quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Nilto Maciel (Ilusões de Gato e Rato)


No meio da tarde, um gato deu por concluído o banho e a espulgação. Julgava-se limpo e livre de pulgas. E se pôs a espreguiçar, abrir a boca e fechar os olhinhos verdes. Sentia muito sono.

Estirou-se debaixo de uma cadeira e se entregou à leveza do nada. Havia bebido leite, água? Que iguaria almoçara? A gata vizinha gostava de amar no telhado ou no quintal? E os ratos, aqueles larápios noturnos?

Num piscar de olhos, já dormia, já sonhava. Esquisito sonho. Era um ratinho cinzento e esperto. Vasculhava a cozinha à cata de um naco de queijo que lhe quebrasse o longo jejum. Andava por armários, prateleiras, latas, caixas. Súbito descobria o queijo de seus sonhos. Redondo, branco, enorme.

Nem queria acreditar naquilo. Talvez sonhasse. Ou se tratasse de armadilha. Os homens não perdiam o hábito da crueldade e da perfídia. Refinadas feras!

Aproximou-se do queijo, um olho na porta, outro na vida. Cheirou, a boca se encheu de água, encostou o focinho na casca. Deu mais uma volta pelo ambiente, olhos e ouvidos abertos. Não, ninguém para estragar sua festa.

E deu a primeira lambiscada.

Até fechou os olhos para melhor sentir a delícia que invadia sua boca, seu corpo inteiro.

De repente um calafrio percorreu-lhe a espinha. Virou-se, e eis diante de si um enorme e belo gato.

Tudo então se tornou feio para ele. Vida de rato — desgraça pura. Escondido nos buracos, perseguido dia e noite. Um inferno!

Corria, e o felino no seu rasto. Metia-se atrás dos móveis e a pata asquerosa o cutucava.

Amedrontado, vendo a morte a um palmo de seu focinho, o ratinho decidiu arriscar, buscar o derradeiro abrigo – estreita greta na parede. E correu. O felino deu um salto, escorregou, miou.

Coração aos pulos, o pobre rato conseguiu alcançar a fenda salvadora. Não, não seria aquele seu último dia. Muitos queijos roeria ainda. Muitas emoções sentiria ainda.

Nervoso, enfiou a cabeça no buraco, forçou a passagem. Porém o devorador de ratos já abocanhava seu traseiro. Mordia, arrastava-o para o suplício.

Preso aos dentes do monstro, o roedor apenas chiava. Só lhe restava esperar a morte. Nem Deus o salvaria das garras daquele demônio. Nem milagre. Talvez muita sorte. Sim, os gatos costumam praticar um ritual macabro, antes de matar e devorar suas presas. Fingem dar fim à tortura, concedendo-lhes um minuto de liberdade. A vítima tenta escapar, iludida, e recebe mais violenta mordida. É sempre assim. E quem não sabe disso?

Se tivesse sorte, aproveitaria da melhor maneira a oportunidade de fugir. Não buscaria mais a greta estreita. Esconder-se-ia debaixo da geladeira, dentro do fogão, detrás do armário. De tanto esperar, o torturador desistiria da perseguição. Cansado, dormiria, o preguiçoso.

Não havia concluído ainda seu raciocínio, e eis que o gato o libertou dos dentes, largando-o ao chão. Correr logo seria loucura. Melhor aguardar um cochilo da fera. Quando fechasse os olhos, coçasse a barriga, virasse a cabeça para alguma barata idiota.

O felino lambia os beiços, os olhos enormes fitos no rato encolhido, pensativo.

Aquele maldito não cochilava, não fechava os olhos, não coçava a barriga. Nem aparecia uma barata, uma aranha, um inseto qualquer.

E se se transformasse em gato? Por que não? Melhor ainda se aquele patife se transformasse em rato. Então a história seria outra.

Na sua ilusão, o ratinho perdeu o acanhamento, cresceu, levantou-se do chão e pôs-se a miar. Aquele animalzinho metido a valente precisava levar uma boa lição.

E partiu para o gato.

Ocorreu então a cena mais trágica da história: o felino desferiu uma tapa tão espetacular que o mísero rato rodopiou feito um pião e estatelou-se no chão. Não satisfeito, de um salto o malvado caiu sobre a inerme vítima e cravou-lhe os dentes.

— Deixa-te de ilusões, rato.

Debaixo da cadeira, o gato deu um pavoroso miado. E pôs-se a lamber as doídas ancas.

Já era noite.
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Nilto Maciel (1945 - 2014)
        O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As insolentes patas do cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet e colaboração do escritor

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