quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Eduardo Martínez (Santana, o moralista)

  Lá estava o Santana, ostentando a arma na cintura, se achando o maior combatente do crime. Isso apesar de não ter certeza nem mesmo se teria ingerido duas, três ou meia dúzia de latinhas de cerveja, já que havia inúmeras outras no chão, tão próximas aos seus pés, que, provavelmente, iriam contribuir ainda mais para aumentar a pança, que tanto dificultava vestir as próprias calças. Ao seu lado, ligeiramente mais sóbrio, se encontrava o Limeira, seu companheiro de tantas primaveras na polícia.
          Não muito longe do palco, os dois canas escutavam aquela música cheia de agudos. Até ensaiavam uns passos, mas nem a música animada conseguia fazer com que aqueles corpos disformes fossem além de alguns estalares de dedos. Todavia, se o Limeira estava mais a fim de curtir a noite, o Santana, sempre atento a tudo, apesar de quase nem sempre conseguir enxergar um palmo à frente da própria fuça, não gostou do beijo mais caloroso do casal logo ali. Foi dar uma de moralista em pleno show de rock.
          — Que droga é essa? 
          Os dois pombinhos nem notaram a interrupção do paquiderme armado. Isso, aliás, provocou uma reação ainda mais severa do Santana, que deu um empurrão no rapaz. Este, por sua vez, olhou espantado para aquele homem barrigudo.
          — Tá olhando o quê, moleque? - Santana, enfurecido, desafiou o jovem, que não devia ter mais do que 20 anos.
          — Você é muito macho porque está armado!
          Pra quê? O Santana, num movimento até rápido para alguém tão gordo e embriagado, pegou a pistola em sua cintura e a jogou no meio da plateia.
          — Agora vem, moleque!
          Coitado do Santana! Tomou um soco no meio do nariz e caiu sentado no asfalto. O rapaz tomou a mão da amada, agora ainda mais apaixonada, e sumiu na multidão. Já o Santana, além de perder a contenda, nunca mais conseguiu encontrar a sua arma. Quanto à autoestima, não tinha o que fazer, pois,  há muito, ela o abandonara.
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Eduardo Martínez (1967)
O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
    Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

Fontes:
Blogo do menino Dudu. 12 de abril de 2022
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

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