ELA NÃO APARECE nos olhos de quem só olha por fora. Não tem sangue escorrendo, não tem curativo, não tem cor que denuncie onde dói. A gente pode passar por uma pessoa na rua, cumprimentá-la, vê-la sorrir, contar uma piada, e até soltar uma gargalhada, porém, jamais imaginar que ali, por dentro daquela criatura, algo dói calado, persistente, dia após dia. É a ‘ferida invisível’. Aquela que não se mostra, mas de igual modo, não se apaga. Pior, se apega.
Dói quando o sol nasce logo cedinho e traz a lembrança de quem partiu. Dói no silêncio da casa, no vazio de um lugar que ficou sem dono. Dói, igualmente, quando a vida parece seguir adiante para todos, menos para nós, que ainda estamos parados no mesmo instante, revivendo o mesmo momento, respirando o mesmo pesar. O pior não é a dor em si: é ter que escondê-la. Coloca-la num cantinho dentro de nós. É sorrir quando o peito pesa como se fosse uma tonelada.
É dizer ‘estou bem’ quando o que mais a gente quer é sentar num canto e chorar, se fazer em lágrimas até a alma descansar. As pessoas que conheço falam: ‘já passou’, ‘tem que seguir em frente’, ‘o tempo cura tudo’. E nessa hora a gente acena, concorda, mas sabe que aqui no fundo da alma, que o danado do tempo não apaga. Ele apenas ensina a carregar a dor, a transporta-la com mais soberba e discrição. A ferida aberta, embora invisível, não cicatriza de vez.
Ela aprende a doer mais baixinho, a se esconder atrás da geladeira, da máquina de lavar roupas, se esconde debaixo do chuveiro e da mesma forma nas tarefas dos dias corridos, como também das noites em claro.
Há quem diga também (é o que mais escuto), que isso que a gente sente é fraqueza. Não é. Na verdade, euzinha acho, aliás, não acho, tenho certeza, é a mais silenciosa e sutil das coragens.
Vou tentar explicar pelo pouco que entendo. No meu modo de pensar, é continuar vivendo quando a alma ainda está machucada. É levantar todos os dias, tomar um banho gelado, depois partir para o dejejum e em seguida vestir a máscara de normalidade e sair para o mundo como se nada tivesse acontecido. A ferida invisível nos ensina (e a mim deixou isso bastante claro), que não é preciso ver para crer. Seria crer para ver? Não importa, o que faz a diferença é que há dores que não têm nome, não têm explicação, não têm cura, pelo menos rápida e mesmo assim, elas estão presentes, vivem, comem juntas na nossa mesa.
Dormem com a gente. Dito de outra maneira: Existem. E quem as carrega, (como eu), merecemos, acima de tudo, respeito. Às vezes, só precisamos de alguém que não pergunte: ‘Como vai, Carina’, mas que simplesmente se ponha ao nosso lado e fique. Se instale. Que não exija que a gente esteja bem, mas que entenda que ainda tudo está girando dentro de um processo. Um dia, talvez, a dor perca a virilidade, a robustez, a força. Talvez reste apenas uma marca suave, uma lembrança indelével do que foi e não retorna.
Mas enquanto isso, que aprendamos a enxergar além do sorriso nos rostos daqueles que estão ao nosso redor, que saibamos que nem tudo o que parece estar bem, de fato está nos trilhos. E que a maior gentileza que podemos oferecer a alguém é perceber, sem que seja preciso dizer, que aqui, ali, acolá ou ainda além, bate um coração que de todas as formas conhecidas está tentando, modificar as aparências e possibilidades possíveis e imagináveis, não com outra finalidade senão a de SARAR.
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Carina Bratt (1989)
CARINA BRATT é uma jornalista e cronista brasileira, conhecida por suas crônicas e contos publicados em blogs e portais literários. Nasceu em Curitiba/PR, em 1989. Estabeleceu vínculo com a cidade de Vila Velha/ES,, onde reside e onde assina suas produções. Atua como secretária executiva e assessora de imprensa de jornalista e escritor brasileiro. Seus textos abordam o cotidiano, as dores e as reflexões da alma feminina sob um olhar íntimo, poético e sensível. Ao documentar suas visões de mundo a partir de Vila Velha, ela também colabora para enriquecer a produção literária produzida fora do eixo das capitais tradicionais do mercado editorial, mantendo viva a tradição da crônica urbana no Brasil.
Fonte:
Texto enviado pela autora,
(Biografia produzida pelo Blog: Garimpos pela internet)

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