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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Estante de Livros (“Alquimia do Tempo”, de José Feldman)

(Prefácio do escritor romeno Cailin Dragomir)

Existe uma sabedoria mansa que não se aprende nos grandes centros acadêmicos, nem se compra nos balcões da pressa moderna. É uma clareza que nasce do chão, do olhar demorado e da capacidade de escutar o silêncio que o mundo faz quando todos decidiram gritar. Esta é a assinatura invisível de José Feldman, um escritor que carrega em suas raízes a identidade profunda do interior do Paraná. É desse solo paranaense, onde o tempo parece guardar uma conexão mais honesta com a terra, que ele extrai a matéria-prima para a sua obra mais íntima e necessária: A Alquimia do Tempo.

O leitor que abre este livro traz, muito provavelmente, o peito acelerado pelo ritmo tonto dos nossos dias. Vivemos na era do excesso. Somos bombardeados por gigabytes de informação, cobrados por metas invisíveis e arrastados por uma rotina automatizada que nos transforma em meros passageiros da nossa própria existência. Sob o pretexto de estarmos "conectados", desconectamo-nos de nós mesmos. É exatamente contra esse esvaziamento contemporâneo que a escrita de Feldman se levanta, não com a agressividade de um manifesto, mas com a delicadeza de um convite.

O conceito que sustenta as páginas a seguir é o da filosofia das pequenas coisas. Feldman opera como um arqueólogo do cotidiano. Ele não busca o sentido da vida nas grandes teses abstratas, mas sim na crueza e na beleza do ordinário. Ele encontra transcendência na cor do cimento impregnado nas mãos do operário, no mistério de uma janela acesa às três da madrugada, no gosto amargo e negligenciado do último gole de café, no silêncio grávido de cumplicidade entre dois amigos antigos e na vertigem de perceber que podemos ver alguém pela última vez sem sabermos. Para o autor, o cotidiano não é uma repetição enfadonha; é um laboratório alquímico. Cada pequeno fato do dia guarda o potencial de se transformar em ouro existencial, desde que haja um olhar atento para decifrá-lo.

Por essa razão, Alquimia do Tempo não é um livro para ser devorado com a mesma pressa com que checamos as redes sociais. Feldman nos oferece estas crônicas como uma espécie de conta-gotas para a alma. Cada texto foi arquitetado para ser saboreado gota a gota, pausa a pausa. Ler este livro de uma só vez seria um sacrilégio semelhante a engolir um bom vinho sem permitir que ele toque as papilas gustativas. O autor pede o seu tempo. Ele exige que você leia uma crônica, feche o livro por alguns minutos, encare o vazio do seu quarto ou a janela da sua sala e permita que a palavra encontre eco nas suas próprias vivências.

Essa leitura em conta-gotas é um exercício urgente de confrontação. Ao desacelerar o leitor, o força a olhar para o espelho do tempo atual e a fazer perguntas que a velocidade do mundo tenta silenciar. O que estamos realizando com os nossos dias? O que temos colocado dentro do nosso prato da existência? As páginas deste livro funcionam como um balanço afetivo da nossa própria história, dividindo nossa atenção em três eixos fundamentais: o que realizamos, o que deixamos de realizar e o que ainda podemos realizar.

Ao ler sobre as mãos calejadas que constroem o mundo, somos levados a pensar sobre o que já edificamos de concreto e com quanta dignidade assinamos os nossos dias. Ao depararmo-nos com a melancolia das últimas vezes ou das janelas insones, somos inevitavelmente confrontados com as nossas omissões — com o abraço que deixamos de dar, com a palavra de afeto que economizamos por orgulho, com os projetos que guardamos na gaveta do "amanhã" e com tudo aquilo que, por covardia ou distração, deixamos de realizar. Essa dor do potencial desperdiçado é o amargo necessário que o conta-gotas do autor nos deposita na língua.

No entanto, o grande triunfo desta obra não está no lamento pelo tempo perdido, mas sim na faísca do que ainda podemos realizar. Feldman usa a crônica para nos lembrar de que, enquanto houver fôlego e a capacidade de nos espantarmos com o mundo, o livro da nossa vida continua com as páginas em branco, prontas para serem reescritas. Não precisamos aceitar o destino de uma vida vazia, sem conteúdo, anestesiada pelo consumo e pela indiferença. Podemos, sim, escolher a presença. Podemos escolher olhar nos olhos do vizinho no elevador, saborear o café até o fim, calar com um amigo sem medo do vácuo e resgatar o heroísmo miúdo de acordar todas as manhãs dispostos a enfrentar os nossos dragões internos.

A Alquimia do Tempo é, em última análise, um antídoto contra a superficialidade. Nas mãos deste escritor paranaense, a literatura cumpre a sua missão mais nobre: a de nos devolver a nós mesmos. Ao terminar este prefácio e avançar para a primeira gota deste livro, dispa-se da pressa que o trouxe até aqui. Deixe que o silêncio confortável das palavras do autor cure o ruído do seu dia. Permita-se sentir o peso, o sabor e a direção do seu próprio tempo. Afinal, a vida é curta demais para ser vivida no automático, e preciosa demais para não ser transformada em arte.

Boa leitura. Desacelere e saboreie.

Texto integrante do Livro Alquimia do Tempo, de José Feldman