Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Aparício Fernandes (Classificação da Trova) Quanto à Origem



Vamos agora ao último aspecto da classificação de trovas: o da origem. Sob este ângulo, podemos situar a trova em três categorias: literária, popularizada e popular anônima.
        A trova literária é aquela de autor identificado, isto é, cuja autoria não padece dúvida, pelo menos para aqueles que se interessam de alguma forma pelo Movimento Trovadoresco ou pela literatura brasileira. É quase sempre assinada por trovadores atuantes e/ou de certo renome. Devido a isto, alguns a chamam também de erudita; preferimos, porém, a outra designação, por julga-la mais apropriada, embora talvez não seja ainda a ideal. Eis alguns exemplos de trovas literárias:

  _____________
Há tantos burros mandando  
em homens de inteligência,   
que às vezes fico pensando    
que a burrice é uma ciência...
SYMACO DA COSTA
 _____________       
Tanto se canta e enaltece,
do seu mal tanto se diz,
que saudade até parece
um modo de ser feliz.
ZÁLKIND PIATIGORSKY
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Quanta alegria semeia
quem vive sempre contente:
– A felicidade alheia
também faz feliz a gente.
OCTÁVIO BABO FILHO
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Que o verde é a cor da esperança  
vê-se logo que é mentira,
quando o nosso olhar alcança       
o céu azul de safira.       
MERCÊS MARIA MOREIRA LOPES       
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Ame a vida, cante e ria,
da mágoa não seja réu,
que a verdadeira alegria
tem o endereço do céu!
PEDRO GUEDES
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        Podendo-se apontar os autores dessas trovas, que são indubitavelmente aqueles cujos nomes figuram sob as mesmas, e sendo essa autoria de domínio público, comprovada através da publicação em livros, jornais e revistas, além da divulgação em programas radiofônícos, podemos seguramente classificar essas trovas como sendo literárias.
        Passemos agora às trovas poupularizadas. São aquelas que, caindo no gosto popular, são decoradas e repetidas pelo povo, incorporando-se praticamente ao folclore. O autor, como acontece sempre nestes casos, vai aos poucos ficando esquecido, pois o povo quer saber mesmo é da quadrinha, sem se preocupar em associar à mesma o nome de quem a compôs. A glória do anonimato é a paradoxal consagração do trovador. Os autores das trovas popularizadas são geralmente identificados pelos estudiosos mais atentos do trovismo. Todavia, mesmo entre os trovadores, são frequentes as controvérsias quanto à autoria de determinadas trovas popularizadas. Eis dois exemplos de trovas popularizadas:

Até nas flores se encontra      
a diferença da sorte:       
– umas enfeitam a vida, 
outras enfeitam a morte.
 _____________
Parece troça, parece,
mas é verdade patente:
– a gente nunca se esquece
de quem se esquece da gente.
  _____________
        A primeira destas quadrinhas é de autoria do cigano brasileiro Jerônimo Guimarães, que viveu no século XIX, e a segunda é do poeta pernambucano Jáder de Andrade. Milhões de brasileiros conhecem de cor estas duas trovas, mas, desses, quantos saberão os nomes dos autores? Em se tratando de trovas popularizadas, devemos ainda dizer que às vezes o       povo resolve    modificá-las, por conta própria, trocando palavras ou adulterando um ou mais versos; quando essas modificações são bem feitas e não atentam contra a metrificação, pode até mesmo acontecer que, com o passar do tempo, já não se tenha mais certeza de como era a trova originalmente.
        Na trova de Jáder de Andrade, por exemplo, o verso inicial, "Parece troça, parece", já tem sido modificado para “Parece incrível, parece", ou ainda "É incrível e não parece", enquanto que o resto da trova permanece o mesmo. Poderíamos citar ainda, como exemplo de trova popularizada, a conhecidíssima quadrinha de Bastos Tigre:


Saudade, palavra doce
que traduz tanto amargor!
Saudade é como se fôsse
espinho cheirando à flor.

continua… Trovas populares anônimas

Fonte: Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história & antologia. Rio de Janeiro/GB: Artenova, 1972

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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