Izo Goldman
(Porto Alegre/RS, 1932 - 2013, São Paulo/SP)
Eu, na vida, sou barqueiro
dos meus sonhos sem destino:
- sonho bom é o passageiro,
sonho mau é o clandestino.
Sentar-se à beira do cais da própria existência é dar-se conta de uma verdade náutica: a alma humana é uma embarcação que nunca atraca por completo. Conduzir os dias é aceitar o ofício da navegação interna. Como bem deduziu o poeta na trova, somos todos barqueiros de nós mesmos, empurrando as tábuas da nossa consciência sobre as águas profundas, escuras e incertas do tempo.
O detalhe mais agudo dessa condição não é o peso dos remos, mas a natureza da carga. Navegamos com sonhos sem destino. Há quem passe a vida desenhando mapas perfeitos, portos seguros e rotas milimetricamente calculadas. Tolice. O destino é uma ficção que inventamos para aplacar o medo do horizonte aberto. O verdadeiro mar da vida não aceita coordenadas fixas; ele se move, mexe-se sob o casco e nos obriga a flutuar no imprevisto. Os sonhos não existem para nos levar a um lugar geográfico, mas para manter o barco em movimento. Sem eles, a madeira apodrece no porto da inércia.
Nessa travessia contínua, a tripulação da nossa mente divide-se estritamente em duas categorias.
Primeiro, há o sonho bom: o passageiro legítimo. É aquele que entra pela rampa principal, de cabeça erguida. Traz consigo a luz do sol, o aroma do café fresco, a promessa de um amor correspondido ou a calmaria de uma meta alcançada. O passageiro senta-se no convés, conversa conosco, dá sentido ao suor que gastamos nos remos. É o tipo de sonho que pagou a passagem com a moeda da esperança. Olhamos para ele e o cansaço da viagem diminui. Ele justifica o naufrágio iminente que é o simples fato de estarmos vivos.
Mas nenhum barco cruza o oceano da existência carregando apenas quem foi convidado.
Nas frestas do porão, no escuro, onde os olhos não veem, esconde-se o sonho mau: o clandestino. Ele não pede licença. Não avisa quando entra. Aproveita-se de uma noite de tempestade, de um momento de distração ou de uma fraqueza na blindagem do casco para se alojar nos cantos mais frios da nossa mente. O clandestino é o medo do fracasso, a culpa por um erro antigo, a ansiedade pelo amanhã ou aquela melancolia inexplicável que surge no fim da tarde.
A reação imediata do barqueiro inexperiente é o desespero. Tenta-se caçar o clandestino, jogá-lo ao mar, fingir que ele não ocupa espaço. Mas o sonho mau é pesado; ele desequilibra a embarcação. Quanto mais tentamos ignorar que ele viaja conosco, mais o barco aderna para o lado da sombra.
A sabedoria do barqueiro maduro reside em compreender que o clandestino também faz parte da viagem. Um barco feito apenas de passageiros sorridentes flutua na ilusão; carece de lastro. O sonho mau, por mais incômodo que seja, obriga o navegante a inspecionar o porão, a reforçar as amarras da própria resiliência e a reconhecer as próprias fragilidades. Ele nos lembra de que o mar é profundo e exige respeito.
Enfim, a beleza da navegação humana não está em ter um porão perfeitamente limpo, mas na capacidade de manter o rumo mesmo quando os clandestinos sussurram lá embaixo. O bom marinheiro olha para o horizonte sem destino, aceita a luz do passageiro no convés, tolera o peso do clandestino no porão e continua a remar. Porque pior do que navegar com assombros é deixar que o barco afunde parado.
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José Feldman (1954)
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (27.set.1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.
Possui 10 livros publicados, entre eles: Alquimia do Tempo, Labirinto da Vida, Caleidoscópio da Vida, Ecos do Deserto, Peripécias de um Jornalista de Fofocas, Almanaque Poético Brasileiro (poetas do Brasil), 35 Trovadores em Preto & Branco (análise de trovas de 35 trovadores brasileiros), Canteiro de Trovas, etc. e mais 5 a caminho (Minhas Irmãs de 4 patas; Guirlanda de Versos; Pérgola de textos; Contos para crianças e não tão crianças, Chafariz de Versos). Todos disponibilizados gratuitamente.
É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores:
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos;
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor;
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.
(Biografia por Cailin Dragomir)

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