(Prefácio do escritor romeno Cailin Dragomir)
Existe uma sabedoria mansa que não se aprende nos grandes centros acadêmicos, nem se compra nos balcões da pressa moderna. É uma clareza que nasce do chão, do olhar demorado e da capacidade de escutar o silêncio que o mundo faz quando todos decidiram gritar. Esta é a assinatura invisível de José Feldman, um escritor que carrega em suas raízes a identidade profunda do interior do Paraná. É desse solo paranaense, onde o tempo parece guardar uma conexão mais honesta com a terra, que ele extrai a matéria-prima para a sua obra mais íntima e necessária: A Alquimia do Tempo.
O leitor que abre este livro traz, muito provavelmente, o peito acelerado pelo ritmo tonto dos nossos dias. Vivemos na era do excesso. Somos bombardeados por gigabytes de informação, cobrados por metas invisíveis e arrastados por uma rotina automatizada que nos transforma em meros passageiros da nossa própria existência. Sob o pretexto de estarmos "conectados", desconectamo-nos de nós mesmos. É exatamente contra esse esvaziamento contemporâneo que a escrita de Feldman se levanta, não com a agressividade de um manifesto, mas com a delicadeza de um convite.
O conceito que sustenta as páginas a seguir é o da filosofia das pequenas coisas. Feldman opera como um arqueólogo do cotidiano. Ele não busca o sentido da vida nas grandes teses abstratas, mas sim na crueza e na beleza do ordinário. Ele encontra transcendência na cor do cimento impregnado nas mãos do operário, no mistério de uma janela acesa às três da madrugada, no gosto amargo e negligenciado do último gole de café, no silêncio grávido de cumplicidade entre dois amigos antigos e na vertigem de perceber que podemos ver alguém pela última vez sem sabermos. Para o autor, o cotidiano não é uma repetição enfadonha; é um laboratório alquímico. Cada pequeno fato do dia guarda o potencial de se transformar em ouro existencial, desde que haja um olhar atento para decifrá-lo.
Por essa razão, Alquimia do Tempo não é um livro para ser devorado com a mesma pressa com que checamos as redes sociais. Feldman nos oferece estas crônicas como uma espécie de conta-gotas para a alma. Cada texto foi arquitetado para ser saboreado gota a gota, pausa a pausa. Ler este livro de uma só vez seria um sacrilégio semelhante a engolir um bom vinho sem permitir que ele toque as papilas gustativas. O autor pede o seu tempo. Ele exige que você leia uma crônica, feche o livro por alguns minutos, encare o vazio do seu quarto ou a janela da sua sala e permita que a palavra encontre eco nas suas próprias vivências.
Essa leitura em conta-gotas é um exercício urgente de confrontação. Ao desacelerar o leitor, o força a olhar para o espelho do tempo atual e a fazer perguntas que a velocidade do mundo tenta silenciar. O que estamos realizando com os nossos dias? O que temos colocado dentro do nosso prato da existência? As páginas deste livro funcionam como um balanço afetivo da nossa própria história, dividindo nossa atenção em três eixos fundamentais: o que realizamos, o que deixamos de realizar e o que ainda podemos realizar.
Ao ler sobre as mãos calejadas que constroem o mundo, somos levados a pensar sobre o que já edificamos de concreto e com quanta dignidade assinamos os nossos dias. Ao depararmo-nos com a melancolia das últimas vezes ou das janelas insones, somos inevitavelmente confrontados com as nossas omissões — com o abraço que deixamos de dar, com a palavra de afeto que economizamos por orgulho, com os projetos que guardamos na gaveta do "amanhã" e com tudo aquilo que, por covardia ou distração, deixamos de realizar. Essa dor do potencial desperdiçado é o amargo necessário que o conta-gotas do autor nos deposita na língua.
No entanto, o grande triunfo desta obra não está no lamento pelo tempo perdido, mas sim na faísca do que ainda podemos realizar. Feldman usa a crônica para nos lembrar de que, enquanto houver fôlego e a capacidade de nos espantarmos com o mundo, o livro da nossa vida continua com as páginas em branco, prontas para serem reescritas. Não precisamos aceitar o destino de uma vida vazia, sem conteúdo, anestesiada pelo consumo e pela indiferença. Podemos, sim, escolher a presença. Podemos escolher olhar nos olhos do vizinho no elevador, saborear o café até o fim, calar com um amigo sem medo do vácuo e resgatar o heroísmo miúdo de acordar todas as manhãs dispostos a enfrentar os nossos dragões internos.
A Alquimia do Tempo é, em última análise, um antídoto contra a superficialidade. Nas mãos deste escritor paranaense, a literatura cumpre a sua missão mais nobre: a de nos devolver a nós mesmos. Ao terminar este prefácio e avançar para a primeira gota deste livro, dispa-se da pressa que o trouxe até aqui. Deixe que o silêncio confortável das palavras do autor cure o ruído do seu dia. Permita-se sentir o peso, o sabor e a direção do seu próprio tempo. Afinal, a vida é curta demais para ser vivida no automático, e preciosa demais para não ser transformada em arte.
Boa leitura. Desacelere e saboreie.
Texto integrante do Livro Alquimia do Tempo, de José Feldman

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