WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México
As não palavras
Máquinas e pássaros
compartilham as alturas.
Asas metálicas
contra penas multicoloridas.
Os pássaros, quase,
não têm céu.
Seus olhos, gotas de mel,
observam objetos polimórficos.
A palavra em voo,
o vento a impulsiona.
E os versos vibram
com o calor do verbo.
Um poema que quebra o vento
é celebrado pelo bater rítmico das asas.
Na biblioteca dos pássaros,
só existe poesia.
E a brisa carrega
as palavras incompletas.
(tradução do espanhol por José Feldman)
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Poema de
CRIS ANVAGO
Setúbal/ Portugal
E o mar veste-se com a doçura do rio
Desaguam as lágrimas
expandem-se na margem os lamentos
E as vozes são ondas em sobressalto
Na areia desmaiam as palavras
uma a uma sem pressa
com toda a sua verdade
na sinceridade que transportam
entranham-se nos grãos de areia
que esperam pacientemente por uma resposta
São segredos que o mar transborda
Estrelas do mar que se transformam
Sonhos coloridos
Vibrantes nas brumas do vento norte
Cada sonho tem a sua sorte,
desmaia ou realiza-se nos olhos de quem o sonhou
Sorrisos que ecoam
Lágrimas que secam
E voam
Será que voltam para sonhar?
Na onda a esperança de um sorriso
que de longe alcança os olhos
que se querem fechar na noite inquieta
e que se questionam se vale a pena tentar!
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Soneto de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP
Meu Pai...
(O soneto que ele não teve tempo de ler)
Quando te vejo, assim, domando a vida,
com a fibra invulgar do cavaleiro
que não teme as corcovas da subida,
nos reveses e quedas, altaneiro...
cabeça branca, face já curtida
pelo tempo e inclemência do roteiro,
velho e valente, fronte sempre erguida,
que a rude estrada forja o caminheiro...
mesmo que eu queira te dizer o tudo
que na alma eu sinto, meu falar é mudo,
minha voz na garganta se retrai!
Assim... faço dos versos o ofertório...
do coração, um cálido oratório...
e neles rogo a Deus por ti, meu Pai!
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Poema de
PEDRO DU BOIS
(Pedro Quadros Du Bois)
Passo Fundo/RS, 1947 – 2021, Balneário Camboriú/SC
Futuro
Não havia o traço esbranquiçado
rasgando o firmamento, nem a britadeira
e o caminhão misturando cimento e areia:
manualmente transportados
manualmente contados
manualmente colocados
blocos de pedras
superpostos
sobrepostos
erguiam paredes
em pequenos arcos
de telhados
sobre o topo o homem
sonhava traços de fumaça
cortando o firmamento.
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Trova Popular
Menina você me espera,
deixa correr esta sorte,
não temas, que serei firme
até na hora da morte.
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Soneto de
LINDA LACERDA
Montanha/ES
Soneto da flor da infância
Eu me lembro, eu me lembro, doce perfume da flor!
Brancas gotas perfumadas e tinham cheiro de amor...
Inebriavam as noites, da minha infância perdida,
Uma cascata verde e branca no verde da minha vida...
Lua serena no céu, a embranquecer minha ruazinha,
Sem saber que o jasmineiro por me ver assim sozinha,
Eu menina inocente, a me embalar em seus galhos,
Flores lançava aos meus pés, qual fina colcha de retalhos...
Foram-se meus verdes anos, cirandas e brincadeiras,
A doce lembrança da infância, da juventude que passou...
Joia que o tempo levou em leves asas ligeiras...
De menina me fiz mulher, mas na memória ainda há dor
Da doce lembrança dos dias, das minhas tardes trigueiras
Quantas saudades eu sinto, meu jasmineiro em flor!
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Décimas de
SIMPLÍCIO PEREIRA DA SILVA
Ceará
Galope por Dentro do Mato
Companheiro, eu do mar não conheço nada,
Nunca fui à praia e menos ao banho,
Pois o mar é um lago pra mim tão estranho,
Que parece até um mistério de fada...
Eu gosto bastante é de uma caçada,
Lá no meu sertão, muito embora que ingrato!
Pra você não pensar que estou com boato:
Uma meia hora vamos pelejar...
Pegue lá seu peixe por dentro do mar,
Que vou caçar peba por dentro do mato.
No sertão, à caçada, eu fui certo dia,
Num mato fechado, bem desconhecido,
Mas eu, na caçada, fui meio atrevido;
Chegando no mato, o sol já pendia ...
Tinha onça por praga, e eu não sabia;
Saí pisando devagar no sapato;
Senti um mau cheiro, pensei que era gato.
Quando vi a onça e a onça me viu:
O corpo tremeu e meu rifle caiu...
Foi carreira feia por dentro do mato!
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Soneto de
JORGE DE LIMA
União dos Palmares/AL (1893 — 1953) Rio de Janeiro/RJ
Velho tema, a saudade
Quem não a canta? Quem? Quem não a canta e sente?
— Chama que já passou mas que assim mesmo é chama...
A Saudade, eu a sinto infinda, confidente.
Que de longe me acena e me fascina e chama...
Mágoa de todo o mundo e que tem toda gente:
Uns sorrisos de mãe... uns sorrisos de dama...
..Um segredo de amor que se desfaz e mente...
Quem não os teve? Quem? Quem não os teve e os ama?
Olhos postos ao léu, altívagos, à toa,
Quantas vezes tu mesmo, a cismar, de repente
Te ficaste gozando uma saudade boa?
Se vês que em teu passado uma saudade adeja,
— Faze que uma saudade a ti seja o presente!
— Faze que tua morte uma saudade seja!
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Spina de
ARTUR JOSÉ CARREIRA
São Paulo/SP
Mudos
Encerra por aqui
Todo aquele vão
Entre eles, nós.
Pedaço sem farpas, apenas riscos
por toda superfície ainda áspera...
Nada importa, pessoas todas sós,
talvez, em busca por companhias
antes que, afônicas, percam voz!
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Soneto de
ALPHONSUS DE GUIMARAENS
(Afonso Henrique da Costa Guimarães)
Ouro Preto, 1870 – 1921, Mariana
Soneto da defunta formosa
Temos saudade, pálida formosa,
De tudo quanto o pôr-do-sol fenece:
Ou seja o som final de extrema prece,
Ou seja o último anseio de uma rosa...
E mais ligeiramente a gente esquece
Uma hora que a alma de carinhos goza,
Que de ter visto, em roxa luz saudosa,
Uma imperial tulipa que adoece...
Um lírio doente no caulim de um vaso
Faz-nos lembrar um luar em pleno ocaso
Morrendo ao som das últimas trindades...
E nem eu sei, amor, por que perguntas,
Tu que és a mais formosa das defuntas,
Se eu de ti hei de ter loucas saudades.
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Poema de
CÉSAR VALLEJO
Santiago de Chuco/Perú, 1892 – 1938, Paris/França
Os Anéis Fatigados
Há ânsias de voltar, de amar, de não ausentar-se,
e há ânsias de morrer, combatido por duas
águas unidas que jamais hão de istmar-se.
Há ânsias de um beijo enorme que amortalhe a Vida,
que acaba na África de uma agonia ardente,
suicida!
Há ânsias de... não ter ânsias, Senhor,
a ti aponto-te com o dedo deicida:
há ânsias de não ter tido coração.
A primavera volta, volta e partirá. E Deus,
curvado em tempo, repete-se, e passa, passa
carregando a espinha dorsal do Universo.
Quando as têmporas tocam seu lúgubre tambor,
quando me dói o sonho gravado num punhal,
há ânsias de ficar plantado neste verso!
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Pantun de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN
Pantun do fraterno abraço
TEMA:
O abraço meigo e fraterno,
refletindo nitidez,
no retrato fez eterno
tudo o que o tempo desfez.
Hélio Alexandre
Natal/RN
PANTUN:
Refletindo nitidez,
guardo ainda por lembrança,
tudo o que o tempo desfez
nesta foto de criança,
Guardo ainda por lembrança,
a paz dos nossos perfis,
nesta foto de criança
que tanto nos fez feliz.
A paz dos nossos perfis,
está na fotografia
que tanto nos fez feliz
nas marcas de cada dia.
Está na fotografia,
A expressão do amor eterno,
nas marcas de cada dia,
o abraço meigo e fraterno.
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Hino de
MANAUS/AM
Dentre a pompa e real maravilha
Desses belos e grandes painéis
Toda em luz, como um sol surge e brilha
A cidade dos nobres Barés
Grande e livre, radiante e formosa
Tem o voo das águias reais
E eu subir, a subir majestosa
Já nem vê suas outras rivais
Quem não luta não vence, que a luta
Pelo bem é que faz triunfar!
Reparai: O clarim já se escuta!
É a fama que vem nos saudar!
Aos pequenos e aos bons, entre flores
Agasalha e se esquece dos maus
Ninguém sofre tormentos e dores
Nesta terra dos nobres Manaós
Todo o povo é feliz, diz a História
Quando se vê entre gozos sem fim
O progresso passara junto à glória
Em seu belo e dourado coxim!
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Quadrão à Beira Mar* de
DALINHA CATUNDA
(Maria de Lourdes Aragão Catunda)
Ipueiras/CE
O sol empalidecendo
Ondas subindo e descendo
Nossa paixão acendendo
E o barco a sacolejar.
No balanço do veleiro
Um amor aventureiro
Vivi com meu timoneiro
No quadrão à beira-mar.
“Beira mar, beira mar,
O quadrão só é bonito
Quando é feito a beira mar”
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* De todos os gêneros de poesia popular e cantoria, o Quadrão, que tem a terminação das suas estâncias sempre com o estribilho da sua denominação, tem sido aquele estilo que talvez tenha mais sofrido alterações e adaptações na sua estrutura geral ao longo do tempo. Originariamente, os Quadrões eram compostos em estrofes de oito versos setessílabos, onde rimavam o primeiro com o segundo e o terceiro versos; o quarto com o oitavo; e o quinto verso com o sexto e o sétimo.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França
O leão doente
Um leão vendo-se enfermo,
Passa aviso a seus vassalos
De que à vida vai pôr termo,
E que intenta aconselhá-los
Sobre a regência futura,
Dar-lhes beija-mão, e honrá-los.
Dos leões à fé lhes jura
Que trata bem qualquer fera
Que o visita e que o procura:
Porém na furna as espera,
E quando alguma entrar ousa,
Logo a mata e dilacera.
Eis uma esperta raposa
Para, e diz, sem que entre lá:
«Xau! Que eu observo uma coisa!
Pegadas mil aqui há;
Mas para lá todas vão,
E nenhuma para cá;
Saúde, senhor Leão!
Quero-me à glória eximir
De beijar-lhe a régia mão;
Porque jurei jamais ir
A qualquer casa ou lugar,
Vendo só por onde entrar,
E não por onde sair».
Foi reflexão mui sabida
Esta que fez a raposa;
Que é loucura desmedida
Entrarmos em qualquer coisa
Sem ver se temos saída.
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Trovador Homenageado
Rei da Trova
ADELMAR TAVARES
(Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti)
Recife/PE, 1888 – 1963, Rio de Janeiro/RJ
1
A imagem de nossas almas
está nas águas profundas,
quanto mais tristes, mais calmas;
quanto mais calmas, mais fundas.
2
É nossa alma uma criança,
que nunca sabe o que faz.
Quer tudo que não alcança,
quando alcança, não quer mais.
3
Eu vi o rio chorando,
quando te foste banhar,
por não poder, te banhando,
dar-te um abraço, e parar...
4
O laço de fita preta
dos teus cabelos, faceira,
parece uma borboleta
pousada numa roseira…
5
Onde anda o corpo, é verdade,
vai a sombra pelo chão...
É assim também a saudade,
a sombra do coração.
6
Os búzios guardam das águas
do mar, os fundos gemidos.
- Assim fossem minhas mágoas,
guardadas nos teus ouvidos...
7
Quando a trova nos transmite
seu feitiço singular,
a gente lê, e repete,
e depois, fica a pensar...
8
Quando eu morrer, levo à cova
dentro do meu coração,
o suspiro de uma trova,
e o gemer de um violão.
9
Que tens tu, que és tão sombrio,
e hoje a rir, alegre, assim?...
- Mal sabem que só me rio,
porque riste para mim.
10
Saudade - doce transporte
da alma adejante e ferida...
- É viver dentro da morte!
- É morrer dentro da vida!
11
Todo rio na corrente,
busca um lago, um rio, um mar...
Mas o destino da gente,
quem sabe onde vai parar?
12
Vou vivendo a minha vida,
como Deus quer e consente.
- Sou como a folha caída
levada pela corrente…
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