Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Olivaldo Júnior (À Luz de Velas)

- Onde tem vela, vó? - perguntou Felipinho.

- Embaixo da pia, Lipe! - respondeu a avó, lá do quintal.

Os homens da companhia de luz haviam cortado a energia elétrica daquela casa logo à tarde. Não quiseram nem saber. Não pagou, se danou. E a luz foi cortada. Moravam apenas avó e neto naquela casa de quatro cômodos na periferia da pequena cidade em que moravam. A mãe dele havia morrido de doença ruim. O pai, sabe-se lá onde estava. Sumiu. Ficou para a avó criar o neto. Para isso, lavava roupa para fora. O dinheiro era pouco, mas dava para o pão. Sem pão, ninguém vive. E Felipinho adorava pão fresco, margarina e café coado em coador de pano, quente e doce.

Lipe, ou Felipinho, depois da escola. com seus dez anos de idade, catava latinhas de refrigerante nas ruas do bairro e fazia pequenos serviços para os vizinhos. Queria ser médico quando crescesse. Achava bonito. Gostava de ver Dr. House na tevê. A avó embarcava no sonho, sonhava junto. Ter um sonho é vital. Persegui-lo é surreal. O tempo daria conta de Lipe e de seu sonho? Não sei, o tempo não fala o tempo todo. De vez em quando, sisudo, se cala e custa a passar. Aliás, falando em passar, dona Nica e Felipinho passariam o Natal daquele ano à luz de velas. Romântico?

Era véspera de vinte e cinco de dezembro. Caía a noite. A avó sentou-se ao lado do neto e lhe fez um doce afago nos cabelos.

- Acende as vela, Lipe, enquanto a vó faz arroz pra nós, "filho"...
 
Felipinho, devagar, com se acendesse uma esperança, alumiou a casa dos dois. Depois, na mesa da cozinha mesmo, com o barulho da avó refogando o arroz e cantando um samba antigo do Paulinho da Viola, Lipe escrevia. Sua avó nem viu que aquela carta era um gesto de agradecimento. As sombras na cozinha, cuidadosamente formadas pela luz amarelada das velas acesas por Felipe, indicavam a poeticidade da noite. Lipe agradecia pela chance de ter a avó como mãe, a única que conhecera. Deixaria essa cartinha na meia furada, posta do lado de fora da janela. Não, não para o Papai Noel, que, assim como seu pai, nunca aparecera. Escrevia para o Menino Jesus, tão bonito, que ele via no presépio da praça ao fim do mês de novembro, sempre que voltava da escola. Logo, à luz de velas, arroz com carne moída e suco, ceariam. 
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Fontes:
O Autor
Imagem = http://comofas.com

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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