segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Cantinho do Frata (Arte de bem acordar)

Aprendi com Lispector que há duas maneiras de se acordar: de dentro para fora e de fora para dentro. Mesmo não tendo de imediato concordado com ela, vejo que tem razão.

Geralmente, de segunda à sexta, quando temos mil coisas a fazer pela sobrevivência, acordamos de fora para dentro com os gritos desesperados do despertador. Aos sábados, domingos e feriados com o embusteiro desligado, geralmente acordamos de dentro para fora quando alguém, de manso, lá do nosso interior, parece nos tocar com a voz melodiosa de gata siamesa a nos dizer que já podemos acordar, mas que fiquemos uns instantes a gozar do não ter o que fazer de especial.

É nessas horas que a ouvimos bem.

Compreendemos o quão bom é desfrutar dessa preguiça contagiosa. Essa, a que me refiro, se comunica com gestos e sem que percebamos levanta nossos braços, estica nossas pernas, abre-se em longos e gostosos bocejos em nossas bocas a se comprazer conosco quando, com o corpo esticado juntinho ao amarfanhado dos lençóis, deixa que sem qualquer pressa nos desfaçamos deles. E só depois dessa gloriosa labuta é que pensamos em pisar naqueles chinelos macios a dizer ao mundo que estamos bem e vivos.

Aí, repetimos os esticares de braços e os abrires de boca para olhar o mundo com os olhos mais límpidos que estrelas, mais brilhantes que a mais cintilante das esmeraldas, mais aconchegantes que o agradável travesseiro que nos abrigou á noite. Digamos, olhando o mundo com olhos de domingo, e a esse acordar denominamos vida!

Ao outro, o tocado pelo infernal despertador, chamamos dos nomes que nos chegam á boca todas manhãs, quaisquer nomes que podem conter muitas letras, e aí serão palavrões, ou com poucas, quando serão 'palavrinhões' pela conotação que queiramos dar à obrigação que nos empurra para um café rápido, à juntada de tralhas que nos acompanham no trabalho, à chave do carro, às ordens deixadas a quem quer que seja e um tchau à meia-boca, já que a essa altura os ponteiros do inimigo da humanidade tiquetaqueiam sem parar. Ele não respira!

Olha-nos com olhos de patrão! Cobra-nos pontualidade e cordialidade. Ora, veja! O pior é que obedecemos.

Bem, como vemos, existem dois acordares. Ambos têm o poder de nos colocar de pé, queiramos ou não, gostemos ou não, aceitemos ou não. Resta, nesse contexto, porém que ao deitar, nos planejemos.

Se sabemos que a manhã nos espera com trabalho do dia inteiro e que teremos de cumpri-lo, gostemos ou não, por que não nos prepararmos para ele? Por que não transformarmos essa obrigação em satisfação e tentar substituir o prazer das esticadas e bocejares do domingo também das segundas às sextas, de maneira que facilite as tarefas agendadas?

Talvez devamos agir como ela, a Clarice, que no conto "O relatório da coisa" temia perder o "time" da literatura, tantos eram os relatórios a que se obrigava. A estafante tarefa diária para ela era sinal de que estava "matando" sua inspiração, daí a chateação que a dilacerava.

Mas se enganara. Muito.

Bastou que usasse dos horários disponíveis à sua estupenda verve para escrever o que hoje nos deleita. Sabe por quê? Porque a inspiração não possui relógio e, consequentemente, não tem hora certa para chegar, nem dia da semana ou do mês, nem se o tempo está para chuva ou se o ar está morno qual a água da torneira exposta ao sol.

Recado que talvez sirva para todas as manhãs em nosso acordar com o fim de oferecer a verdadeira arte de é exclusivo a cada um.
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Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Membro da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fonte:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais: contos e crônicas.  Editora EGPACK Embalagens, 2024. Enviado pelo autor.
Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet

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