sexta-feira, 9 de outubro de 2026

José Feldman (Uma reunião extraordinária)

A Biblioteca Universal dos Autores Falecidos ficava numa dimensão onde o tempo não passava, mas a burocracia prosperava. Seus corredores eram infinitos, os livros se reorganizavam sozinhos.

Naquela tarde sem tarde, três ilustres escritores haviam sido convocados para uma reunião extraordinária: Luís Fernando Veríssimo, Fernando Sabino e Stanislaw Ponte Preta.

Veríssimo chegou primeiro, carregando um jornal. Sabino apareceu em seguida, procurando café. Stanislaw entrou por último, com um paletó impecável e uma pasta intitulada “A Verdade, Quando Conveniente”.

— Estamos atrasados? — perguntou Sabino.

— Não — respondeu Veríssimo. — Aqui o tempo não passa.

— Então por que marcaram a reunião para as três?

— Para que a gente tenha a impressão de que está atrasado.

Stanislaw sentou-se.

— A burocracia é a única instituição capaz de sobreviver à própria morte.

Sobre a mesa havia uma pauta de quarenta páginas: “A situação da humanidade, a decadência do humor e o futuro da literatura.”

Veríssimo folheou o documento.

— Quarenta páginas? Isso é a versão resumida?

Um funcionário de pequenas asas e enormes óculos surgiu à porta.

— Sim, senhor. A versão integral tem doze volumes.

— Alguém leu? — perguntou Sabino.

— A leitura é facultativa.

Stanislaw bateu na mesa.

— Está explicado o estado da humanidade!

O funcionário, responsável pela ata, pigarreou.

— Podemos começar discutindo o cotidiano terrestre. Primeiro tema: trânsito.

— O trânsito é uma forma moderna de meditação — disse Veríssimo. — Você fica parado, olha para a frente e repete: “Eu não devia ter saído de casa.”

— Antigamente, o sujeito ficava preso no engarrafamento e xingava — acrescentou Stanislaw. — Hoje, tira uma fotografia e publica: “Gratidão por mais uma oportunidade de aprendizado.”

Sabino riu.

— E perde a consulta médica porque passou três horas agradecendo no trânsito!

O funcionário anotou tudo.

— Os senhores estão fazendo críticas à sociedade?

— Não — respondeu Veríssimo. — Estamos apenas descrevendo a realidade. Se ela se sentir ofendida, que procure um advogado.

O próximo assunto foi a tecnologia.

— Nunca houve tanta comunicação — observou Sabino — e tanta gente sem vontade de responder. Você manda uma pergunta simples e recebe um áudio de sete minutos contando a história da família inteira.

— Para descobrir se a pessoa comprou pão — completou Veríssimo.

Stanislaw balançou a cabeça.

— O ser humano inventou aparelhos inteligentes para demonstrar que não precisa ser inteligente.

A discussão avançou para os grupos de família, aqueles territórios onde uma tia enviava imagens de flores, um primo compartilhava teorias conspiratórias e um tio encaminhava mensagens ameaçando sete anos de azar a quem não as repassasse.

— É a religião digital — disse Veríssimo. — Não basta ter fé. É preciso encaminhá-la para quinze contatos.

— E o administrador do grupo? — perguntou Sabino.

— É sempre aquele que compartilha notícias falsas e depois pede respeito à opinião alheia — respondeu Stanislaw.

Os três gargalharam. O funcionário, porém, permaneceu sério.

— Peço moderação. Estamos numa biblioteca.

— E daí? — perguntou Stanislaw.

— O excesso de risadas pode perturbar a seção de poesia.

— A poesia está ali há séculos e nunca reclamou — disse Sabino.

— Reclamou, sim. Mas em versos, e ninguém entendeu.

Depois de uma breve pausa para o café — que estava frio havia cento e vinte anos —, a reunião passou à literatura.

— Ainda leem nossos livros? — perguntou Sabino.

— Alguns — respondeu o funcionário. — Os demais aguardam redescoberta.

— Redescoberta por quem? — perguntou Veríssimo.

— Pelos leitores.

Stanislaw suspirou.

— O escritor passa a vida escrevendo, morre e descobre que ainda precisa esperar numa fila.

— Falando em filas — disse Veríssimo —, proponho uma reflexão: toda fila possui alguém convencido de que escolheu a mais rápida.

— E nunca é essa pessoa — acrescentou Sabino.

— Se muda de fila, a anterior começa a andar — continuou Stanislaw. — A fila é um organismo vivo que se alimenta da ansiedade humana.

O funcionário levantou a mão.

— E qual seria a solução?

— Acabar com as filas — sugeriu Sabino.

— Impossível. Há uma fila para solicitar o fim das filas.

Veríssimo anotou no jornal: “O homem nasce, vive, morre e continua aguardando atendimento.”

A frase agradou aos três, mas a alegria durou pouco. O funcionário anunciou a última pauta: como incentivar as futuras gerações a ler.

— Minha proposta é resumir todos os clássicos em uma página — disse ele.

— E como resumir um romance de quinhentas páginas? — perguntou Veríssimo.

— Usando letras menores.

Sabino levou a mão à testa.

— Isso não é literatura. É tortura ocular!

— Outra proposta — continuou o funcionário — é transformar todos os livros em vídeos de quinze segundos.

Stanislaw levantou-se indignado.

— Como explicar a condição humana em quinze segundos?

— Com legendas.

— A humanidade finalmente encontrou uma maneira de não compreender nada em alta definição! — exclamou Veríssimo.

Nesse momento, entrou um rapaz carregando livros e um celular.

— Com licença. Vocês são aqueles escritores famosos?

— Depende — respondeu Stanislaw. — Você leu nossos livros?

— Não exatamente. Vi um vídeo sobre vocês.

Veríssimo fechou os olhos. Sabino suspirou.

— E o que deseja? — perguntou Stanislaw.

— Estou fazendo uma pesquisa sobre como me tornar escritor sem precisar ler muito.

Os três se entreolharam.

— Meu jovem — disse Stanislaw, colocando a mão em seu ombro —, você veio ao lugar certo. Aqui temos milhões de livros e a maior biblioteca do universo.

O rapaz sorriu.

— Ótimo! Por onde começo?

Stanislaw apontou para a saída.

— Por ali.

— Mas eu quero aprender a escrever!

— Então comece aprendendo a ler.

O rapaz guardou o celular e foi embora, pensativo.

A reunião finalmente terminou, depois que todos assinaram uma ata de vinte e sete páginas. Veríssimo acrescentou: “Esta reunião foi realizada, mas não necessariamente aconteceu.” 

Sabino escreveu: “Estive presente, embora não possa garantir que estivesse.” 

Stanislaw limitou-se a assinar, mas desenhou um cifrão ao lado do próprio nome.

— Por que fez isso? — perguntou Sabino.

— Nunca se sabe quando alguém vai querer publicar a ata.

Os três seguiram para uma pequena cafeteria da biblioteca. Pediram três cafés e, pela primeira vez naquela dimensão, receberam bebidas quentes.

— Ainda existe esperança — declarou Sabino.

O garçom colocou a conta sobre a mesa.

Stanislaw leu o papel e empalideceu.

— O que foi? — perguntou Veríssimo.

— Taxa de permanência, taxa de eternidade e contribuição obrigatória para o fundo de manutenção do além.

— E o café? — perguntou Sabino.

— Grátis — respondeu o garçom.

Os três sorriram.

— Finalmente uma boa notícia!

O garçom apontou para a última linha.

— As xícaras são cobradas à parte.

Stanislaw guardou a carteira.

— Cavalheiros, proponho que voltemos à Terra.

— Para quê? — perguntou Veríssimo.

— Porque, pelo andar da carruagem, a morte é a única coisa que ainda não inventaram de parcelar!

Os três desapareceram numa gargalhada que atravessou corredores, dimensões e séculos, chegando até uma biblioteca terrestre. Um leitor, sentado diante de um livro, começou a rir sozinho.

O bibliotecário aproximou-se.

— Algum problema, senhor?

O leitor fechou o livro e sorriu.

— Nenhum. Só estou pensando na vida.

— E o que há de engraçado nisso?

O leitor olhou para os lados, como se ouvisse uma risada distante.

— Ainda não descobri. Mas desconfio de que alguém esteja escrevendo a ata.
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José Feldman (1954)
Nascido em São Paulo, capital, JOSÉ FELDMAN é um escritor, poeta, trovador,  professor, enxadrista e gestor cultural radicado no Paraná desde 1999. Sua trajetória literária e profissional foi moldada por influências familiares precoces, orientação de nomes como André Carneiro, Izo Goldman, Eunice Arruda e Artur da Távola, além de uma sólida formação multidisciplinar e atuação de destaque no xadrez e na promoção cultural. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital. (Excerto Biográfico por Cailin Dragomir)

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