais de 20 anos. Desde 2009, trabalhou na Catedral Metropolitana de Maringá, exercendo a função de vigário paroquial. Foi palestrante convidado a discorrer, em colégios ou outros núcleos humanos, sobre temas ligados à cidadania, formação pessoal e sobre ética pessoal ou pública. Em 2012 teve publicado o livro “Celeiro Desprovido”, com 270 páginas, contendo 118 crônicas e artigos escritos desde 1995. Em 2017, foi publicado o livro dos 60 anos da Diocese de Maringá. Foi articulista mensal ou semanal, por mais de quinze anos, de jornais editados em Maringá, além de ter matérias reproduzidas em revistas ou blogs da região. Faleceu de enfisema pulmonar, em 2019, em Maringá/PR.

Fonte:
Recanto das Letras do autor. 31.01.2012
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/3471951

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Asas da Poesia 148


Poema de
MÁRCIA WAYNA KAMBEBA
Castanhal/PA

ACREDITAR EM SI

Nem toda palavra
que tentam nos impor é verdade.
Algumas são ditas apenas
para testar se vamos desistir ou seguir.

Se disserem:
“você não consegue”,
“isso é impossível”,
“está longe do seu alcance”,
ainda assim, não deixemos de tentar.

Tentar, mesmo com medo,
é coragem.
É ousadia.
É desejo profundo de viver,
progredir e ser feliz.

Seguir em frente é a melhor opção:
arriscar, insistir e persistir.
O final é gratificante
quando vencemos o medo, a insegurança
e a dúvida
daqueles que achavam ser impossível.
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Poema de
MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS
Huambo/Angola

O garoto corria corria
não podia saber
da diferença entre as flores.
0 garoto corria corria
não podia saber
que na sua terra há
morangos doces e perfumados,
o garoto corria corria
fugia.

Ninguém lhe pegou ao colo
ninguém lhe parou a morte.
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Soneto de
J. G. DE ARAÚJO JORGE
(José Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC (1914 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Dedicatória

Este meu livro é todo teu, repara
que ele traduz em sua humilde glória
verso por verso, a estranha trajetória
desta nossa afeição ciumenta e rara!

Beijos! Saudades! Sonhos! Nem notara
tanta coisa afinal na nossa história...
E este verso - é a feliz dedicatória...
onde a minha alma inteira se declara...

Abre este livro... E encontrarás então
teu coração, de amor, rindo e cantando,
cantando e rindo com o meu coração...

E se o leres mais alto, quando a sós,
é como se estivesses me escutando
falar de amor com a tua própria voz!
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Solitários Passos

Pra mim, és agasalho das Alturas,
Que chegou à metade do caminho.
Contigo, jamais estarei sozinho,
Pois somos cúmplices nas horas duras. 

Teus olhos reergueram minha autoestima;
A mando dEle, na raia tu entraste.
De minha vida, tu foste o guindaste;
De Deus, para eu dar a volta por cima. 

Hoje; estar só, não passa de lembrança,
Solitários passos foram de vez.
No mar bravio, o tempo se refez;
Finda a tempestade, veio a bonança. 

Foste o bálsamo pra minha ferida,
Que surgira em meus passos solitários.
Trouxeste os ingredientes necessários
Ao amor, em retomada de vida. 

És mais um anjo do que uma mulher.
E teu aconchego, igual nunca vi.
Dos reclusos passos antes de ti,
Não tenho saudade, um pingo sequer…
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Trova Popular

Sonhei contigo esta noite,
mas oh! Que sonho atrevido!
Sonhei que estava abraçado
à  forma  do  teu  vestido!
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Soneto de
HUMBERTO RODRIGUES NETO
São Paulo/SP

Bentinho e Capitú

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura,
em cujos lábios demorou meu beijo,
se ontem foste a razão do meu desejo,
hoje és causa da dor que em mim perdura!

Eu fui o teu Bentinho de alma impura
que fez de ti, em juízo malfazejo,
a fonte da vergonha e do meu pejo,
a causa, enfim, da minha desventura!

Foi preciso que ao roxo da mortalha
na tua mudez me desses a entender
por quanta vez a nossa mente falha!

E hoje distante, esse teu meigo ser
parece das alturas me dizer:
¨perde-se a vida, ganha-se a batalha¨!
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Poema de
CATULO DA PAIXÃO CEARENSE
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

O azulão e os tico-ticos

Do começo ao fim do dia,
um belo azulão cantava,
e o pomar que atento ouvia
os seus trilos de harmonia
cada vez mais se enflorava.

Se um tico-tico e outros bobos
vaiavam sua canção,
mais doce ainda se ouvia
a flauta desse azulão.

Um papagaio, surpreso
de ver o grande desprezo
do azulão, que os desprezava,
um dia em que ele cantava
e um bando de tico-ticos
numa algazarra o vaiava,
lhe perguntou: " Azulão,
olha, diz-me a razão
por que, quando estás cantando
e recebes uma vaia
desses garotos joviais,
tu continuas gorjeando,
e cada vez cantas mais?!"

Numas volatas sonoras,
o azulão lhe respondeu:
"meu amigo, eu prezo muito
esta garganta sublime,
este dom que Deus me deu!

Quando há pouco, eu descantava,
pensando não ser ouvido
nestes matos, por ninguém,
um sabiá que me escutava,
num capoeirão, escondido,
gritou de lá: "meu colega,
bravo!....Bravo!...Muito bem!"

Queira agora me dizer: -
quem foi um dia aplaudido
por um dos mestres do canto,
um dos cantores mais ricos
que caso pode fazer
das vaias dos tico-ticos?!"
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Dobradinha Poética de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Quero…

Constato ao alvorecer,
também ao clarão da lua:
mesmo depois de morrer
quero ser somente tua!

Quero sentir de novo as tuas mãos
a tatear meu corpo, docemente…
Quero apagar meus pensamentos vãos
para entregar-me a ti, confiantemente.

Quero pisar sem medo em quaisquer chãos,
seguir feliz na estrada à minha frente.
Quero a renúncia pronta dos meus nãos,
dar-te o meu sim, sonoro e ardentemente!

Porque quem ama sempre retrocede,
porém as consequências nunca mede,
quando a paixão reinflama o coração...

Por isso eu quero tudo o que quiseres,
ser a  mais tua dentre outras mulheres:
— aquela que te amou... sem restrição!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Prelúdio 4

Hoje eu soube apreciar com emoção
O feliz casal que despertou sorrindo...
A MANHÃ e o SOL!
Ambos com um misto de beleza e esplendor
Num canto primaveril de amor infindo…

Senti-me também assim,
Como eles, feliz e esplendoroso
todo cheio e orgulhoso
Com o coração a cantar em mim!...

É porque hoje... hoje irei vê-la
Com o seu sorriso de criança
Falando-me de carinho e paixão
E de nós dois...

Sem mais receios, ou embaraços...

Hoje, serei o SOL e ela, a MANHÃ,
Feliz e envolta
Bem solta
Em meus braços!...
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Soneto de
RITA MOUTINHO
Rio de Janeiro/RJ

Soneto da ausência seleta

A saudade, hoje, é alvo da pungência
e certa flecha bêbada vagueia
na aura da chama anil da inconsciência,
porque a verdade de hoje escamoteia

realidade avessa, de carência,
que não quero entender porque a meia
estadia na vida, por sua ausência,
faz-me vítima, abate-me e fundeia.

O que queria ver é o que vês,
o que queria ser é o que és,
o que queria ter é o que tens.

Mas nunca para isso haverá vez:
somos aos nossos, não a nós, fiéis
e seleta é a sensata insensatez.
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Poema de
ARMANDO BETTINARDI
Maringá/PR

Caminhando

Por que o sol,
a praça,
o burburinho da cidade
estão aqui?

Por que: a luz
o dia aberto diante de mim,
o convite à vida,
se eu estou sozinho?

Sem você, o momento
passa como o vento,
sem consumação,
naturalmente, inutilmente.

Não entendo momento,
só momento, sem ação,
sem movimento,
sem nós dois
que juntos somos vida.

Só aceito momento,
que não seja fugaz nem
efêmero;
- que seja total completamente.

Então, seremos nós
eu e você,
caminhando juntos,
de mãos dadas
rasgando a luz da tarde;
rumo ao crepúsculo.

Agora, o dia ainda está todo
aberto diante de nós;
e, é um convite à vida.

Vamos pois, inebriados
beber a vida, gota a gota
até o fim, enquanto,
juntos caminhamos.
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Décima de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 – 2020

Meu sertão sou teu pedaço
Berço de gente feliz
Que dança ao som de Luiz
no escurinho do terraço.
Tem sol quente tem mormaço,
Tem ave de arribação,
Xaxado xote e baião
Tem um Santo Padim Ciço.
Quem nunca viu tudo isso 
Não sabe o que é sertão. 
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Hino de 
Feira de Santana/BA

Salve ó terra formosa e bendita
Paraíso com o nome de Feira
Toda cheia de graça infinita
És do norte a princesa altaneira

Bem nascida entre verdes colinas
Sob o encanto de um céu azulado
Ao estranho tu sempre dominas
Com o poder do teu clima sagrado

Sorridente como uma criança
Descuidosa da sua beleza
Do futuro és a linda esperança
Terra moça de sã natureza

Poetisa do branco luar
Pelas noites vazias de agosto
Fiandeira que vive a fiar
A toalha de luz de sol posto

De Santana és a filha querida
Noite e dia por ela velada
E o teu povo tão cheio de vida
Só trabalha por ver-te elevada
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Dobradinha Poética de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

Sonhos

Vejo uma luz no horizonte,
a paz no mundo a brilhar.
Pode ser sonho distante...
Um dia ele irá vingar...

Sempre quis pintar um mundo encantado,
com tintas da aquarela de meus sonhos,
Pintar na tela um céu todo estrelado,
e lá no fundo, corações risonhos.

Sempre quis espargir versos no mundo,
perfumá-lo com aura de esperança,
plantando sementes em chão fecundo,
qual o amor num coração de criança.

A vida é um caminho de idas e vindas,
momentos de alegria e de tristeza,
no anseio de encontrar paisagens lindas,

anda-se encruzilhadas da incerteza,
fazendo o destino em ruas infindas,
com toda a força de nossa grandeza.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O marido, a mulher e o ladrão

Um marido extremoso,
Que adorava a mulher
Sendo, embora, feliz — julgava-se inditoso.
Dos olhos dela nunca um só fugaz volver,
Um modo gracioso,
Uma frase de amiga, um lânguido sorrir,
Mil expressões gentis, rápidas, mas sinceras,
Lisonjeando o descrido,
Conseguiram jamais de leve persuadir
Que era amado deveras.
Enfim... era um marido!

Se amor neste himeneu,
Como bênção divina,
Mudado lhe tivesse a tão estéril sina...
Mas... tal não sucedeu!
Batida pela sorte,
Sem mais um desafogo,
Nem mimos para o triste e mísero consorte,
Esta esquiva mulher
Ouvia-lhe uma noite o lamentar de fogo,
Sem um suspiro só de todo compreender,
Quando surge um ladrão,
E interrompe o queixume acerbo e dolorido.

Ela sente do susto a fria contorção...
Procura amparo e cai... nos braços do marido!.

«Amigo, exclama então
O jubiloso amante,
Ao pérfido ladrão:
Foram-se os meus pesares!
Sem ti, eu não teria um tão gostoso instante!
Ventura tão intensa!
Toma, leva, arrecada aquilo que encontrares,
Leva a casa também... É justa a recompensa!»

Não se perdem ladrões por homens delicados,
E a crer ninguém se inclina
Que eles sejam um pouco honestos ou vexados:
Este, pois, atirou-se impávido à rapina!

Deste conto se infere
Que o medo é das paixões a que mais largo fere;
Pois quando audaz assoma,
Como vence a aversão,
Algumas vezes doma
O amor que avassalou de todo um coração.

Tu bem viste, leitor,
Somente para ter
Nos braços a mulher...
Um marido o que fez! Foi vítima do amor!

Eu gosto deste amor altivo e temerário
Que brilha e não se estiola,
Que cresce e não se apouca!
O conto me agradou de um modo extraordinário:
Ele bem diz numa alma indômita, espanhola,
Mais sublime que louca!
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Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Tirar o cavalo da chuva”


Neste início de inverno, quando as chuvas passam a cair com frequência diária na Amazônia durante todo o primeiro semestre, em especial a invariável chuva da tarde da capital paraense, aí está um tema apropriado para abordagem, embora a modernidade de há muito nos propicie os automóveis, a motos e os transportes coletivos como meio de locomoção pessoal, para folga dos animais de tração, não raro muito maltratados pelos próprios donos. 

Porém, em tempos pra lá de recuados, principalmente no interior o meio de transporte mais utilizado era o cavalo e as carroças puxadas pelas parelhas, estas, inclusive, incumbidas da venda do leite para o café da manhã até mesmo nas cidades de maior porte, antes da turma miúda se mandar para a escola. 

Desde tempos imemoriais, ainda na antiguidade Eurasiana (região que outrora abrangia a Ucrânia, parte da Rússia e o Cazaquistão), se tem notícia do uso do cavalo para a movimentação de charretes, carroças, arados, grades, e cultivadores, tanto no plantio como na colheita, afora pomposas carruagens imperiais, estas, inicialmente na região da Mesopotâmia, espalhando-se depois por todas as cintilantes monarquias europeias, consagrando o uso do cavalo para o transporte, para a arte da guerra (a arma de Cavalaria decorre dessa longínqua época) e de modo indispensável na agricultura não mecanizada, para o amanho (cultivo) da terra e mobilidade das pessoas e da produção.

No Brasil, sem qualquer vínculo com esta ou aquela região geográfica, as viagens a cavalo duravam dias e as paradas na casa de conhecidos ou amigos, para descanso e alimentação, eram vistas com absoluta naturalidade. Pedir ao dono da casa “um agasalho” para pernoitar não era extravagante ou inusitado, pleito escorado quase sempre na relação de confiança da gente simples do campo, conhecida pela sua tradicional hospitalidade, fazendo com que a família não só permitisse a pousada, como também lhe fosse oferecida água e alimento, para a recuperação do corpo e a mitigação do cansaço.

O modo de chegar cavalgando a determinado sítio para postular tais favores, tinha o condão de deixar evidente, de plano, a intenção do visitante. Se a montaria fosse amarrada à frente da residência, significava uma estada breve, apenas para mitigar a sede e seguir em frente. Entretanto, se o cavaleiro o fazia num dos barracões da parte posterior da morada, era óbvio que a intenção era o peão demorar mais, coisa de muitas horas ou até de dia inteiro.

Na primeira situação, um cumprimento cortês, um gole d’água, uma conversa rápida e boa viagem... Na segunda, além da água, uma prosa mais elaborada despertava o subjacente interesse do anfitrião pela narrativa do visitante, que acabava ficando. Mas a expressão surgiu justamente na hipótese mais improvável, quando o viajante demonstrando pressa, decidia se mandar, prosseguir na jornada, sendo surpreendido pelo dono da casa ao lhe dizer: “Pode tirar o cavalo da chuva, fique mais um pouco”. Estava assim o estranho autorizado a levar sua montaria para um local mais abrigado, pois a conversa seca e breve ia demorar bastante, por alguma empatia surgida entre eles.

Com o passar do tempo, o sentido da expressão foi mudando, ampliou-se e atualmente significa que alguém deve desistir de um propósito qualquer, que se mostra ou se tornou impossível para quem acalenta determinada pretensão, às vezes pronunciada de forma irônica, no diminutivo como fazem em Portugal, para melhor ironizar quem alimenta esperança de êxito em algo inalcançável: “Pode ir tirando o cavalinho da chuva”...

Certas expressões sintetizam situações que gastariam mais tempo para serem explicadas ou descritas, revelando o que se deseja exprimir numa única frase. Neste aspecto, “tirar o cavalo da chuva” chega a ser emblemático. Hoje, quando alguém a usa, sugere que o sujeito não deve esperar que determinado acontecimento se materialize, que alguém deve desistir de algo, perder as esperanças, pois o objetivo perseguido não se concretizará:
– Vai viajar para São Paulo, amigo? 
– Sim, amanhã!
– Pois pode tirar o cavalo da chuva, que o teu voo foi cancelado... 

Na nossa música popular, a conhecida expressão inspirou a dupla sertaneja Leôncio e Leonel a uma composição com o nome de “Pode Tirar seu Cavalo da Chuva”, estilo sofrência, cujo texto poético aqui parcialmente reproduzido, só confirma o sentido com que atualmente é empregada: 

Meu coração não é carro de praça
Que pega e deixa quando lhe convém
Você saiu a passear com outro
Eu não liguei para mais ninguém

Já fui seu bobo, já fui seu palhaço
Hoje de trouxa você não me faz
Pode tirar o seu cavalo da chuva
Que a seu lado eu não volto mais

O professor Dionísio Silva, da Universidade Federal de São Carlos (SP), entende que tal expressão nasceu no Brasil na região dos pampas, mercê do costume do gaúcho de recolher seu cavalo no galpão ao primeiro sinal de chuva, quando ia ao armazém fazer compras. Assertiva que no mínimo conflita com o costume português ("tirar o cavalinho da chuva") considerando que quase tudo o que herdamos, em termos linguísticos, veio de lá com Cabral...
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Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. Membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras, em Maringá (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

Fonte:
Texto e imagem enviados pelo autor

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Grinalda Indígena * 2 *



José Feldman (Floresta/PR)

HERÓIS DA TERRA

Em cada fibra que compõe o Brasil,
pulsa a batida do vosso tambor.
Longe do mito do povo servil,
ergue-se a força de um povo senhor.

Se a mata canta, é por vossa voz,
zelo que guarda o que o lucro consome.
Pois sem a terra, o que resta de nós?
Apenas o vazio e a sombra da fome.

Vossa presença é o norte fiel,
cura que nasce da raiz profunda.
Escrevem o mundo sem usar papel,
em uma sabedoria que o tempo inunda.

Sem o indígena, a pátria se esvai,
torna-se pó sob o asfalto sem vida.
Onde o espírito do ancião não cai,
a esperança se mantém erguida.

Corpo e alma de um solo sagrado,
pilar que sustenta o que ainda é real.
O Brasil verdadeiro está ao vosso lado,
sendo o princípio e o fim de seu ritual.

Eduardo Martínez (Quem não comunica se trumbica)


Vitor, renomado engenheiro civil de Brasília, era do tipo que gostava de trabalhar no aconchego do seu amplo escritório, cadeiras acolchoadas, diplomas pregados pelas paredes, que também eram ornadas por réplicas quase perfeitas de quadros famosos, ar condicionado sempre ligado no máximo. Raramente acompanhava a execução das obras, pois era alérgico a cimento, bem como a todos os cheiros desses lugares. 

Lá estava o Vítor, com uma enorme xícara de café gourmet sobre a mesa, quando o telefone tocou. Ele até tentou não atender, mas, diante de tal insistência, não resistiu. Era o Zé, o mestre de obras com quem trabalhava desde sempre. Ele não poderia ir ao canteiro de obras, pois havia testado positivo para Covid-19. "Que droga!", pensou Vitor. 

Não teve outro jeito e, então, o engenheiro teve que abandonar o seu delicioso café e se dirigiu até a obra. Assim que chegou, notou que dois pedreiros discutiam sobre como encaixar uma enorme viga de madeira. Por alguns instantes, Vitor, quase atônito com aquilo tudo, apenas observou, até que não aguentou e disse:

– Essa viga vai na diagonal.

– O quê? - perguntou um dos pedreiros.

– Sim, na diagonal.

– Dia o quê? - continuou sem entender.

– De trevesso! - disse o segundo pedreiro.

– Ah, tá! De trevesso!

Fonte:
Blog do Menino Dudu. 29.05.2022

Aparecido Raimundo de Souza (Totalmente falsa como uma pedra de Nagamani*)


O REPÓRTER chega para entrevistar as candidatas a “MISS BONECA DA SERRA”. E aquela loirinha de cabelos longos e olhos azuis foi a que, sem sombra de dúvidas, mais lhe chamou a atenção. Não só pela beleza inquestionável como igualmente pelo sorriso lindo e pelo porte elegante. Vibrou quando seu cinegrafista informou que ela seria a primeira de uma lista de quinze. 

A princípio, o jornalista a achou não só bonita e interessante, como surreal, a ponto de confidenciar com seus botões que se ele fosse um dos jurados, certamente o seu voto seria para ela. No decorrer da conversa, entretanto, a sua opinião foi se modificando literalmente. Quais motivos o fizeram alterar o arbítrio a ponto de perder totalmente a maviosidade por aquela deusa rara e deslumbrante saída de um conto de fadas?

— Oi, linda. Meu nome é João Sabugo. Sou repórter da “Revista Espia Vê Tudo”. Estou aqui para lhe entrevistar juntamente com as suas coleguinhas concorrentes ao título “Miss Boneca da Serra”. Podemos começar?
— Começar o que exatamente?
— A entrevista...
— Ah, mil perdões. Podemos sim. Por favor repita seu nome. João de quê...? 
—  João Sabugo. Por que você riu?
— Pelo seu sobrenome, Sabugo. Até onde sei, sabugo é uma espiga de milho sem o milho grudado. E você não se parece com um sabugo de milho.

Risos.
— Ok. Gostei da comparação. Agora me diga o seu nome. 
— O meu? Ipysilone Canuda da Costa. Esse Ipysilone com ípsilon.
— Perfeito. Idade?
— A minha? Acho que 22. Não, 21. Esquece. 23...
— Local de nascimento?
— O meu? Berço da maternidade Dona Carmelita Umbingosa. Fica ao lado da prefeitura de Palo dos Cavalos.
— Quem nasce em Palo dos Cavalos é?
— Jumenta...
— O quê? Ah, tá. Entendi. Peso?
— O meu? 58. Mas sempre sobe um pouco. Agora por exemplo estou com 56.
— Altura?
— A minha? 1.60. Mas de uns dias pra cá, diminuiu...
— Diminuiu?
— É.
— Como assim?
— Estiquei...
— Legal. Seu apelido?
— O meu?  “Letra morta”.
— Letra morta? Por quê?
— Meu pai diz sempre que o ypsilone do meu nome não se usa muito. Logo, o treco pegou. Irado, né?
— Qual a sua maior qualidade?
— A minha? Gostar de coisas perigosas. 
— Do tipo?
— Tipo? Que tipo?
— Do que você gosta que acha perigoso?
— Ah...! Outro dia eu acendi um cigarro...
—  Nossa, você fuma?
— Não. Detesto cigarros. É que eu estava sentada em cima de um latão cheio de gasolina. Todo mudo que estava perto, saiu em debandada... foi massa...
— Meu Deus! Que horror! Que mais?
— Ontem eu subi no topo desse hotel onde estamos. Se você olhar pra cima lá do alto, verá que ele tem 30 andares. No terraço me dependurei de cabeça pra baixo.
— E para que fez isso?
— Quem? Eu? Pra quê? Queria ver como era enxergar as coisas de cabeça pra baixo de um arranha-céu dessa envergadura.
— E você não teve medo de cair?
— Quem? Eu? Não. O bicho é bem seguro...
— Qual o seu maior defeito?
— O meu? Achar que sou doida.
— E é?
— Quem? Eu? Não!

Mais risos.
— O que mais aprecia em seus amigos?
— Quem?  Eu? O que mais aprecio em meus amigos? O que eles mais apreciam em mim!
— Legal. E o que eles mais apreciam em você?
— O que eu mais aprecio neles.
— Sua atividade favorita?
— Qual, a minha? Ah, tá. Plantar bananeiras.
— Você frequenta alguma academia?
— Quem? Eu? Não!
— E como aprendeu a plantar bananeiras? Com as amigas da escola, suponho?
— Não, moço. Foi com meu vô Alpiste. O pai do meu pai tem um sítio enorme e nos finais de semana ele me ensina a plantar e a lidar com a terra...
— Que maneiro! E qual a sua maior felicidade?
— A minha? “Pra mim” é como uma coisa gostosa que a gente come. E quando você come o que gosta você se sente feliz...
— Entendi. E nessa linha, o que seria a maior das tragédias?
— Cair da Montanha...
— Como? Cair da montanha? Você é chegada em praticar alpinismo?
— Se eu sou chegada em quê?
— Em alpinismo. Pratica esse esporte?
— Que diabo é isso?
— Deixa pra lá. Voltemos à montanha. Você já subiu em alguma?
— Quem? Eu? Não!
— Continuo sem entender. Você disse que a maior tragédia seria...
— Moço, Montanha é o nome da égua preferida do meu vô Alpiste. Eu adoro subir nela e andar por toda parte, trotando, trotando... 
— Ah, caiu a ficha. Pois bem, vamos mais. Quem você gostaria de ser se não fosse você mesma?
— Quem? Eu? Acho que a Mulher Maravilha.
— E por quê?
— Adoro quando ela dá aquelas voltinhas...
— Qual a sua viagem preferida?
— Qual? A minha? Ah, capturei. Ter ido à lua...
— Não me diga. Você já foi à lua?
— Quem? Eu? Já.
— E como foi?
— Com meu primo Juju Perneta.
— Seu primo Juju Perneta?
— É moço. Ele só tem uma perna... a outra um trator levou...
— Conta aí. Deve ter sido uma experiência bastante interessante. Quero detalhes...
— Foi assim. Aconteceu lá no celeiro do meu vô Alpiste. À noite, depois do jantar, o Juju Perneta me convidou pra dar uma volta. Aceitei. Fomos até o celeiro. Chegando lá, ele me agarrou, me jogou contra umas “tálbas” velhas, me beijou, me deu uns amassos, e depois me jogou no chão...

O repórter a interrompeu:
— Calma, calma. Relaxa. Vamos mudar de assunto. Por favor. Suas cores preferidas?
— As minhas? São três. O azul e aquela outra que quando acontece alguma coisa muito gostosa...
— Você quer dizer excitante?
— Isso. Quando acontece isso aí que você falou, a gente fica e não só fica, vê tudo vermelho piscando.
—E a terceira?
— Terceira? Que terceira?
 — Esquece. Uma flor?
— Mamãe!
— Flor, flor. Margarida, orquídea, tulipa, jasmim, cravo... 
— Então, moço.  Mamãe. Ela é uma rosa...
— Um animal?
— Onça pintada.
— Nossa você gosta de bichos? Interessante. Acaso já viu alguma onça pintada?
— Muitas vezes. Quando eu era pequena, papai vivia me botando medo por conta de uma onça pintada que um amigo dele, o Zé Abestado desenhou no muro do nosso vizinho, que ficava do outro lado da rua, em frente ao nosso portão. Se eu fizesse algo errado, se desobedecesse, ele, a mãe, ou o vô Alpiste, me botava sentada à noite, no portão de cara para a tal onça pintada. Era cruel.
— Imagino... 
— Quais são seus autores preferidos?
— Os meus? Gilberto Gil, e Chico Buarque.
— Autores, autores. Não cantores...
— Pois então. Gilberto Gil é um grande autor. O Chico Buarque também...
— Ta legal. Me diga então o nome de uma música do Chico Buarque que você aprecia?
— Mulheres de antenas...
— Não conheço. Canta um pedacinho...
— “Mirem-se no espelho daquelas mulheres de antenas, sofrem por seus sofridos...”
— Não são antenas, querida. O certo é Atenas.
— Então, foi o que eu disse. Antenas.
— Pois bem. Qual superpoder gostaria de ter?
— Quem? Eu? Hum, deixa ver! Voar como o Tarzan...
— Pera lá, Ipysilone. O Tarzan não voa...
— Como não, moço. De galho em galho.
— Como gostaria de morrer?
— Quem? Eu? Morrendo...
— Eu sei, mas de que forma?
— Deixando de viver... 
— Qual seu maior pecado?
— O meu? Gostar de paixão da minha amiga Simone Lantejoulas.
— Você gosta da sua amiga Simone Lantejoulas?
— Gosto. E muito. Sou vidrada nela.
— E eu posso saber por quê?
— Pode. Ela é ele. E ele é ela.
— Ela o quê? Como? Repita, por favor.
— Ela, a Simone Lantejoulas é ele, e, ao mesmo tempo, é ela e vice-versa...

O jornalista coça a cabeça num gesto desesperado:
— Minha linda. Obrigado pela sua atenção. Beijos, abraços. Tenha um bom dia. Foi um prazer. Por favor, mande vir para cá a sua outra coleguinha. Se ela for igual a você e concorrendo ao mesmo troféu, tanto faz. Espera. Pode ser aquela moreninha vestida de prisioneira.

Ipysilone arregala os olhos, fica pálida:
— Moço, posso lhe dar um aviso, ou melhor, um conselho. Falo sério!
— Sou todo ouvidos, tanto de um lado, como de outro.
— Melhor eu chamar no lugar dela, a candidata vestida de laranja.
— E por qual motivo eu não poderia entrevistar a de roupa de presidiária?
— Ela rouba, afana, tem a mão leve...
— Nossa! Obrigado pelo aviso. Agradeço. Ok. Manda vir então, por gentileza, a de laranja. 
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* Pedra de Nagamani
O título do presente texto faz referência aos encantadores de serpentes indianos que apregoam ser possuidores de poderes míticos, e, que por conta, dizem retirar joias raras, ou seja, removem pedras ou gemas preciosas encontradas nas cabeças e nos rabos das cobras venenosas como a Naja. A intenção desse povo, não é outra, senão a de passar a perna na grandiosa massa de curiosos que acreditam estar diante de uma realidade incontestável. Todavia, de passagem, e a bem da verdade, uma lorota mentirosa. No texto, a Ipysilone, embora deslumbrante, sedutora e glamorosa não vai além de uma moça jovem, de fundo falso. Em outras palavras, a criatura, em comparação, é totalmente vazia, oca e sem conteúdo. Não passa, em resumo, de uma pedra bruta sem valor. Uma autêntica joia de aparência dissimulada. Bonita por fora, mas por dentro... nada que se possa ser aproveitado, apesar de ser, como um todo, uma extasiante escultura em formato angelical.

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Texto enviado pelo autor. 
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