A Biblioteca Universal dos Autores Falecidos ficava numa dimensão onde o tempo não passava, mas a burocracia prosperava. Seus corredores eram infinitos, os livros se reorganizavam sozinhos.
Naquela tarde sem tarde, três ilustres escritores haviam sido convocados para uma reunião extraordinária: Luís Fernando Veríssimo, Fernando Sabino e Stanislaw Ponte Preta.
Veríssimo chegou primeiro, carregando um jornal. Sabino apareceu em seguida, procurando café. Stanislaw entrou por último, com um paletó impecável e uma pasta intitulada “A Verdade, Quando Conveniente”.
— Estamos atrasados? — perguntou Sabino.
— Não — respondeu Veríssimo. — Aqui o tempo não passa.
— Então por que marcaram a reunião para as três?
— Para que a gente tenha a impressão de que está atrasado.
Stanislaw sentou-se.
— A burocracia é a única instituição capaz de sobreviver à própria morte.
Sobre a mesa havia uma pauta de quarenta páginas: “A situação da humanidade, a decadência do humor e o futuro da literatura.”
Veríssimo folheou o documento.
— Quarenta páginas? Isso é a versão resumida?
Um funcionário de pequenas asas e enormes óculos surgiu à porta.
— Sim, senhor. A versão integral tem doze volumes.
— Alguém leu? — perguntou Sabino.
— A leitura é facultativa.
Stanislaw bateu na mesa.
— Está explicado o estado da humanidade!
O funcionário, responsável pela ata, pigarreou.
— Podemos começar discutindo o cotidiano terrestre. Primeiro tema: trânsito.
— O trânsito é uma forma moderna de meditação — disse Veríssimo. — Você fica parado, olha para a frente e repete: “Eu não devia ter saído de casa.”
— Antigamente, o sujeito ficava preso no engarrafamento e xingava — acrescentou Stanislaw. — Hoje, tira uma fotografia e publica: “Gratidão por mais uma oportunidade de aprendizado.”
Sabino riu.
— E perde a consulta médica porque passou três horas agradecendo no trânsito!
O funcionário anotou tudo.
— Os senhores estão fazendo críticas à sociedade?
— Não — respondeu Veríssimo. — Estamos apenas descrevendo a realidade. Se ela se sentir ofendida, que procure um advogado.
O próximo assunto foi a tecnologia.
— Nunca houve tanta comunicação — observou Sabino — e tanta gente sem vontade de responder. Você manda uma pergunta simples e recebe um áudio de sete minutos contando a história da família inteira.
— Para descobrir se a pessoa comprou pão — completou Veríssimo.
Stanislaw balançou a cabeça.
— O ser humano inventou aparelhos inteligentes para demonstrar que não precisa ser inteligente.
A discussão avançou para os grupos de família, aqueles territórios onde uma tia enviava imagens de flores, um primo compartilhava teorias conspiratórias e um tio encaminhava mensagens ameaçando sete anos de azar a quem não as repassasse.
— É a religião digital — disse Veríssimo. — Não basta ter fé. É preciso encaminhá-la para quinze contatos.
— E o administrador do grupo? — perguntou Sabino.
— É sempre aquele que compartilha notícias falsas e depois pede respeito à opinião alheia — respondeu Stanislaw.
Os três gargalharam. O funcionário, porém, permaneceu sério.
— Peço moderação. Estamos numa biblioteca.
— E daí? — perguntou Stanislaw.
— O excesso de risadas pode perturbar a seção de poesia.
— A poesia está ali há séculos e nunca reclamou — disse Sabino.
— Reclamou, sim. Mas em versos, e ninguém entendeu.
Depois de uma breve pausa para o café — que estava frio havia cento e vinte anos —, a reunião passou à literatura.
— Ainda leem nossos livros? — perguntou Sabino.
— Alguns — respondeu o funcionário. — Os demais aguardam redescoberta.
— Redescoberta por quem? — perguntou Veríssimo.
— Pelos leitores.
Stanislaw suspirou.
— O escritor passa a vida escrevendo, morre e descobre que ainda precisa esperar numa fila.
— Falando em filas — disse Veríssimo —, proponho uma reflexão: toda fila possui alguém convencido de que escolheu a mais rápida.
— E nunca é essa pessoa — acrescentou Sabino.
— Se muda de fila, a anterior começa a andar — continuou Stanislaw. — A fila é um organismo vivo que se alimenta da ansiedade humana.
O funcionário levantou a mão.
— E qual seria a solução?
— Acabar com as filas — sugeriu Sabino.
— Impossível. Há uma fila para solicitar o fim das filas.
Veríssimo anotou no jornal: “O homem nasce, vive, morre e continua aguardando atendimento.”
A frase agradou aos três, mas a alegria durou pouco. O funcionário anunciou a última pauta: como incentivar as futuras gerações a ler.
— Minha proposta é resumir todos os clássicos em uma página — disse ele.
— E como resumir um romance de quinhentas páginas? — perguntou Veríssimo.
— Usando letras menores.
Sabino levou a mão à testa.
— Isso não é literatura. É tortura ocular!
— Outra proposta — continuou o funcionário — é transformar todos os livros em vídeos de quinze segundos.
Stanislaw levantou-se indignado.
— Como explicar a condição humana em quinze segundos?
— Com legendas.
— A humanidade finalmente encontrou uma maneira de não compreender nada em alta definição! — exclamou Veríssimo.
Nesse momento, entrou um rapaz carregando livros e um celular.
— Com licença. Vocês são aqueles escritores famosos?
— Depende — respondeu Stanislaw. — Você leu nossos livros?
— Não exatamente. Vi um vídeo sobre vocês.
Veríssimo fechou os olhos. Sabino suspirou.
— E o que deseja? — perguntou Stanislaw.
— Estou fazendo uma pesquisa sobre como me tornar escritor sem precisar ler muito.
Os três se entreolharam.
— Meu jovem — disse Stanislaw, colocando a mão em seu ombro —, você veio ao lugar certo. Aqui temos milhões de livros e a maior biblioteca do universo.
O rapaz sorriu.
— Ótimo! Por onde começo?
Stanislaw apontou para a saída.
— Por ali.
— Mas eu quero aprender a escrever!
— Então comece aprendendo a ler.
O rapaz guardou o celular e foi embora, pensativo.
A reunião finalmente terminou, depois que todos assinaram uma ata de vinte e sete páginas. Veríssimo acrescentou: “Esta reunião foi realizada, mas não necessariamente aconteceu.”
Sabino escreveu: “Estive presente, embora não possa garantir que estivesse.”
Stanislaw limitou-se a assinar, mas desenhou um cifrão ao lado do próprio nome.
— Por que fez isso? — perguntou Sabino.
— Nunca se sabe quando alguém vai querer publicar a ata.
Os três seguiram para uma pequena cafeteria da biblioteca. Pediram três cafés e, pela primeira vez naquela dimensão, receberam bebidas quentes.
— Ainda existe esperança — declarou Sabino.
O garçom colocou a conta sobre a mesa.
Stanislaw leu o papel e empalideceu.
— O que foi? — perguntou Veríssimo.
— Taxa de permanência, taxa de eternidade e contribuição obrigatória para o fundo de manutenção do além.
— E o café? — perguntou Sabino.
— Grátis — respondeu o garçom.
Os três sorriram.
— Finalmente uma boa notícia!
O garçom apontou para a última linha.
— As xícaras são cobradas à parte.
Stanislaw guardou a carteira.
— Cavalheiros, proponho que voltemos à Terra.
— Para quê? — perguntou Veríssimo.
— Porque, pelo andar da carruagem, a morte é a única coisa que ainda não inventaram de parcelar!
Os três desapareceram numa gargalhada que atravessou corredores, dimensões e séculos, chegando até uma biblioteca terrestre. Um leitor, sentado diante de um livro, começou a rir sozinho.
O bibliotecário aproximou-se.
— Algum problema, senhor?
O leitor fechou o livro e sorriu.
— Nenhum. Só estou pensando na vida.
— E o que há de engraçado nisso?
O leitor olhou para os lados, como se ouvisse uma risada distante.
— Ainda não descobri. Mas desconfio de que alguém esteja escrevendo a ata.
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José Feldman (1954)
Nascido em São Paulo, capital, JOSÉ FELDMAN é um escritor, poeta, trovador, professor, enxadrista e gestor cultural radicado no Paraná desde 1999. Sua trajetória literária e profissional foi moldada por influências familiares precoces, orientação de nomes como André Carneiro, Izo Goldman, Eunice Arruda e Artur da Távola, além de uma sólida formação multidisciplinar e atuação de destaque no xadrez e na promoção cultural. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital. (Excerto Biográfico por Cailin Dragomir)

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