sábado, 31 de outubro de 2026

José Feldman (Encontro desencontrado)

O relógio do Boteco do Seu Zé marcava quase oito da noite quando Leco entrou, limpando o suor da testa. Fazia exatamente vinte anos que ele não via o Lucas, seu melhor amigo de infância. Eles tinham combinado o reencontro por mensagem, mas a memória visual de Leco já tinha evaporado. Olhando o salão cheio, ele resolveu apelar para o método mais antigo do mundo: encheu os pulmões e gritou no meio do bar:

— LUCAS!

Um rapaz um pouco mais novo, de camisa polo e óculos fundo de garrafa, levantou a mão no fundo do salão. 

Leco sorriu aliviado, atravessou o boteco e já chegou metendo um tapinha nas costas do sujeito.

— Rapaz! Você tá diferente, mas que bom te ver! Garçom, traz uma gelada!

O tal Lucas deu um sorriso meio amarelo, mas aceitou o abraço e se sentou. Entre o primeiro e o segundo copo de cerveja, o papo começou. Leco, empolgado, deu o pontapé inicial:

— E aí, cara, continua na correria? Eu não mudei nada. Minha vida é balada de quinta a domingo, agito, copo cheio e camarote. E você?

Lucas limpou os óculos com a barra da camisa e fez uma careta.

— Deus me livre! Eu odeio barulho. Meu negócio é ficar em casa, de pijama, assistindo ao canal de desenhos na TV e dormindo às nove da noite.

Leco piscou, surpreso.

— Caramba... O tempo te mudou, hein? Mas e o resto? Lembra que a gente tinha uma fixação, e pintamos o quarto da pensão todo de verde? Eu ainda sou fissurado em verde. Tudo é verde!

— Que horror — rebateu o rapaz. — Verde me dá tontura. Eu só consigo viver cercado de azul. Minha casa parece um oceano.

O garçom trouxe uma porção de torresmo. Leco, tentando salvar a sintonia do passado, mudou de assunto:

— Bom, mas o nosso peixão não muda, né? O Santos tá me dando um orgulho...

— Santos? Tá maluco? Eu sou palmeirense roxo! Dá-lhe Porco! — cortou Lucas, batendo na mesa.

Leco começou a suar frio. Duas décadas longe transformavam tanto assim uma pessoa? Ele tentou uma cartada final, lembrando dos acampamentos da adolescência:

— Mas diz aí, ainda faz aqueles passeios na mata? Trilhas, cachoeiras, respirar o ar puro da natureza?

— Eu? — o rapaz deu uma risada sincera. — Rapaz, eu tenho alergia a mosquito. Se eu ver uma árvore, eu tenho espirros. Eu sou bicho de apartamento. Só consigo viver na selva de cimento da cidade grande. Quanto mais asfalto, melhor.

A conversa se arrastou por mais meia hora, e cada novo assunto era um desastre. Um gostava de calor, o outro de frio. Um era fã de rock, o outro ouvia ópera. Leco já estava com dor de cabeça. O amigo de infância com quem ele dividia tudo tinha virado o seu oposto.

Sentindo o clima pesado, Lucas olhou o relógio:

— Bom, o papo tá ótimo, mas meu jornal vai começar. Preciso ir. Valeu pelo chopp!

Eles se despediram com um aperto de mão protocolar. Leco continuou sentado, olhando para o copo vazio, completamente confuso e deprimido. "O mundo capotou", pensava ele.

De repente, um sujeito esbaforido, vestindo uma camisa preta e branca, entrou correndo no boteco, olhou para os lados, viu Leco e deu um grito que quase quebrou os copos do balcão:

— LECO! MEU IRMÃO!

O homem voou em cima de Leco, dando um abraço de urso que quase o tirou do chão. 

Leco, sufocado e sem entender nada, empurrou o sujeito:

— Calma, cara! Quem é você? O que tá acontecendo?

— Como 'quem sou eu', ô mané? Eu sou o Lucas! Desculpa o atraso catastrófico, teve um acidente de trânsito bizarro na avenida principal, parou tudo, tive que vir correndo a pé!

Leco sentiu o coração errar as batidas. Olhou para a porta por onde o outro rapaz tinha saído, olhou para o rapaz à sua frente e levou a mão ao peito, sentindo o prenúncio de um infarto. Ele tinha passado quase uma hora abrindo o coração, discutindo futebol e lavando a alma com um completo desconhecido que, por pura obra do destino, também se chamava Lucas e tinha atendido ao seu grito.

Olhando para o verdadeiro amigo, Leco só conseguiu dizer:

— Garçom... traz uma cachaça tripla, da mais forte. O meu amigo Lucas chegou, mas eu acho que vou ter um treco! Dei a maior mancada!

Fonte:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.

Arthur Thomaz (O Condomínio dos cães)

Poderia iniciar este conto com a piada “cãodomínio”. Quando comprei a casa, como o próprio nome dizia, “Parque das Flores”, era a promessa de um local arborizado e florido.

Mas, ao que parece, 90% dos moradores, em um maquiavélico acordo, resolveram comprar ou criar no mínimo 1 ou 2 cães por residência. Multipliquem por 78.

No apartamento de cima, ao chegarem, os proprietários avisaram que o seu “dócil” cãozinho nunca sairia de casa, pois era bravo e eles o prendiam desde o nascimento.

O pobre cachorro passa o tempo latindo e rosnando para qualquer pessoa que passe perto do seu apartamento. Creio que todos nós ficaríamos bravos se estivéssemos eternamente presos e isolados do mundo.

Na casa vizinha do fundo, há um cachorro que começa a uivar e chorar quando o jovem casal sai para trabalhar, e assim permanece uivando até eles voltarem do trabalho.

Ah! Dirão vocês, ele para.

Não, direi eu. Eles chegam, arrumam-se e saem para jantar. E os uivos continuam até voltarem.

Ah! Dirão vocês, mas é somente durante a semana. Não! Direi eu, o jovem casal, às sextas e sábados, sai para a balada, voltando somente de manhã. E os uivos e latidos desesperados atravessam as madrugadas.

A nossa síndica, para aliviar o trabalho do zelador em recolher folhas caídas, adquiriu um aparelho apelidado de “soprador”, extremamente barulhento, que, ao passar em frente às residências, causa irritação e furiosos latidos dos cães. Multipliquem por 78…

Agora, afastando-nos dos problemas sonoros, vamos aos aromáticos. Os moradores, ao chegarem do trabalho, zelosamente levam os animais para andar e despejar o conteúdo intestinal e urinário acumulados desde a tarde da véspera e, como alguns chegam estafados das labutas diárias, “esquecem” de levar os aparatos para recolhimento da enorme quantidade de fezes acumuladas nos pobres animais, as quais ficam espalhadas pelo condomínio até que uma benfazeja chuva os leve aos ralos e esgotos.

Ah! E temos também os vizinhos que, chegando muito cansados, “distraem-se”, esquecendo a porta ou o portão abertos, e não veem seus aflitos cachorrinhos saírem e virem depositar suas cheirosas fezes no gramado em frente às nossas casas.

Podemos findar este texto afirmando:

O cão é o melhor amigo do homem, mas os vizinhos de condomínio não são…

Fonte:
Arthur Thomaz. Leves Reflexões e Contos ao Léu. Santos/SP: Bueno Editora, 2026. Livro enviado pelo autor. 

Cantinho do Frata (Efeito gemelar - Vida e morte)

A vida, essência orgânica e aglutinante que nos dá o mundo com direito de escolha entre bem e mal, é batalhadora incansável e sensível, enquanto a morte, sua irmã, é dissimulada, mas inteligente.

Espreita-se a perscrutar sensibilidades, a vigiar carências, a espiar expressões à espera de um titubeio, a descobrir erros para, em ato de vilania, dar o bote derradeiro.

Uma ensina amor na esperança de felicidade com vistas ao fazer, ao construir, ao crescer, o elevar com segurança em todos os sentidos; e a outra se esconde em sombras, se arrasta nelas, abriga-se em moitas, em ocos e buracos para impor peso a nossos passos; e desencanto, insegurança e tristeza nos corações. Tinge de negro os pensamentos.

Por mais que faça a primeira de bem e de bom, de glória, de riso, complacência, vitória, doação ao fim a que se propôs, não consegue diminuir a tenacidade da outra com sua disposição e paciência de esperar, sem se importar ou se comprometer com o tempo que levará para desfazer o que a outra construiu.

Nesse embate, enquanto o tempo físico, compassado e objetivo, aliado ao metafísico de percurso indefinido, limita as ações da primeira, o tempo da oportunidade afaga e abriga a segunda para lhe dar poder nas causas e consequências daqueles atos que a primeira impulsionou.

Entretanto, nessa aparente dualidade entre ambas, não há duelo algum como se imagina, mas, antes, simbiose, porque são elas irmãs gêmeas bivitelinas.

Vida e Morte são irmãs associadas, comparsas, parceiras que seguem pelas linhas do destino, só que em paralelas como num comboio gigante e se vão lado a lado, para se encontrarem uma única vez na encruzilhada que o tempo, que para uns poderá ser efêmero e para outros, longevo, e, de acordo com o relógio de medir que usamos, se lhes oportuniza.

Nesse encontro, quietas, confiantes e confidentes, materializam a parceria com a primeira, alimentando a segunda e traduzindo, nessa festa familiar, um piquenique a duas! Uníssonas quando querem dizer sim!

Fonte:
Renato Benvindo Frata. Fragmentos. SP: Scortecci, 2022. Enviado pelo autor 

Estante de Livros (“O Banqueiro Anarquista”, de Fernando Pessoa)


O Banqueiro Anarquista, publicado originalmente em 1922 na revista Contemporânea, é uma das obras em prosa mais instigantes e provocativas de Fernando Pessoa. Trata-se de um conto filosófico e satírico escrito em forma de diálogo platônico, onde o autor utiliza uma lógica implacável e paradoxal para desconstruir os conceitos tradicionais de liberdade, anarquismo e sociedade.

1. O ENREDO E A ESTRUTURA NARRATIVA

A narrativa se passa durante um jantar entre duas personagens: um narrador anônimo (que representa o senso comum e a visão tradicional da sociedade) e o seu amigo, um banqueiro e grande comerciante multimilionário.
O conflito central e o motor da história surgem logo na abertura, quando o narrador se espanta ao ouvir do milionário que este, na verdade, é um anarquista — e não apenas na teoria, mas na prática. O restante do livro consiste na explicação lógica e detalhada de como o banqueiro concilia a sua imensa riqueza com a ideologia anarquista.

2. A LÓGICA DO BANQUEIRO: O CAMINHO PARA A RIQUEZA

O banqueiro explica que, na juventude, era um operário pobre e revoltado com as injustiças sociais. Ao estudar o anarquismo, ele concluiu que o verdadeiro mal da humanidade são as ficções sociais (o dinheiro, o Estado, a religião, as leis).

Para ele, existem dois caminhos para destruir essas ficções e libertar o homem:

A. A revolução social (coletiva): 
O banqueiro descarta essa opção. Ele argumenta que as revoluções coletivas falham porque os próprios revolucionários, ao tentarem criar uma nova ordem, acabam gerando uma nova tirania (a "tirania do secretariado" ou dos líderes do movimento). O ideal libertário se corrompe no coletivo.

B. A libertação individual: 
Se o coletivo corrompe, a única anarquia verdadeira é a que o indivíduo conquista para si mesmo.
Como o dinheiro é a ficção social mais poderosa da nossa era, o banqueiro conclui que a única forma de não ser dominado por ele é dominando-o. Ao acumular riqueza e se tornar um banqueiro, ele se liberta do jugo do dinheiro e da submissão ao Estado.

3. PRINCIPAIS TEMAS E PARADOXOS

Ficções Sociais vs. Natureza Humana
Pessoa introduz o conceito de que a sociedade moderna é governada por construções artificiais (ficções). O dinheiro não tem valor real na natureza; o Estado e as leis também não. O banqueiro argumenta que o anarquismo prega o retorno à "natureza pura". Como o dinheiro escraviza o homem natural, enriquecer é a sua forma de se desvencilhar dessa corrente.

O Paradoxo da Liberdade Individual
Este é o ponto mais brilhante e perturbador do livro. Para se libertar totalmente, o banqueiro aceita que não pode libertar os outros (pois isso geraria tirania). Ele também aceita que, para enriquecer, precisa explorar e tiranizar os outros através do sistema financeiro.
O banqueiro defende-se dizendo que essa tirania não é dele, mas sim do sistema (das ficções sociais) que já existia antes dele. Ele não criou as regras; ele apenas as usou para comprar a sua própria liberdade.

A Ironia e a Sátira Política
Fernando Pessoa usa a lógica matemática e dedutiva para levar um argumento ao seu extremo absurdo. O livro é uma sátira profunda à hipocrisia burguesa e, ao mesmo tempo, uma crítica feroz aos movimentos de esquerda e revolucionários da época (que Pessoa via como utópicos e inevitavelmente autoritários).

4. ESTILO E LINGUAGEM

A obra é conduzida como um diálogo argumentativo. A linguagem do banqueiro é fria, cerebral, matemática e altamente persuasiva. Ele antecipa as objeções do narrador (e do leitor) e as destrói uma a uma com silogismos perfeitos. É o uso da "razão pura" para justificar o que, moralmente, pareceria injustificável.

5. SINOPSE

Um banqueiro e grande comerciante multimilionário revela a um amigo, durante um jantar, que é e sempre foi um anarquista prático e convicto. Diante do choque do narrador, que considera a profissão de banqueiro a antítese do ideal libertário, o milionário reconstrói logicamente a sua trajetória de vida para provar que a riqueza foi o único meio que encontrou para atingir a verdadeira liberdade individual.
A narrativa retrocede à juventude do protagonista, quando ele era um operário pobre e revoltado. Ao estudar a teoria anarquista, ele conclui que a humanidade é escravizada pelas ficções sociais — construções artificiais como a religião, o Estado, as leis e, acima de tudo, o dinheiro. Para ele, o anarquismo tradicional falha ao tentar realizar revoluções coletivas, pois qualquer ação em grupo inevitavelmente cria uma nova hierarquia e uma nova tirania entre os próprios revolucionários.
Percebendo que a libertação coletiva é uma utopia corrompível, o banqueiro decide que a única alternativa justa é a libertação individual. Ele escolhe combater o dinheiro — a mais poderosa das ficções sociais da era moderna — não através da destruição do sistema, mas do domínio dele. Ao acumular uma fortuna monumental, ele se liberta da necessidade de vender o seu trabalho, da submissão ao Estado e do jugo financeiro, tornando-se o único anarquista real da sociedade: aquele que conquistou a independência absoluta, mesmo que, para isso, tenha que usar as próprias engrenagens do capitalismo contra o resto do mundo.

6. CONCLUSÃO

O Banqueiro Anarquista não deve ser lido como um manual político ou uma defesa real do capitalismo selvagem, mas sim como um brilhante exercício intelectual. Fernando Pessoa expõe a fragilidade das ideologias e demonstra como a lógica humana pode ser moldada para justificar qualquer posição — inclusive o egoísmo absoluto disfarçado de idealismo.
A obra permanece extremamente atual, antecipando discussões modernas sobre o ultraliberalismo, o liberalismo e o individualismo extremo da sociedade contemporânea.

Fonte:
Análise detalhada da obra. 30 out. 2026. Comunicação pessoal em formato de texto gerado sob demanda pelo usuário com IA Google.
Imagem criada com IA Microsoft Bing

Aparecido Raimundo de Souza (O gato amedrontado da Tia Clara)

NAQUELA RUA repleta de ambos os lados por árvores frondosas e centenárias, via-se uma infinidade de belas e aconchegantes mansões de tirar o fôlego. Eram residências de três andares as janelas sempre fechadas, cercada por muros baixos, que nem era necessário ultrapassar os portões para ingressar em seus limites. Quase no final dessa rua, havia uma casa diferente, (a única de um só pavimento) e todos os moradores tinham em conta a sua fascinante e meiga proprietária, a bela e simpaticíssima jovem Ana Clara, que todos daquela vila calma e pacífica conheciam como Tia Clara. 

Essa figura bondosa e carismática, de sorriso doce, os cabelos sempre soltos que lhe caíam cobrindo parte das costas, vivia pelas redondezas distribuindo sorrisos, balas e conselhos às crianças da comunidade. Havia, apesar disso, uma coisa que intrigava a todos: aquela moradia espaçosa e acolhedora tinha um amontoado de janelas que davam para um jardim cheio flores bem cultivadas, tendo entre elas uma porção de rosas das mais variadas cores. A boa senhorita, que de segunda a sexta lecionava na escola para as crianças e adolescentes moradores na redondeza, morava sozinha, ou melhor, residia apenas ela e um gato simples. Um gato, diga-se de passagem, estranho e antissocial.

Desde que chegara, fora batizado como Natal, tendo em vista que se fez presente dois ou três anos atrás exatamente nesse dia. Mas ele não parecia nada feliz. Era um gato bonito, de pelagem cinza e olhos grandes e brilhantes. Entretanto, bastava, alguém se aproximar, ouvir um som mais alto, uma porta batendo, um carro passando mais depressa na rua de terra batida, e lá ia ele: se escondia amedrontado debaixo da cama, atrás das cortinas, por vezes dentro de um armário aberto, ou em qualquer canto escuro e apertado onde sentisse que ninguém o encontraria. Apesar da Tia Clara se dar maravilhosamente bem com os arraigados, alguns sem noção cochichavam entre si:

—  Que gato mais esquisito.  O bicho não sai, não brinca, não chega perto de ninguém…

E a Tia Clara, sempre que alguém lhe vinha visitar com o intuito de beber um café e comer um pedaço de bolo de chocolate que ela tão bem fazia, ou apenas trocar algumas palavras, ela, com aquele sorriso calmo, para com todos que questionavam, respondia:

— Deixa ele. O coitadinho é como um bicho do mato. Ele só levou uns sustos grandes antes de chegar aqui. A gente não vê, mas o coração dele ainda tá tremendo igualzinho ao de uma criança que ouve uma história de noite e não consegue conciliar o sono...

Ninguém sabia, mas o gato Natal tinha sido encontrado na chuva, ainda bem pequenininho. Fora abandonado numa caixa de sapatos perto da estação da estrada de ferro que cortava o vilarejo. 

Deve ter ouvido gritos, visto ou se deparado com eventos que nenhum animalzinho deveria ver. E, desde então, o mundo lhe parecia um lugar enorme demais, barulhento em demasia e perigosamente assustador para a sua fragilidade de animal largado aos reveses da vida. A Tia Clara nunca o forçou. Jamais o puxou à força, em tempo algum gritou quando ele se escondia, tampouco disse aos berros “vem cá!”, ou usando a voz em entonação ríspida. A boa senhorita deixava um pratinho de comida perto do esconderijo. Falava baixinho, como se estivesse contando segredos no passar do vento ameno. 

Sentava no chão, a uma distância respeitosa e prudente e ficava ali em silêncio, apenas dizendo:

— Tô aqui, Natal. Tô aqui e não vou fazer mal não. Pode ficar onde quiser. O seu cantinho tá sempre seguro. Com o tempo, quem sabe…

E o tempo, de fato, foi passando. Dia após dia. Correndo sem pressa. Um dia, do nada, o cidadão de pelos macios saiu de trás da cortina quando ela lia um romance de Fernando Sabino, o seu autor preferido. No outro, dia, o bichano estendeu uma patinha para tocar o chinelo dela rapidinho e correu de volta. Depois desses eventos, ele passou a aparecer na escola ou mais precisamente na sala onde ela lecionava. Em seguida, se projetou a dormir ao pé da porta do quarto dela, que ficava aberta, e do nada, passou a não se esconder mais. E, numa manhã de sol quente, quando Tia Clara estava regando as rosas, para em seguida seguir para a escola dar as suas aulas, ele deu um salto e pousou levemente no colo dela. 

E ali, por incrível pareça, ficou ronronando baixinho, como se finalmente tivesse entendido: “Nem todo mundo quer me fazer mal. Existe também almas bondosas como a dessa moça, que só quer, de fato, apenas me acolher”.

Hoje, tempos e tempos passados, Natal ainda se assusta com barulhos fortes. Corre para se esconder de vez em quando. Mas agora, ele sabe que existe um lugar seguro para voltar sempre que tiver vontade. E quando está no colo da Tia Clara, com a cabeça apoiada nas suas mãos macias, ele não é mais um bichano amedrontado e arredio. Ele é apenas feliz. E, isso, para os dois, segundo palavras dela, já basta. Com o passar dos anos, Natal foi descobrindo que o mundo não era feito só de barulho e perigo. 

Aprendeu que o som da vassoura varrendo o quintal imenso não constituía uma ameaça, apenas era Tia Clara cuidando do seu espaço. Descobriu também que o vento batendo nas janelas não ia além do vento suave, não um desconhecido querendo entrar. Até o latido dos cachorros da rua, que antes fazia ele correr desembestado para embaixo da cama, passou a ser apenas um ruído distante, como uma conversa que não fora endereçada a ele. 

Houve um dia, porém, que testou toda aquela confiança de uma só vez. Um caminhão de entregas do supermercado parou em frente da casa e o motorista bateu na porta com força, quase gritando para alguém atender. O som foi realmente estrondoso. Natal arrepiou todo o pelo, os olhos ficaram arregalados, e por um instante pareceu que ia voltar a ser aquele bichinho arredio e assustado de antigamente. Deu um passo para trás, depois outro… e parou...

Olhou para a porta, e espiou longamente para Tia Clara, que continuava envolta em Fernando Sabino, sentada, serena, fazendo um sinal com a mão para que ele não estremecesse e fugisse afoito. E em vez de correr, Natal se encolheu um pouquinho, mas ficou. Permaneceu. Quando o sujeito foi embora, ela se ajoelhou perto dele e sussurrou:

— Viu, meu bem? A coisa ruim veio, fez barulho, estardalhaço e depois foi embora. Nada de mal aconteceu com a gente...

Naquela noite, Natal dormiu não mais na pontinha da cama, mas encostadinho no lado dela, ouvindo o coração daquela mulher bonita bater devagarinho, como uma canção maviosa de ninar criança recém nascida. E ele compreendeu também, com aquela sabedoria que só os animais têm, que a segurança não é a ausência de medo. É saber que mesmo quando o coração bate mais forte e acelera além do normal, existe um lugar onde todos somos aceitos com todos os nossos sustos, com todos os nossos receios e com toda a nossa história, seja ela boa ou má.

E foi assim, exatamente assim, que o gato que um dia tremia só de ouvir passos no portão, transformou-se no guardião mais carinhoso daquela casa. Por conseguinte, quem passava na rua e o via deitado na janela, olhando atentamente o movimento com tranquilidade, nem imaginava tudo que seus olhos ávidos já tinham visto. Mas Tia Clara sabia. E ele também tinha essa concepção, não havia esquecido de onde viera, mas agora havia aprendido para onde precisava seguir e se alojar, sempre que o mundo parecesse grande demais.

MORAL:
A lição que fica dessa pequena crônica é a seguinte: A cura do medo não é deixar de lado os resquícios de ser levado pelos infortúnios do pavor. É ter a consciência de onde se abancar e descansar quando algo ruim chegar vindo de algum lugar inóspito. 

O melhor, nessas horas, é se abrigar num colo amigo e nele ficar de forma definitiva junto a esse alguém que só tem a intenção maviosa de proteger e guardar. sobretudo, amar.

Há muitos de nós que somos um pouquinho esse gato.  Levamos sustos pela vida, recolhemos nossos dissabores, e, por vezes, achamos erroneamente que o mundo inteiro é perigoso e hostil. Mas sempre existe perto de nós, a bondade encantadora de uma Tia Clara, acredite, você que me lê agora, caro leitor e amigo.  Sempre existirá onde menos se espera, uma criatura paciente, dona de um coração bondoso e de um amor que não nos pretende fazer mal algum. Esta alma caridosa, bondosa, repleta de gestos simples, sinalizará com toda paciência deste mundo e dirá: “Vem devagarinho. Se aconchegue. Estava aqui te esperando”.
************************************
        Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Autor do livro físico “Havia uma ponte lá na fronteira”, e vários ebooks. Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Texto enviado pelo autor. 
Revisão por JFeldman

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Crestomatia de Trovas n. 8 - Novembro de 2026 (Revista gratuita para download)

  Bom dia, 


Baixe em pdf ou leia em

Destaques:

Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção de trovas de mestres de diversas épocas, celebrando a riqueza lírica dos rincões do Brasil e Portugal.
 
Uma seção dedicada exclusivamente ao tema Janela.
 
Trovadores de Hoje: O destaque central desta edição traz trovas do jornalista aposentado de Angra dos Reis/RJ, Jessé Fernandes do Nascimento.

Um capítulo com dicas para fazer a trova.
 
Trovadores de Ontem: Uma homenagem ao talento do trovador Bastos Tigre.

Seção Trovadores em Preto & Branco, com análises de 10 trovas do saudoso Helvécio Barros.

Trovas premiadas no Concurso de Trovas de Bandeirantes 2026.
 
PARTICIPE da revista. DIVULGUE para outros trovadores.
O próximo tema é “JARDIM”. Coloque sua criatividade em ação.
Envie suas trovas para o email.  gralha1954@gmail.com 
 
Boa leitura,
abraços Trovadorescos
José Feldman

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Gislaine Canales (Tertúlia da Saudade)

 

 1
A minha vida é uma Trova,
trova de ilusão perdida,
pois a vida é grande prova,
que prova a Trova da vida!
2
A minha vida é um romance,
pois sonhando sou feliz...
Eu deixo que o vento trance
os sonhos que eu sempre quis!
3
A mistura de mil cores
e toda a luz do universo,
mais o perfume das flores,
desejo pôr no meu verso!
4
Amor à primeira vista,
foi isso, mar, que eu senti!
Ninguém há que te resista,
quando está diante de ti!
5
A noite recebe a tarde
num momento de magia...
No pôr-do-sol, o céu arde
e tudo vira poesia!
6
A paz mundial é utopia
dizem uns...Não é verdade,
se buscarmos na Poesia
as armas da Humanidade!
7
Aquela ponte que unia
nossas vilas ribeirinhas
une ainda, por magia,
suas saudades e as minhas.
8
A saudade da saudade,
varreu, de mim, a alegria,
levando a felicidade
que eu pensava que existia!
9
As eternas madrugadas
me encontram sempre a chorar.
A vida, cheia de nadas,
não me deixa mais sonhar!
10
A vida é renovação,
(é amor, é sonho e alegria),
é feita só de emoção,
recomeça a cada dia!
11
Cada livro é uma vitória
na memória de um País,
pois nos diz de sua glória
e é, da história, a geratriz!
12
Caminhei pelo infinito,
vaguei por milhões de espaços...
Até lá estava escrito
o meu regresso aos teus braços!
13
Canto as estrelas nos versos,
com minha alma apaixonada...
Vou acendendo Universos...
"Criando luzes...do nada!" 
14
É contrastante a ironia,
nesta verdade contida:
lindo o entardecer do dia,
triste o entardecer da vida!
15
É de ternura o momento
em que o Sol sorri do espaço,
se faz vida e sentimento
e lança ao mar seu abraço!
16
É mais que um deslumbramento
ver o sol nascer no mar,
é mágico esse momento
que vem as águas dourar!
17
Em meu coração alterno
as estações...todo o dia,
tornando, assim, meu inverno,
lindo verão de poesia!
18
"Enganam-se os ditadores"
que pensam poder tirar
do mundo, nós, trovadores
e o nosso jeito de amar!
19
Era da tecnologia
não deve afastar pessoas,
mas uni-las na alegria,
na curtição de horas boas!
20
Era noite e a escuridão
pensou que raiava o dia,
ao sentir com emoção
a luz da tua poesia!
21
Essas algemas partidas
representam liberdade,
salvação de muitas vidas,
e um mar de felicidade!
22
Eu gosto de navegar
nesse mar de azul infindo
formado por teu olhar.
Não existe mar mais lindo!
23
Eu prossigo o meu caminho,
procurando um grande amor,
que me envolva com carinho
e me aqueça com calor!
24
Eu quero poder cantar
meus versos aos quatro cantos,
talvez possa transformar
em risos, todos os prantos.
25
Eu tenho um sonho bonito:
Caminhar por sobre as águas
e ao chegar ao infinito,
esquecer todas as mágoas!
26
Fotos mostrando uma vida,
namoro, noivado e então,
a essência nela cumprida:
os filhos do coração!
27
Letras que formam poesia,
nos abraçam com carinho,
deixam rastros de alegria
em todo o nosso caminho!
28
Lutemos pela conquista
da paz mundial no universo,
numa guerra pacifista,
usando as armas do verso!
29
Menino e o sonho da bola,
pés descalços,  no campinho,
e esse chute desenrola
a visão do seu caminho!
30
Me envolve com mil abraços,
com mil beijos de afeição,
esse mar, de doces braços
com seus lábios de paixão!
31
Meu interior é risonho,
e posso a todos dizer
"que trago um mundo de sonho"
no meu modo de viver!
32
Meus lábios apaixonados
bebem o orvalho dos teus,
desses teus lábios molhados,
que sonham com os lábios meus!
33
Meu verso é meu companheiro
no cenário da ilusão
e o universo, imenso, inteiro,
se torna pequeno, então!
34
Não lembro de ti, passado,
pois, consegui te esquecer;
agora, só tenho ao lado
os sonhos que vou viver!
35
Não posso viver em vão,
eu preciso um filho ter,
plantar em fecundo chão
e um livro bom, escrever!
36
Na Primavera, chegando,
cheia de cor e beleza,
os jovens seguem cantando,
num aplauso à Natureza!
37
Navegando em meu veleiro,
num  mar , assim, tão bonito,
procuro meu companheiro,
nesse meu sonho infinito!
38
Nesta vida tão inquieta,
o meu consolo é pescar.
Sou pescadora-poeta,
que pesca versos no mar!
39
Numa troca de carinhos,
dois sorrisos se irmanaram,
e os dois, antes, tão sozinhos,
juntos, pra sempre, ficaram !
40
Nunca mais fiquei sozinha,
pois na Internet eu namoro
e essa solidão, que eu tinha,
não mora mais onde eu moro!
41
O amor é pura magia
e a ternura da emoção
traduz-se nessa alegria
plantada no coração!
42
O espelho mau me mostrou
algo que eu nem suspeitava…
Agora, eu sou como estou,
e nunca como eu sonhava!
43
Olhando o mar, eu diviso,
a areia branca a esperar
um beijo feito sorriso,
que as mansas ondas vêm dar!
44
Olhava o mar com temor,
numa espera preocupada:
nem peixes…nem pescador!
Tão só o vazio do nada!
45
O magro e a magra dançando…
Osso com osso batia…
E quem estava escutando
pensava ser bateria…
46
O magro era tão magrinho,
magrinho de fazer dó…
seu pijama listradinho
era de uma listra só!
47
O mais bonito sorriso,
que eu ganhei, cheio de afeto,
revelar nem é preciso !
Foi do meu primeiro neto!
48
O mar é o mais doce amante
pois não cansa de beijar,
num lirismo alucinante,
toda praia que encontrar!
49
O meu viver enfadonho,
só de amarguras composto,
põe as rugas do meu sonho
sobre as rugas do meu rosto!
50
O prazo que nós tivemos
para o nosso amor viver,
foi pouco. Nos esquecemos
antes do prazo vencer!
51
O sol dourado se espraia
tão lindo.com seu calor,
por toda a areia da praia
em doces beijos de amor!
52
O trem passando entre flores,
vai a infância recordando,
pai e mãe:  os meus amores...
e nós todos, viajando...
53
O Trovador, com seu sonho,
e sua grande emoção,
desenhou um Sol risonho
na preta poluição!!!
54
O trovador que em verdade,
faz da trova uma oração,
coloca com amizade
“A trova no Coração”!
55
Para mim, não há segredos,
meu mar, de infinito azul,
nós convivemos sem medos,
nas belas praias do Sul!
56
Quando unimos nossos braços,
aos braços de outros irmãos,
sentimos que os nossos laços
enfrentam todos os nãos!
57
Que a paz mundial, que sonhamos,
não seja mera utopia...
Para alcançá-la, vivamos
com muito amor cada dia!
58
Quero cantar pelo espaço
e, nas estrelas, rever
todas as trovas que eu faço.
Trova é prece em meu viver!
59
Sendo a vida embriagante
devemos vivê-la bem.
"Há sempre um mágico instante,"
há sempre um mágico alguém!
60
Sinto a imensa inspiração
desse escultor, se esculpindo,
mostrando, a nós, na emoção
sua  escultura surgindo!
61
Sinto as mãos da solidão
num carinho de verdade,
trazendo ao meu coração,
das tuas mãos, a saudade!
62
"Somos os dois um só mundo",
somos um só, na verdade,
e esse nosso amor profundo,
é mais que amor, é amizade!
63
Sou feliz ao relembrar
que realizei meu desejo...
Como foi bom te beijar!
Como foi bom o teu beijo!
64
Sou pescador de ilusões
e nesse pescar me ponho,
conquistando corações
com os anzóis do meu sonho!
65
Sou tão triste e tão sozinha,
que o eco do meu lamento,
desta saudade tão minha,
escuto na voz do vento!
66
Sozinhas nas madrugadas,
donas do mundo e da lua,
nossas mãos entrelaçadas
seguem juntas pela rua!
67
"Teu beijo pela Internet"
traz amor, traz alegria,
é sempre a melhor manchete
acarinhando o meu dia!
68
"Tua idade não importa,"
se feliz quiseres ser,
pois ao amor, não comporta
ter idade pra nascer!
69
Tudo é tão encantador,
nosso amor é tão bonito,
"que, em cada noite de amor"
ultrapasso o infinito!
70
Um bombeiro consciente,
alto, loiro, bonitão,
apaga o fogo da gente
mesmo sem água na mão!
71
Um gemido de dar medo,
eu ouvi… que coisa estranha!
Cravou o espeto no dedo,
em vez de ser na picanha!
72
Um mundo melhor...queria,
para deixar aos meus netos,
onde imperasse a alegria
numa transfusão de afetos!
73
Um segredo que me assusta:
-Não saber, se após a morte,
há uma vida boa e justa,
que não dependa da sorte!
74
Vamos a vida encantar
com nossa Trova querida,
e na Trova, então cantar,
um hino de amor à vida!
75
Vejo a tua silhueta
na sombra, bem definida,
e abro, em meu peito, a gaveta
de uma saudade escondida!
76
Vivemos juntos, mas sós,
nossa solidão somada
fez de ti, de mim, de nós,
a soma triste do nada!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Gislaine Canales (1938 – 2018)
GISLAINE CANALES foi uma das maiores figuras da vertente literária da trova no Brasil, reconhecida internacionalmente pelo seu empenho em conectar poetas de língua portuguesa e espanhola. Nascida em Herval/RS, em 1938, filha de Sophia Irene e Avelino Canales. Faleceu em Porto Alegre/RS, em 2018, aos 80 anos, vítima de um infarto. Residiu por longos anos e desenvolveu grande parte de seu trabalho cultural em Balneário Camboriú/SC, Formou-se como Bacharel em Pedagogia e Licenciada em Didática. Essa formação como educadora foi fundamental para estruturar sua didática ao coordenar oficinas, concursos literários e organizar movimentos coletivos de poesia. Autodefinia-se como "Poetisa, Trovadora, Glosadora e Pescadora" (com direito a registro oficial de pescadora). Ela dominava a arte das trovas e das glosas. 
Atuou de forma proeminente em diversas frentes acadêmicas e associativas: Foi delegada e presidente da seção de Balneário Camboriú/SC, onde organizou célebres edições dos Jogos Florais; Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (membro titular); Poetas del Mundo: Atuou ativamente como Cônsul. Recebeu inúmeras láureas nacionais e internacionais devido à sua dedicação à difusão da poesia.
A sua grande importância para a literatura reside no papel de internacionalização da trova brasileira. Gislaine usou a internet de forma pioneira para ligar o Brasil a poetas de países vizinhos. Graças ao seu esforço obstinado, os concursos de trovas cruzaram as fronteiras do Brasil, integrando intensamente países de língua espanhola, como a Argentina, Venezuela e Uruguai, criando uma verdadeira rede sul-americana de trovadores. 

Nilto Maciel (Ilusões de Gato e Rato)


No meio da tarde, um gato deu por concluído o banho e a espulgação. Julgava-se limpo e livre de pulgas. E se pôs a espreguiçar, abrir a boca e fechar os olhinhos verdes. Sentia muito sono.

Estirou-se debaixo de uma cadeira e se entregou à leveza do nada. Havia bebido leite, água? Que iguaria almoçara? A gata vizinha gostava de amar no telhado ou no quintal? E os ratos, aqueles larápios noturnos?

Num piscar de olhos, já dormia, já sonhava. Esquisito sonho. Era um ratinho cinzento e esperto. Vasculhava a cozinha à cata de um naco de queijo que lhe quebrasse o longo jejum. Andava por armários, prateleiras, latas, caixas. Súbito descobria o queijo de seus sonhos. Redondo, branco, enorme.

Nem queria acreditar naquilo. Talvez sonhasse. Ou se tratasse de armadilha. Os homens não perdiam o hábito da crueldade e da perfídia. Refinadas feras!

Aproximou-se do queijo, um olho na porta, outro na vida. Cheirou, a boca se encheu de água, encostou o focinho na casca. Deu mais uma volta pelo ambiente, olhos e ouvidos abertos. Não, ninguém para estragar sua festa.

E deu a primeira lambiscada.

Até fechou os olhos para melhor sentir a delícia que invadia sua boca, seu corpo inteiro.

De repente um calafrio percorreu-lhe a espinha. Virou-se, e eis diante de si um enorme e belo gato.

Tudo então se tornou feio para ele. Vida de rato — desgraça pura. Escondido nos buracos, perseguido dia e noite. Um inferno!

Corria, e o felino no seu rasto. Metia-se atrás dos móveis e a pata asquerosa o cutucava.

Amedrontado, vendo a morte a um palmo de seu focinho, o ratinho decidiu arriscar, buscar o derradeiro abrigo – estreita greta na parede. E correu. O felino deu um salto, escorregou, miou.

Coração aos pulos, o pobre rato conseguiu alcançar a fenda salvadora. Não, não seria aquele seu último dia. Muitos queijos roeria ainda. Muitas emoções sentiria ainda.

Nervoso, enfiou a cabeça no buraco, forçou a passagem. Porém o devorador de ratos já abocanhava seu traseiro. Mordia, arrastava-o para o suplício.

Preso aos dentes do monstro, o roedor apenas chiava. Só lhe restava esperar a morte. Nem Deus o salvaria das garras daquele demônio. Nem milagre. Talvez muita sorte. Sim, os gatos costumam praticar um ritual macabro, antes de matar e devorar suas presas. Fingem dar fim à tortura, concedendo-lhes um minuto de liberdade. A vítima tenta escapar, iludida, e recebe mais violenta mordida. É sempre assim. E quem não sabe disso?

Se tivesse sorte, aproveitaria da melhor maneira a oportunidade de fugir. Não buscaria mais a greta estreita. Esconder-se-ia debaixo da geladeira, dentro do fogão, detrás do armário. De tanto esperar, o torturador desistiria da perseguição. Cansado, dormiria, o preguiçoso.

Não havia concluído ainda seu raciocínio, e eis que o gato o libertou dos dentes, largando-o ao chão. Correr logo seria loucura. Melhor aguardar um cochilo da fera. Quando fechasse os olhos, coçasse a barriga, virasse a cabeça para alguma barata idiota.

O felino lambia os beiços, os olhos enormes fitos no rato encolhido, pensativo.

Aquele maldito não cochilava, não fechava os olhos, não coçava a barriga. Nem aparecia uma barata, uma aranha, um inseto qualquer.

E se se transformasse em gato? Por que não? Melhor ainda se aquele patife se transformasse em rato. Então a história seria outra.

Na sua ilusão, o ratinho perdeu o acanhamento, cresceu, levantou-se do chão e pôs-se a miar. Aquele animalzinho metido a valente precisava levar uma boa lição.

E partiu para o gato.

Ocorreu então a cena mais trágica da história: o felino desferiu uma tapa tão espetacular que o mísero rato rodopiou feito um pião e estatelou-se no chão. Não satisfeito, de um salto o malvado caiu sobre a inerme vítima e cravou-lhe os dentes.

— Deixa-te de ilusões, rato.

Debaixo da cadeira, o gato deu um pavoroso miado. E pôs-se a lamber as doídas ancas.

Já era noite.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Nilto Maciel (1945 - 2014)
        O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As insolentes patas do cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet e colaboração do escritor