SÁBADO, eu e minha neta Ellen fomos para o casamento do meu sobrinho Chiquinho e Lisbela. Aparecemos no pedaço arrumadinhos. Dava gosto nos ver. Minha figura de barba feita, terno novo, os sapatos brilhando na graxa. Até um perfume roubado de mamãe passei. Minha neta num longo branco os cabelos soltos ao vento, os sapatinhos impecáveis a fizeram se assemelhar a uma princesa saída dos contos de fadas. Adentramos no imenso salão nos fundos da igreja onde acontecia a festa após a troca de alianças. Uma multidão incalculável se desordenava maciça. Logo na entrada, uma garçonete de tirar o fôlego me brindou com um cálice enorme.
Ingeri o líquido sem pestanejar. Num piscar de olhos, mal havia esvaziado a taça, uma outra deusa encostou ao meu lado. Afoito, passei os cinco dedos em dois cálices de vez. Sem melindres, mandei o conteúdo pra dentro, acossando a sede. Ellen, nesse interregno, se juntou a algumas amiguinhas do prédio onde morávamos. A primeira coisa que me veio à cabeça, assim que ela largou meu braço, sem dúvida alguma, correr (ou pelo menos tentar chegar) perto dos recém casados e cumprimentá-los.
Como num passe de mágica, uma terceira garçonete de sainha muito curta, esbarrou em mim. Troquei os cálices vazios por outros dois abarrotados até a boca. Juro por tudo quanto é sagrado, não atentei para o chão. Por conta disso, não dei na “telha” que ele estava impecavelmente enceradinho, brilhando mais que minha fuça deslavadamente suada em face do sol quente que ardia por todo o firmamento. Fui andando como pude, tirando um e outro da frente, os passos bonitos e elegantes, o queixo erguido… todo posudo, e de repente o meu sapato direito resolveu ir pra frente num ímpeto e o meu corpo em sentido oposto.
Fiz um movimento leve que mais se assemelhava a uma dança desengonçadamente bamba e extravagante. Meus braços erguidos para cima, as pernas mal-ajambradas para um lado, o pé girando feito um pião que se desapartara de uma cordinha invisível, de um moleque inexistente, dava a impressão cênica de ter tomado um pileque daqueles. Não caí deitado. Em compensação, os dois cálices foram beijar o chão e se espatifaram estrondosamente. Fiquei ali tremelicando, oscilando, dançando, ziguezagueando sozinho fremindo o esqueleto no meio dos demais convivas em franca polvorosa.
Uns batendo palmas, outros rindo feitos hienas fora do bando, o salão inteiro, de canto a canto igualmente a mim, bailando sem simetria. Do nada, num estapafúrdio movimento pra além de desengonçado rodopiei a bel prazer de uma situação vexatória que até então nunca havia experimentado. Por azar, assediado num som barulhento, meu corpo magro desacostumado com os líquidos ingeridos em excesso, me flagrei inapto e desajeitado, e o mais inverossímil, sem ninguém se aproximando para me convidar a sentar num canto e sossegar os ossos.
O pior é que quanto mais tentava me equilibrar, um balouçar emborrascado me agitava descontroladamente. Em questão de segundos, parecia um boneco de papel sendo levado por uma rajada. Sem noção, acometido por uma tonteira própria dos alcoolizados grudado numa garrafa de cachaça da braba, completamente mamado, gritei:
— ESTÁ TÃO BOM O SOM QUE O MEU CORPO JÁ COMEÇOU ANTES A VER O PARAÍSO!
O salão inteiro, sem tirar nem por caiu no escárnio de uma risada fácil!
O Chiquinho jogou as flores para mim, Lisbela bateu palmas, Ellen gritou: “Vôôôô... vem sentar”. Dona Candoca mais seu Genaro, (os pais de Lisbela), berravam ao mesmo tempo em que faziam gestos com as mãos, tipo “vem, vem, sai fora, seu imbecil, se acomode...”. Outros partícipes na mesma sintonia meridiana sinalizavam gestos desengonçados, até que a banda tocou uma música de verdade, uma coisa mais digestível para eu poder obviamente terminar a dança sem dar um vexame mais corpulento.
Indiferente aos clamores, segui elétrico como um boneco sem noção. Fui dançando sozinho, saracoteando a carcaça de um lado para outro, até que finalmente me apoiei numa mesa e parei, estanquei a folia todo respingado de vinho ou licor, sei lá, o suor gotejando, pela minha epiderme feito uma múmia paralítica que dava a impressão de ter tomado todas. E cá entre nós, tinha, de fato. Dona Candoca, me vendo bamboleante, abriu espaço e veio me dizer:
— Rapaz, ninguém nunca divertiu uma festa inteira tão rápido assim! O senhor é um artista nato! Parabéns. Vou lhe convidar mais vezes...
Chegando em casa, carregado por dois brutamontes, (coisa de quinze ou vinte minutos depois), tirei os sapatos e me preparei para o banho. Encarei minha neta:
— Ellen, olha, para seu avô e não diga que não fui elegante, falei ou tentei, a voz atordoada. Vamos, responda. Você percebeu que fui literalmente aplaudido de pé!
E ela, se escangalhando numa gostosa gargalhada pra lá de estrepitosa, sentenciou a verdade:
— Eu vi, vô. Em dado momento, todos que estavam sentados entre as mesas, levantaram-se e aproximaram-se de sua pessoa pra rir melhor!
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Aparecido Raimundo de Souza (1953)
O jornalista, advogado e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade). É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele provou que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé). O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. O humor foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico, em um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular.
Fontes:
Texto enviado pelo autor.
(Biografia produzida pelo Blog: Garimpos pela internet)

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