domingo, 31 de maio de 2026

Mensagem na Garrafa 183 = Morangos


AUTOR ANÔNIMO

Um homem estava caindo em um barranco e se agarrou às raízes de uma árvore. Em cima do barranco havia um urso imenso querendo devorá-lo. O urso rosnava, mostrava os dentes, babava de ansiedade pelo prato que tinha à sua frente. 

Embaixo, prontas para engoli-lo, quando caísse, estavam nada mais nada menos do que seis onças tremendamente famintas.

Ele erguia a cabeça, olhava para cima e via o urso rosnando. Quando o urso dava uma folga, ouvia o urro das onças, próximas do seu pé. As onças embaixo querendo comê-lo e o urso em cima querendo devorá-lo.

Em determinado momento, ele olhou para o lado esquerdo e viu um morango vermelho, lindo, com aquelas pontinhas douradas refletindo o sol.

Num esforço supremo, apoiou seu corpo, sustentado apenas pela mão direita, e com a esquerda, pegou o morango. 

Quando pôde olhá-lo melhor, ficou inebriado com sua beleza. Então, levou o morango à boca e se deliciou com o sabor doce e suculento. 

Foi um prazer supremo comer aquele morango tão gostoso.

Deu para entender?

Talvez você pergunte: "Mas, e o urso?" Dane-se o urso e coma o morango!
E as onças? Azar das onças, coma o morango! Se você não desistir, a onça ou o urso desistirão.

Relaxe e viva um dia por vez: coma o morango.

Problemas acontecem na vida de todos nós, até o último suspiro. Sempre existirão ursos querendo comer nossas cabeças e onças tentando arrancar nossos pés. Isso faz parte da vida e é importante que saibamos viver dentro desse cenário. Mas nós precisamossaber comer os morangos, sempre.

A gente não pode deixar de comê-los só porque existem ursos e onças. Coma o morango, não deixe que ele escape. Poderá não haver outra oportunidade de experimentar algo tão saboroso.

Saboreie os bons momentos.

Sempre existirão ursos, onças e morangos. Eles fazem parte da vida. Mas o importante é saber aproveitar o morango. Coma o morango quando ele aparecer. Não deixe para depois.

O melhor momento para ser feliz é agora.

O futuro é uma ilusão que sempre será diferente do que imaginamos. Às vezes, esquecemos que a felicidade é construída todos os dias.

Lembre-se: a felicidade não é algo que você vai conquistar fora de você, mas dentro de você mesmo, não esqueça.

José Feldman (Trapalhadas de Pafúncio num estúdio de TV)

Pafúncio era jornalista da revista Fofocas & Cia, famoso por ser o mais atrapalhado de toda a redação: esquecia o caderno, trocava nomes, tropeçava em tudo o que via e sempre saía das entrevistas com histórias que ninguém entendia. Desta vez, a missão era grande: entrevistar os protagonistas da novela Amor e Caos,  maior sucesso da TV.
 
Chegou ao estúdio com o caderno de capa rosa (que era da irmã), uma caneta que não funcionava e um gravador que ele nem sabia ligar direito. Encontrou primeiro a atriz Mariana, que interpretava a doce e elegante Luísa.
 
— Boa tarde, dona Marisa! — disse ele, já errando o nome, estendendo a mão e tropeçando no próprio pé, quase caindo em cima dela.

— Mariana. E tudo bem? Você não se machucou? — perguntou ela, segurando o riso.

— Tudo ótimo, tudo ótimo! Descuido meu, sou meio… assim mesmo. Vamos à entrevista: na novela, sua personagem vive um amor proibido com o mocinho. Você acha que na vida real esse tipo de amor daria certo?

— Ah, com certeza! Se houver respeito e confiança, tudo dá certo — respondeu Mariana, sorrindo.

— Entendi! Então você namora alguém proibido na vida real? — perguntou Pafúncio, abrindo os olhos, achando que tinha descoberto uma bomba.

— Claro que não! Eu falei se houvesse, não que eu faça isso — explicou ela, já começando a se arrepender de estar ali.

— Ah, sim, sim! Então é um segredo, entendi, entendi… — ele anotou no caderno, mas como a caneta não funcionava, só fazia riscos pretos no papel. — Próxima pergunta: qual é a sua comida preferida para comer nos bastidores?

— Gosto muito de pastel de queijo, é simples e gostoso.

— Pastel de queijo! Anotado… — ele fingiu escrever. — E você já comeu pastel com goiabada com o seu par romântico?

— Que pergunta é essa? Nunca! E por que eu faria isso?

— Para ter sorte no amor, dizem que funciona! Eu mesmo tentei uma vez e queimei a língua — contou ele, sério, enquanto Mariana não sabia se ria ou se ia embora.
 
Nisso chegou Carlos, o ator que fazia o papel do galã Pedro, todo arrumado e cheio de confiança.
 
— Olha só quem vem! O grande Carlos Alberto! — gritou Pafúncio, correndo até ele e esbarrando numa pilha de cabos, que quase derrubaram uma luz gigante.

— É só Carlos. E cuidado, hein? Você vai derrubar o estúdio inteiro — brincou o ator.

— Desculpa, desculpa! É a empolgação! Vamos lá: você interpreta um homem corajoso, que enfrenta tudo por amor. Na vida real, você é assim tão valente?

— Mais ou menos. Tenho medo de barata, por exemplo — respondeu Carlos, rindo.

— MEDO DE BARATA?! — Pafúncio gritou tão alto que os técnicos olharam para eles. — Que furo! O grande galã da televisão tem medo de bichinho pequeno!

— É normal, muita gente tem! Não é nenhum furo, não — tentou explicar Carlos.

— Claro que é! Vou colocar na capa: “O Herói da Novela Foge de Baratas”! Vai vender milhares de exemplares!

— Por favor, não faça isso! Vão me chamar de medroso para sempre!

— Tudo bem, tudo bem… eu penso num título melhor. Que tal: “Pedro, o Valente, Tem Um Segredo Fofo”? 

— Melhor, mas ainda assim… — suspirou Carlos. — Vamos para outra pergunta?

— Claro! Você beija muito bem na novela, todo mundo comenta. Você pratica muito em casa?

— Pratico o quê? Claro que não! É atuação, é trabalho!

— Ah, então é dom natural! Que sorte a sua. Eu já tentei praticar uma vez com a minha almofada e caí da cama — contou Pafúncio, muito sério, enquanto Mariana cobria o rosto de vergonha e Carlos não parava de rir.
 
De repente, apareceu a diretora da novela, Dona Rosália, uma senhora muito séria e brava.
 
— O que é toda essa algazarra aqui? Vocês estão atrasando as gravações! — esbravejou ela.

— Dona Rosa! Que honra! — disse Pafúncio, correndo até ela e tropeçando novamente, dessa vez derrubando uma mesa com copos de água. — Ai, meu Deus! Me perdoa, eu pago tudo, eu juro!

— É Rosália! E pare de derrubar as coisas, pelo amor de Deus! Quem é você mesmo?

— Pafúncio, da revista Fofocas & Cia. Estou fazendo a grande matéria sobre a novela!

— Grande matéria? Até agora você só errou nomes, fez perguntas absurdas e derrubou metade do equipamento — disse ela, cruzando os braços.

— É que… sou muito dedicado, mas às vezes as coisas saem um pouco diferente do planejado — explicou ele, coçando a cabeça. — Mas já tenho tudo pronto!

— Ah é? E o que você descobriu de tão importante? — perguntou ela, desconfiada.

— Muita coisa! Mariana gosta de pastel, Carlos tem medo de barata e vocês todos são muito legais! — disse ele, todo orgulhoso.

— Isso é tudo? — perguntou Mariana, surpresa.

— Não! Também descobri que vocês têm muita química! Porque toda vez que eu falo alguma coisa, vocês riem juntos! É amor, tenho certeza!

— Nós rimos de você, Pafúncio! — falou Carlos, ainda rindo muito.

— Ah, então é amizade! Melhor ainda! Vou escrever: “Amor, Risadas e Pastel: Os Bastidores Mais Divertidos da TV”!

— Pelo menos o título é bonito — concordou Rosália, já sem jeito. — Agora, por favor, saia daqui antes que você derrube o teto também!

— Já vou, já vou! Muito obrigado a todos! Vocês são os melhores! — disse ele, acenando, e na saída esbarrou numa porta, que bateu forte e fez cair um letreiro da novela.
 
Quando chegou à redação, o chefe perguntou:

— E aí, Pafúncio? Conseguiu uma boa história?

— Consegui, chefe! É a melhor de todas! E ainda saí de lá sem quebrar nada… bem, quase nada! — respondeu ele, mostrando o caderno cheio de riscos e poucas palavras.
 
E a matéria saiu na semana seguinte: cheia de erros, histórias inventadas e detalhes engraçados que ninguém tinha dito, mas que fez a revista vender muito. E os atores, ao lerem, só conseguiram rir muito — e combinaram que, na próxima entrevista, iam se preparar muito… ou então fugir assim que vissem Pafúncio chegando.

Fonte:
José Feldman. Nossas risadas de cada dia. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.

Eduardo Martínez (Francisca, a benzedeira)

Francisca, mulher de lá seus quase 70, era muito considerada na comunidade, seja como benzedeira das mais tradicionais, seja por conta dos quitutes que deixava todo mundo de água na boca. Mal saía de casa, todos a cumprimentavam ladeira abaixo, até chegar à rua, de onde caminhava até o calçadão de Copacabana. Virava à esquerda e dava exatos sete passos. Ainda de pé, retirava as sandálias de couro puído e, somente então, pisava na areia. Sentia seus pés afundando gostosamente, ao mesmo tempo em que soava aquele gostoso barulhinho: "Chiiii!"

Nada detinha Francisca até que chegasse às águas, que lambiam seus pés. Ela abaixava o tronco e, com os braços pêndulos, catava um pouco da água gelada, passava nos pulsos e, depois, molhava o rosto. Precisava energizar! O olhar fixo para o horizonte, a boca muda, apesar do sorriso alvo por conta da nova dentadura, conversava em pensamento com Iemanjá, a rainha do mar. 

Quase uma hora após, Francisca subia o morro e, finalmente, chegava à sua casa. Tudo era paz, tamanha a paciência da velha. Daqui a pouco, chegariam os moradores em busca de auxílio espiritual. E foi o que aconteceu, quando adentrou na varanda da casa da benzedeira a Iolanda, que puxava o filho pelo braço bem fininho. 

- Dona Francisca, a senhora precisa me ajudar com o Pedrinho! 

 – E o que tem esse menino tão lindo, minha filha?

– Ele não obedece ninguém! Já botei de castigo, já dei taca, mas ele continua desobediente.

  Francisca observa cada palavra cuspida pela boca de Iolanda, enquanto o moleque tentava se esconder entre as pernas da mãe. A velha, com aquele olhar complacente, pegou na mão do Pedrinho. Este, por sua vez, fez uma careta tão feia pra benzedeira, inclusive dando língua. Francisca, já com a feição atormentada pela atitude do Pedrinho, diz:

– Isso não se correge nem cá, peste!

Fonte:
Blog do Menino Dudu. 16.06.2022.
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/06/francisca-benzedeira.html

Aparecido Raimundo de Souza (O sorriso do abismo)


VÁRIAS PESSOAS que conheço costumam dizer com convicção acirrada e espírito crente, que o abismo é puro silêncio. Um silêncio enorme e vazio, pesado e ausente. Todavia, imbuído de bons presságios creio ser de vaticínios alvissareiros.  Eu juro por tudo quanto é sagrado, apesar dos pós e contras, o abismo me sorriu. Embora procure ser a cada novo dia um homem de instintos fáceis, é bem verdade, posso afirmar com precisão se tratar de uma alacridade da mais pura alegria e felicidade, sem aqueles indesejados percalços repletos de flagelos e calamidades. 

Esse regalo que capturei no rosto do despenhadeiro, apesar de se moldar num gesto enigmático, (como quem guarda um sigilo intransponível em roupagem de cautela) só se revela verdadeiramente a quem ousa encarar sem medos ou receios a negritude de sua escuridão pesada e densa, sem piscar, ou melhor, sem ao menos descambar para o terreno da morbidez exasperada. O sem fim sorriu para mim, sorriu generoso, voraz, (e disso me lembro bem), sorriu radioso apesar de uma tarde triste e melancólica, em que a vida me parecia suspensa, sem sentido e sem direção. 

Eu estava à beira de um turbilhão de escolhas, onde só conseguia contemplar perdas. Nada de ganhos. Na verdade, eu estava à mercê de um buraco enorme, de uma cratera em torno da qual via lá no fundo a mim mesmo. E foi ali, no limite entre uma espécie sórdida de medo e uma nesga de coragem, atrelado igualmente a uma dúvida traiçoeira e cruel amarrado a uma incerteza paralítica, que percebi: o abismo ali bem aos meus pés, por mais imenso que me espionava, não se constituía num inimigo. Ele se transformara, do nada, mostrando tudo, como uma espécie de visão do amanhã. 

Uma visão benfazeja onde o seu sorriso para lá de mavioso se formava como um convite amável. Um chamamento inocente não para me puxar simplesmente e me fazer mergulhar em uma profundeza sem volta, ou algo pior. Em nenhum momento me vi movido ou atrelado, cativo e açoitado por forças hercúleas, onde procurasse, a todo custo, ou por puro medo cair fora sem me deixar ser abatido. O sorriso do abismo a meu ver, se fez terno lembrete de que não há chão ruim, não há certezas inabaláveis. Entretanto, é o riso discreto de quem sabe que a vida é feita de saltos.

E são nesses saltos que a gente descobre que quem se arrisca verdadeiramente a abrir os braços, não se machuca. Talvez o abismo sorriu e o fez porque conhecia a minha teimosia em acreditar que o controle de tudo é possível. Talvez (dito de outra forma), o profundo me sorriu porque sabia que no fim, seria ele quem me ensinaria a viver. E eu, diante dele, sorri de volta. Não por desafio, mas por gratidão. Porque o abismo, com seu sorriso franco e sem gestos maldosos me mostrou que é possível assimilar, na integra, que o medo também pode ser e, de fato é, um caminho.

O imensurável, lá embaixo, à frente de meus olhos, me mostrou não ser apenas um espaço vazio diante de um medo bobo que me segurava como se tivesse grudado no acaso. Ele se fez a metáfora daquilo que eu não podia controlar: o tempo que escorria, a morte que me esperava, o acaso que nos atravessava a todos. E, ainda assim, ele me arreganhou os dentes. Sorriu feliz, não num misto de zombaria, mas de revelação. Me sorriu, acima de tudo, porque sabia da minha busca por um sentido mais promissor e que em cada pergunta que eu fizesse, redundaria numa resposta que me mostraria novos horizontes. 

Por conta disso, esse abismo, bem aqui na minha frente, me lembrou num dado momento que viver é como caminhar sobre pontes frágeis, passear por viadutos suspensos, sabendo que no próximo passo o chão poderá ruir, contudo, apesar dessa incerteza, eu deveria seguir em frente. O sorriso do abismo é o paradoxo da existência. O nada que nos olha e, ao mesmo tempo, nos dá a chance de criar e recriar tudo. É o convite amável para transformar o medo interior em impulso. A incerteza em criação, onde o limite final se delimita em liberdade.

Precisamos entender que quando o abismo sorri, ele o faz, de fato, matreiro, e nessa hora nos mostra que não há garantias, mas possibilidades. E talvez seja justamente nesse sorriso enigmático, silencioso e inevitável que descobrimos que a vida não é sobre evitar a queda, mas sobre aprender a dançar no perigoso frágil da borda, lembrando aquela frase de uma história contada por Ariano Suassuna, onde ele começa dizendo que “ao redor de um buraco tudo é beira”. Pois bem! Esse tom existencial abre espaço para reflexões sobre liberdade, finitude e criação.  

Não devemos esquecer também que o abismo sorri porque conhece de cabo a rabo, a minha finitude. Ele sabe que sou feito de tempo, e que o tempo é feito de limites. Cada instante que passa é um passo em direção ao fim, e é justamente essa consciência que me obriga a pensar. E eu matuto com meus botões, penso: sem o limite, não haveria urgência. Sem a morte, não haveria vida. O sorriso do abismo nada mais é que o lembrete de que o NADA nos observa, mas também nos dá a chance de inventar o TUDO. Com isso, aprendi que criar é o gesto humano diante do abismo: escrever, amar, construir, imaginar... 

Isso tudo se transforma nas respostas que damos ao vazio, como quem planta flores na beira de um precipício. O abismo me sorri porque sabe que, ao me confrontar com o fim, me oferece a possibilidade de transformar o medo em arte, a angústia em liberdade, o silêncio em palavra. O abismo não é prisão. Ele é passagem. Há momentos em que a gente se sente engolido por sua escuridão, como se não houvesse saída. No entanto, o sorriso do abismo também é promessa: ele mostra que podemos atravessá-lo, que não precisamos permanecer ali.  

Encarar o abismo é reconhecer a fase em que estamos presos em imensa dor, abarrotado de dúvida, de perda e aceitar que ele não é destino, mas uma etapa a ser transposta. O sorriso do abismo nos ensina que sair dele é possível, que a vida continua além da borda, e que cada mergulho na escuridão pode nos devolver mais inteiros, mais conscientes, mais vivos. A meu entender, essa versão filosófica conecta o meu sentido de abismo à finitude e não só a ela, igualmente à criação, mas termina com uma reflexão libertadora: o abismo não nos aprisiona, ele nos transforma.

Estar prestes a cair num abismo, ou de forma mais branda, tentar sair de um, seja ele emocional, existencial ou simbólico não significa apagar o que vivemos, mas aprender a atravessar os percalços sem deixar que as marcas se tornem feridas permanentes. O segredo está em transformar o encontro com o abismo num eterno aprendizado de experiência e de crescimento. Jamais em prisão. Reconhecimento do limite: admitir que estamos diante de um vazio, de uma fase difícil, é o primeiro passo. Negar o abismo só prolonga a sua sombra em nós.

Criação como resposta: escrever, pintar, conversar, reinventar rotinas, qualquer gesto criativo é uma forma de devolver sentido ao que parecia sem forma. Liberdade interior: compreender que o abismo não nos define. Ele é circunstância, não identidade. Podemos sair dele sem carregar o peso como destino. Finitude como impulso: lembrar que a vida é breve e que cada fase, mesmo a mais sombria, é apenas uma parte do caminho. Isso nos dá coragem para seguir em frente.

Superação como travessia: sair do abismo não é esquecer, mas atravessar. É olhar para trás e perceber que o sorriso do abismo foi apenas um convite para nos tornarmos mais conscientes de quem somos. No fim, o abismo pode ser encarado como uma fase da vida dura, intensa, mas passageira. Ele nos ensina que não estamos presos, que podemos sair vivos e inteiros, e que cada mergulho na escuridão pode nos devolver mais fortes. O sorriso do abismo, então, deixa de ser ameaça e se torna lembrança de que até o vazio pode ser mestre, e que seguir em frente é sempre possível

O abismo pode ser encarado também como uma fase da vida dura, intensa, mas passageira. Ele nos ensina, agora reiterando em repeteco, que não estamos presos, que podemos sair vivos e inteiros, e que cada mergulho na escuridão pode nos devolver mais fortes. O sorriso do abismo, então, deixa de ser ameaça e se torna lembrança: de que até o vazio pode ser mestre, e que seguir em frente é sempre possível. Há quem diga que o abismo é silêncio, vazio, ausência. Mas eu o vi sorrir. Não era um sorriso de alegria, tampouco de malícia. Era um gesto enigmático, como quem guarda segredos que só se revelam a quem ousa encarar a escuridão sem piscar. E eu fiz isso.

Entre prós e contras, o abismo sorriu para mim numa tarde em que a vida parecia suspensa. Eu estava à beira dele, à passos de um bocado de perdas, à ribanceira de mim mesmo. E foi ali, no limite entre o medo e a coragem, que percebi: o abismo não é inimigo. Ele é espelho. Seu sorriso é convite não para cair, mas para mergulhar em profundezas que evitamos por comodidade. O sorriso do abismo é o lembrete de que não há chão eterno, e mesmo estando tão distante de tudo não há certezas inabaláveis. É o riso discreto de quem sabe que a vida é feita de saltos, e que só descobre asas quem se arrisca a abrir os braços. E eu, abri. Voei como Ícaro, num sonho que me fez viajar entre a vida terrena e a verdadeira, onde meu Deus, muito tempo depois, refeito de mim, alegre e saltitante, A C O R D E I.

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 

sábado, 30 de maio de 2026

Chafariz de Trovas * 3 *

 

Aquele aspecto divino
que envolve certas pessoas
é o troféu com que o destino
condecora as almas boas.
A. A. DE ASSIS
 
Se há muita gente que gosta
de dizer o que bem quer,
é provável que, em resposta,
ouça aquilo que não quer!
ANA RODRIGUES
 
Às vezes a caridade,
que a paz e a esperança aspira,
põe no lugar da verdade
uma piedosa mentira…
ANGÉLICA VILLELA SANTOS
 
O Destino quis um dia
divertir-se de verdade.
Casou a dor e a alegria,
veio uma filha: a Saudade!
APARICIO FERNANDES
 
Quantos mortos trago vivos
no fundo do coração,
e dentro em mim quantos vivos
há muito mortos estão!
BELMIRO BRAGA
 
Rouba a luz do sol, maldosa,
o manto da madrugada,
que se afasta pressurosa,
na penumbra, encabulada...
CARMEN RUTH HOFFMANN
 
Quanto esta vida seria
difícil de suportar,
se não fosse esta mania
que a gente tem, de sonhar!
CAROLINA AZEVEDO DE CASTRO
 
Minha vida ganha impulso
e mais impulso ganho eu,
sempre que sinto o teu pulso
pulsando junto do meu!...
CAROLINA RAMOS
 
Quando a solidão avança, 
trazendo tristeza e medo, 
o amor é a luz da esperança, 
qual farol sobre o rochedo.
CATERINA BALZANO GAIOSKI
 
Luar, viola e sertão
nos mostram com harmonia
como a própria solidão
precisa de companhia…
CÉZAR AUGUSTO DEFILIPPO
 
Hoje, livre da senzala,
abolidos preconceitos,
a humanidade se embala
nessa ilusão de direitos...
DARIA RIBEIRO DO CARMO
 
Contra toda a malvadeza, 
que causa tantos horrores, 
em resposta, a natureza 
vem cobrir o chão de flores!
DARI PEREIRA
 
Uma pergunta insistente
de vez em quando me ocorre;
- Por que é que toda gente
só fica boa se morre?
DALVA CAMPELO CASTANHEIRA
 
Juntando juncos, retalhos
no bom arranjo da tralha,
foram surgindo espantalhos
dos louros sonhos da palha...
DÉBORA NOVAES DE CASTRO
 
Moradores de um barraco,
fofoqueiros de "mão cheia",
preparam outro "barraco"
falando da vida alheia...
DÉCIO RODRIGUES LOPES
 
Ao beijar a tua mão
que o destino não me deu,
tenho a estranha sensação
de estar roubando o que é meu!…
DURVAL MENDONÇA
 
Gosto de viver sozinho,
não suporto amigo falso.
— Não pode plantar espinho
quem vive sempre descalço.
EDIZIO MENDONÇA
 
Ganhe um mundo mais feliz: 
leia livros, não seja ilha, 
e a própria vida nos diz: 
feliz é quem compartilha!
ELIAS PESCADOR
 
Uma emoção fugidia
também tem o seu cantor:
— Um trovador fantasia
qualquer história de amor!. . .
ELZA CAPANEMA LEITÃO
 
A Fé sem base é cegueira,
é fanatismo, é paixão.. .
— A Fé só é verdadeira
quando não teme a razão.
FERNANDO BURLAMAQUI
 
Nos lixões abomináveis, 
vejo vidas sem ter vida, 
na saga dos vulneráveis, 
batalhando por comida.
FRANCISCO GABRIEL
 
Naquela criança linda
que brinca, cheia de pressa,
o meu mundo que se finda,
fita um mundo que começa!
GALDINO ANDRADE
 
A saudade é simplesmente
um claro espelho encantado.
Mira-se nele o presente
e ele reflete o passado.
GERALDA ARMAND
 
Somos todos nessa vida
pescadores de ilusão
dedicando a nossa lida
aos anzóis de uma paixão.
GERALDO TROMBIN
 
Em jovem era uma uva,
cheia de vida e de graça.
Com a idade, o sol e a chuva,
a coitada virou “passa”.
HELENA KOLODY
 
Não rias da desgraçada
que por maus caminhos vai;
— na seda mais bem lavada
cai uma nódoa e não sai...
IRENE MARGARIDA CAMPOS DA SILVA RUIVO
 
Ah! Vontade de seus braços
me envolvendo com carinho.
Hoje, são apenas traços,
que ficaram no caminho!
JOSÉ FELDMAN
 
Se com fome estende a mão,
a criança mais procura
junto ao pedaço de pão,
uma sopa de ternura.
JOSÉ HENRIQUE DA COSTA
 
Mantenho viva a esperança
de ainda ter um jardim,
para soltar a criança
que brinca dentro de mim!
JOSÉ LAMARTINE
 
Tudo brilha nas alturas,
por tênue que seja a chama...
Há, porém, luzes mais puras
quando o brilho sai da lama!
JOSÉ MARIA GUIOMAR NETO
 
Minha mãe verteu mais pranto
que a mãe de Nosso Senhor.
— A Virgem chorou um santo;
minha mãe — um pecador!
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO

Em quantos dos sonhos meus
tantas vezes nos deixamos
e, em cada beijo de adeus,
na hora recomeçamos,
LILIAN MAIAL
 
Bravura é da água da fonte
que, aos tropeços, vem, contente,
vencendo as pedras do monte,
matar a sede da gente!
LILINHA FERNANDES
 
A dor que nunca se esvai,
a dor que mais mortifica,
não é a do pranto que cai,
mas da lágrima que fica.
LINDOURO GOMES
 
Meu desejo percorreu
teu corpo como compasso,
circulando o que é tão meu,
na geometria do abraço.
LISETE JOHNSON
 
São delícias passageiras
as carícias da paixão,
como brisas forasteiras,
nem bem chegam, já se vão...
LOURDES APARECIDA CIONE
 
Duas vidas todos temos...
muitas vezes sem saber:
— A vida que nós vivemos
e a que sonhamos viver.
LUIZ OTÁVIO
 
Do nascer à eternidade, 
tanta lição aprendida: 
ora riso, ora saudade, 
na viagem de uma vida!
MARIA CRISTINA DE OLIVEIRA
 
Essa paixão envolvente, 
que nos une em comunhão, 
põe tanto amor entre a gente, 
que não cabe a solidão !
MARIA LÚCIA DALOCE
 
Só mesmo Deus sabe o custo
do resgate de uma dor,
principalmente se o justo
paga pelo pecador…
MÁRIO LINHARES
 
Oferecendo a miragem 
de uma vida sem escolta 
o vício vende passagem 
para a viagem sem volta.
OLYMPIO COUTINHO
 

Minha avó, que já está morta, 
queria tudo perfeito... 
Até fazendo uma torta, 
fazia torta direito! 
ORLANDO WOCZIKOSKY
 
Ah, que estranho desafio
e esquisita proporção:
quanto mais fica vazio,
mais nos pesa o coração!
PADRE CELSO DE CARVALHO
 
Ouço da flor que se arruma, 
as queixas da mesma saga, 
ao descobrir que perfuma 
a mão perversa que a esmaga!
PROFESSOR GARCIA
 
No olhar da bela princesa 
lágrima teima em correr. 
Tal qual água de represa 
que logo insiste em verter…
RENATO DA SILVA CARDOSO
 
Aprendi, desde menino,
uma lição permanente:
não fazemos o destino,
— o destino faz a gente!
SEBASTIÃO PAIVA
 
Esta vida é um buraco
cujo fundo não se vê.
Morre o bom, fica o velhaco
e ninguém sabe porquê.
SYMACO DA COSTA
 
Sob o feitiço do mar,
o poeta assim diria: 
-É propício pra sonhar,
mas, sem você... que ironia!!! 
VÂNIA ENNES 

A vida é só uma jornada, 
antes da grande viagem 
que não tem data marcada, 
nem destino e nem bagagem.
ZUNIR PEREIRA ANDRADE FILHO
 
Nas horas graves e calmas,
que só Deus mesmo me traz,
penso na paz dessas almas
que nunca tiveram paz!
ZALKIND PIATIGORSKY

A. A. de Assis (Um susto na redação)

Ivens Lagoano Pacheco, dono e diretor do “O Jornal de Maringá”, era um gaúcho de corpo volumoso e vasto bigode. Para completar, fumava charuto e usava óculos escuros. Na sala de redação, naquele início de tarde em 1963, estávamos Ademar Schiavone, João Amaro Faria, José Zimermann e eu.

Tudo parecia calmo, ouvindo-se apenas o teque-teque das máquinas de escrever. Súbito entrou um homem muito nervoso, com um canivete numa das mãos e na outra um jornal todo amassado. Aos gritos, dizia:

– Quero ver quem foi o desaforado que botou meu retrato aqui nesta porcaria e me xingou de indivíduo e desordeiro...

Tinha saído no matutino a notícia de uma briga de bar, na qual o tal fulano esteve envolvido. Por sorte, naquele momento o repórter responsável pelo noticiário policial havia saído para um trabalho na rua.                                    
Ivens estava na sala dele recebendo a visita de um amigo, o Doutor Newman da Silva Gomes, um dos primeiros dentistas de Maringá. De lá ouviu a gritaria e veio ver o que estava acontecendo. O homem continuava esbravejando e fazendo ameaças. Ivens chegou peitando o sujeito e soltando baforadas de fumaça:

– Abaixe essa arma e converse como gente educada.  

O homem teve um tremelique, deixou o canivete cair e se desmanchou numa crise de choro.  Ivens mandou que ele se sentasse num sofá e disse:

– Olhe aqui, seu moço, isto aqui é um lugar de respeito. Se você tem alguma queixa a fazer, fale comigo. 

O homem enxugou os olhos com as mãos, disse que era um trabalhador desempregado e que estava de passagem por Maringá procurando trabalho. Metera-se na confusão do bar só por ter sido provocado.

Aí foi o bom Ivens que começou a chorar. Ligou para um restaurante que havia perto do jornal e mandou vir uma marmita bem recheada. Em seguida telefonou para um amigo empresário pedindo que arranjasse um servicinho para o rapaz até que aparecesse coisa melhor.
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 28-5-2026)

Olga Agulhon (Na safra da vida, a magia das cores)

 Crônica Vencedora do Concurso Nacional de Crônicas do 3º Jogos Florais de Caxias do Sul /RS – 2011
No espelho não mais encontro aquela jovem que um dia foi a noiva de branco a se olhar uma última vez antes de se entregar… Um último retoque nos negros fios encaracolados; uma última ajeitada na grinalda de flores de laranjeira… e pronto! Tão linda imagem… perfeita! Estava ali a encarnação da esperança!

Tudo perfeito, afinal, naquele dia. Em cadeiras caprichosamente arrumadas sob a sombra do parreiral em cachos, amigos e familiares em sincera torcida… Quase toda a italianada da colônia…

As uvas pendiam roxas e perfumadas, indicando fartura e bons presságios ao alcance das mãos.

O noivo, de pé, no altar, com brilho de gel nos cabelos, vestia, com certeza, o seu melhor traje. Aguardava, aflito, a donzela que tomaria por esposa como quem espera, finalmente, começar a viver… Cheio de sonhos no olhar!

Não vi, ao caminhar em sua direção, nada além daqueles olhos de anil e promessas… Olhos que guardariam aquele momento para sempre em sua retina… Olhos que me diziam: – Venha, não tenha medo, ninguém aqui ousará ofendê-la, e hoje é o seu dia de rainha.

Unidos pelo santo laço do matrimônio, não mais enfrentaríamos a resistência dos sogros… Estava feito!

Outras safras vieram, ano após ano. Junto com a colheita da uva e a produção do vinho, comemorávamos o aniversário de casamento e, de quando em quando, a dádiva da vida sendo gerada em ventre fértil.

Nem tudo foi assim tão lindo do jeito que foi sonhado… Nem todas as promessas foram cumpridas… Algum encanto se desfez aqui ou acolá, mas tudo foi bem-vindo…  Estávamos juntos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença… Fomos abençoados com cinco valorosos filhos, que formavam lindo degradê, e nossas vidas estariam para sempre entrelaçadas. 

Volto a me buscar no mesmo espelho da penteadeira de imbuia, na mesma casa caiada com as cores da terra… e o meu amor está de partida.

Busco-me no espelho e não me vejo. Na imagem refletida, uma outra habita. Insisto e me procuro naquela imagem de cabelos de neve cobertos… Não reconheço nenhum traço. Não vejo quem sou, não encontro quem fui quando trocamos o “sim” diante do altar…

Lembro-me dos olhos de promessas cheios…  Éramos outros… Tão jovens!

A velhice enrugou o nosso olhar… Não me reconheço diante do espelho e meu loiro não pode me ajudar nesse momento, pois trava um longo combate com a morte, no quarto ao lado… Insisto, aprumo os óculos, fixo-me bem posicionada… nada! O velho espelho também exibe as marcas do tempo. Choro… e as lágrimas silenciosas escorrem lentamente, percorrendo os inúmeros sulcos esculpidos em meu rosto.

Recomponho-me! Aprendi a aceitar os punhados de dor que a vida me reserva e esconde entre tantos potes de felicidade.

Volto e sento-me a seu lado. Ainda ouço um último sussurro: – Te amo, minha nega!… E então, finalmente, me reencontro naquelas retinas, que sempre me viram além da cor e das marcas do tempo.

Firme, seguro sua mão até a travessia, com a certeza de que, na minha hora, ele estará me esperando na margem de lá, com a mão estendida…, e ao caminhar em sua direção não verei mais nada além daqueles olhos de anil e promessas…

Outra safra se aproxima e a saudade ainda machuca o peito, mas alegro-me com a chegada dos filhos ao nosso pedaço de terra nesse cantinho do mundo.
A natureza novamente em cachos perfumados e coloridos.

Agradeço ao Criador da vida! O meu quinhão de alegria sempre foi maior que o meu quinhão de dor…

Meus filhos, participando da colheita da uva, são como bálsamo para os meus olhos… Lindos e fortes, uma mistura perfeita de raças, o branco e o negro em profusão de amor: na safra da vida, a magia das cores!

Fonte:
Jornal O Diário. Caderno D+. 31 janeiro 2012.

Dicas de Escrita (Por que um leitor abandona um livro)

 
Imagem = IA Microsoft Bing
A decisão de interromper a leitura de um livro, mesmo já tendo avançado em suas páginas, é um fenômeno muito comum e complexo, que não se resume a uma única causa. Trata-se do resultado de uma combinação de fatores relacionados à obra em si, às características do leitor, ao contexto em que a leitura acontece e até às expectativas que foram criadas antes do início da leitura. Abaixo, explico detalhadamente cada um desses aspectos, desmembrando as razões que levam alguém a deixar um livro de lado.

1. Problemas relacionados à estrutura e à qualidade da narrativa

É, sem dúvida, o conjunto de razões mais frequente. Quando a construção da história, das personagens ou da linguagem não cumpre o que se espera, o vínculo entre leitor e obra se rompe.

Desenvolvimento fraco ou confuso da trama

Uma das primeiras causas é a falta de clareza ou de propósito na história. Muitas vezes, o autor  começa a narrar sem definir claramente qual é o conflito principal, qual é o objetivo das personagens ou qual é o rumo que a história vai tomar. O leitor passa capítulos inteiros sem entender para onde a narrativa está indo, e essa sensação de "estar perdido" gera desinteresse. Além disso, se a trama se arrasta por muito tempo sem que nada de relevante aconteça — o que chamamos de "encheção de linguiça" —, a leitura se torna cansativa. 

O oposto também é um problema: se os acontecimentos são muito rápidos, mal explicados ou se há mudanças bruscas que não fazem sentido lógico, o leitor não consegue acompanhar e acaba desistindo. 

Buracos na trama, ou seja, fatos que não são explicados, contradições entre o que foi dito antes e o que acontece depois, ou soluções fáceis e inverossímeis para problemas complexos também quebram a credibilidade da história.

Personagens que não geram identificação ou interesse

As personagens são o coração de qualquer narrativa. Se elas forem mal construídas — rasas, sem personalidade, sem motivações claras ou sem evolução ao longo da história, o leitor não se importa com o que acontece com elas. Não há razão para continuar lendo se não sente simpatia, curiosidade ou até mesmo antipatia por quem está sendo narrado. 

Outro problema comum é quando as atitudes das personagens não condizem com o que foi apresentado sobre elas: por exemplo, uma personagem que é descrita como muito corajosa, mas que em momentos decisivos age de forma covarde sem explicação. Também afasta o leitor a criação de personagens excessivamente perfeitas, sem defeitos ou dificuldades, pois elas se tornam irreais e distantes da experiência humana.

Estilo de escrita inadequado ou cansativo

A forma como a história é contada influencia diretamente na experiência de leitura. Alguns autores usam uma LINGUAGEM EXCESSIVAMENTE REBUSCADA, COM PALAVRAS RARAS, frases muito longas e complexas, ou descrições minuciosas e intermináveis de ambientes, objetos ou sentimentos, que tornam a leitura lenta e difícil. Quando o leitor precisa parar a cada parágrafo para entender o que está escrito, a leitura deixa de ser prazerosa e se torna um esforço. 

Por outro lado, uma escrita muito simples, repetitiva ou com erros de coesão e coerência também afasta, pois demonstra falta de cuidado com a obra. O ritmo da escrita também importa: se todo o texto tem o mesmo tom, a mesma velocidade, sem momentos de tensão, de calma ou de emoção, a leitura fica monótona. O uso inadequado de pontos de vista — como mudar de quem está narrando sem avisar, ou usar um ponto de vista que não permite conhecer os pensamentos ou sentimentos das personagens — também cria distanciamento.

Diálogos artificiais ou irreais

Os diálogos são uma ferramenta essencial para contar histórias, mas quando são mal feitos, causam estranhamento. Se as personagens falam de forma muito formal, com frases que ninguém usaria na vida real, ou se os diálogos servem apenas para explicar coisas que o autor quer que o leitor saiba, ao invés de refletir a forma como as pessoas realmente se comunicam, a sensação é de falsidade. 

Além disso, diálogos que não avançam a trama, que são repetitivos ou que não revelam nada sobre quem está falando, são um motivo frequente para abandonar a leitura. 

Problemas na estrutura da obra

Alguns livros têm uma organização que dificulta o acompanhamento: por exemplo, saltos temporais muito frequentes e sem marcação clara, divisão de capítulos que não faz sentido, ou uma ordem dos acontecimentos que confunde a compreensão. Quando a estrutura não ajuda o leitor a navegar pela história, a sensação é de desorganização, e a leitura se torna desagradável.

2. Descompasso entre expectativa e realidade

Antes mesmo de começar a ler, o leitor cria uma ideia sobre o livro, baseada em sinopses, recomendações, resenhas, capa ou até mesmo no nome do autor. Quando o que ele encontra nas páginas é muito diferente do que esperava, a decepção é imediata e pode levar ao abandono.

Expectativas criadas pela apresentação da obra

A sinopse, na contracapa ou na apresentação, é um dos principais fatores de atração. Se ela promete uma história de mistério cheia de reviravoltas, mas o livro é, na verdade, uma narrativa lenta sobre relações familiares, o leitor se sente enganado. O mesmo acontece se a capa sugere um gênero (como fantasia ou romance), mas o conteúdo pertence a outro, ou se o livro é vendido como uma obra-prima, mas a qualidade percebida pelo leitor é muito inferior. 

Recomendações de amigos, críticos ou influenciadores também criam expectativas: se alguém que você confia diz que um livro é incrível, e você não encontra nada de especial nele, a frustração pode fazer com que você desista.

Gênero ou tema que não corresponde ao gosto do leitor

Muitas vezes, o livro é bem escrito, bem estruturado e tem boa crítica, mas simplesmente não agrada ao gosto pessoal de quem está lendo. Por exemplo, alguém que gosta de histórias dinâmicas, com muita ação, pode achar um livro de reflexão filosófica ou drama psicológico muito parado e chato. Da mesma forma, temas que não interessam, ou que são tratados de uma forma que não agrada, fazem com que o leitor não veja sentido em continuar. O gosto é algo subjetivo: o que é maravilhoso para uma pessoa pode ser insuportável para outra, e isso não significa que o livro seja ruim, apenas que não combina com quem está lendo.

Abordagem de temas sensíveis ou polêmicos

Alguns livros tratam de assuntos difíceis, como violência, traumas, discriminação ou sofrimento extremo. Se o autor aborda esses temas de forma excessivamente explícita, sem cuidado, ou se o leitor tem alguma ligação pessoal ou sensibilidade com o assunto, a leitura pode se tornar desconfortável, dolorosa ou até ofensiva. Nesse caso, o abandono é uma forma de proteção emocional, pois a pessoa não quer continuar exposta a sentimentos negativos ou situações que a afetam profundamente. Além disso, se a forma como um tema é tratado contraria os valores, crenças ou princípios morais do leitor, ele não se sente à vontade para seguir adiante.

3. Fatores relacionados ao leitor

O estado, a disposição e as características de quem lê também são determinantes para a continuidade ou interrupção da leitura.

Falta de disponibilidade de tempo ou de concentração

Vivemos em um mundo cheio de distrações e obrigações. Muitas vezes, o livro é bom, mas o leitor está sobrecarregado com trabalho, estudos, problemas pessoais ou atividades diárias, e não consegue encontrar tempo ou calma para ler com atenção. Quando as leituras são feitas em pedaços curtos, com interrupções constantes, é difícil se envolver com a história: ao retomar a leitura, já não se lembra o que aconteceu antes, quem são as personagens ou qual é o contexto, e isso faz com que a experiência seja fragmentada e pouco prazerosa. A falta de concentração também pode ser resultado de cansaço físico ou mental, que torna difícil absorver o conteúdo.

Estado emocional ou mental inadequado

O nosso humor e o que estamos vivendo na vida real influenciam muito o que lemos e como lemos.

Um livro que é engraçado, leve e divertido pode ser exatamente o que precisamos em um momento de alegria, mas se estamos tristes, ansiosos ou passando por um problema difícil, pode parecer superficial ou inadequado. Da mesma forma, uma história densa, profunda ou triste pode ser muito pesada para alguém que já está emocionalmente abalado. 

Em certos momentos, a pessoa só quer algo que a distraia, e não algo que exija reflexão ou que mexa com sentimentos intensos. Se o livro não se adapta ao que a pessoa precisa ou está disposta a receber naquele momento, ele é deixado de lado.

Falta de afinidade com o estilo ou a proposta do autor

Alguns autores têm uma forma muito própria de escrever, de estruturar histórias ou de ver o mundo. Mesmo que a obra seja reconhecida como excelente, o leitor pode simplesmente não se identificar com essa forma de ver e contar as coisas. Pode ser que ele não concorde com as ideias apresentadas, que não goste da forma como o autor pensa ou que ache a perspectiva adotada distante ou incompreensível. Essa falta de sintonia faz com que a leitura não gere conexão, e sem conexão, não há motivação para continuar.

Dificuldade de compreensão ou conhecimento prévio

Certos livros exigem um repertório cultural, conhecimento específico ou maturidade que o leitor ainda não tem. Obras clássicas, livros com referências históricas, filosóficas ou científicas, ou textos com linguagem de uma época diferente podem ser difíceis de entender para quem não tem a base necessária. Quando a pessoa sente que não consegue acompanhar, que não entende o que está sendo dito, ou que precisa estudar para ler, a leitura deixa de ser um prazer e se torna uma tarefa, levando ao abandono.

4. Fatores externos e de contexto

Além da obra e do leitor, o ambiente e a situação em que a leitura acontece também têm peso na decisão.

Concorrência com outras atividades ou interesses

Hoje, temos inúmeras formas de entretenimento e informação: séries, filmes, jogos, redes sociais, podcasts, entre outros. Muitas vezes, o leitor começa um livro, mas encontra outras atividades que acha mais interessantes, mais rápidas ou mais fáceis de consumir. A leitura exige dedicação e atenção, que muitas pessoas preferem direcionar a outras coisas que lhes dão prazer ou retorno mais rápido. Além disso, se surge um novo interesse, um novo assunto ou um novo livro que desperta mais curiosidade, o que estava sendo lido é deixado para trás.

Problemas com a edição ou a apresentação física do livro

Parece pequeno, mas detalhes físicos importam muito. Edições com letras muito pequenas, páginas muito finas, papel de má qualidade, diagramação confusa, muitos erros de impressão ou ortografia, ou ainda livros muito grandes, pesados ou desconfortáveis de segurar tornam a leitura cansativa e desconfortável. Se cada página lida é um esforço físico ou visual, a pessoa vai preferir parar.

Influência de outras pessoas ou do meio

Às vezes, o leitor está gostando do livro, mas ouve comentários negativos de pessoas que ele respeita, ou percebe que ninguém ao seu redor conhece ou gosta da obra. Essa influência pode fazer com que ele passe a ver o livro com olhos diferentes, comece a achar defeitos que não via antes e, por fim, decida abandoná-lo. Também acontece de a pessoa sentir vergonha do que está lendo, por achar que não é um livro "importante" ou "adequado" perante os outros, e parar de ler por causa disso.

5. O limite pessoal e a decisão de parar

Há também um ponto que se refere à postura do próprio leitor em relação à leitura. Muitas pessoas sentem que precisam terminar todos os livros que começam, como se fosse uma obrigação ou uma forma de cumprir uma meta. Mas, ao longo da experiência de leitura, a pessoa percebe que não está gostando, que não está ganhando nada com a obra, ou que simplesmente não tem mais vontade de continuar. Nesse momento, a decisão de abandonar o livro é também uma escolha de respeito a si mesmo: reconhecer que o tempo e a disposição são valiosos, e que não faz sentido gastá-los com algo que não traz satisfação, conhecimento ou prazer.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Abandonar um livro não é um sinal de que o leitor não sabe ler, ou de que o livro é necessariamente ruim. É, antes de tudo, um reflexo da complexidade da relação entre quem escreve, o que é escrito e quem lê. Cada leitor é único, cada livro tem suas características, e cada momento da vida traz necessidades e interesses diferentes. As razões para parar são sempre uma mistura de todos esses elementos, e compreendê-las ajuda a entender que a leitura é, acima de tudo, uma experiência pessoal e subjetiva. O importante não é terminar todos os livros, mas encontrar aqueles que fazem sentido, que tocam, que ensinam ou que divertem — e que fazem valer a pena cada página lida.

Fonte:
Jfeldman. Dissecando a magia dos textos. Floresta/PR: A.I. Dola, Biblioteca Sunshine.