Olho para o bolo à minha frente, com as velinhas acesas, e não consigo evitar um sorriso largo. Se alguém me dissesse, lá em 1954, o ano em que nasci, que eu chegaria a essa idade com toda essa vida fremente, provavelmente ririam. Naquela época, a expectativa de vida era outra, o mundo corria em outro ritmo. Hoje, celebrar mais um ano não parece o fechar de um livro, mas o início de um capítulo surpreendentemente vibrante. A ciência esticou o tempo, e eu estou aqui para aproveitar cada segundo.
Enquanto a criançada hoje corre segurando aparelhos celulares que têm mais tecnologia do que tudo o que existia no planeta quando eu era menino, minha mente viaja no tempo. Que privilégio foi testemunhar a grande metamorfose do mundo.
Eu vi a poeira levantar nas ruas com os primeiros carros que começaram a trafegar com mais frequência pelo bairro. Lembro com uma nostalgia gostosa da nossa primeira televisão. Era um caixote imenso, com imagem em preto e branco, movido a válvulas que demoravam uma eternidade para esquentar. A gente ligava e esperava, pacientemente, até que um ponto brilhante no centro da tela se expandisse e revelasse as imagens chuviscadas.
Antes da TV reinar, porém, o dono absoluto da sala era o rádio. Que saudades das radionovelas! A gente se reunia ao redor do aparelho, em absoluto silêncio, deixando a imaginação desenhar os cenários e os rostos dos atores pelas vozes dramáticas que saíam do alto-falante. E os programas de música? Eram a nossa trilha sonora, a nossa janela para o mundo.
Minha juventude foi moldada por objetos que hoje parecem peças de museu. Na escola, o cheiro a álcool do mimeógrafo impregnava as folhas de prova que a gente recebia, ainda úmidas — e quem nunca cheirou naquela época uma folha daquelas que atire a primeira pedra. O concerto rítmico das máquinas de escrever preenchia o ambiente, com o "plim" do parágrafo avisando que a linha tinha acabado. Para falar com alguém, era a paciência de girar o disco do telefone fixo, esperando o mecanismo voltar lentamente para a posição inicial a cada número digitado.
Cada canto da minha casa de antigamente tinha sua alma: o filtro de barro na cozinha, a enceradeira que parecia querer levantar voo de tanto que vibrava, e quantas vezes não ri quando ela se soltava de minhas mãos e parecia estar possuída... as garrafas de vidro de leite de manhã cedo. O pãozinho quentinho da padaria, que comprava a mais, pois no caminho para casa ia comendo alguns... quentinhos, crocantes, deliciosos, os quais dividia com meu irmão.
Lembro do meu primeiro carro: um Fusca 1200. Ah, que orgulho! Aquele barulho característico do motor a ar era música para os meus ouvidos. Não tinha ar-condicionado, não tinha direção hidráulica, e a chave reserva vivia escondida em algum lugar do painel de metal. Mas ele me deu a liberdade. Rodamos quilômetros, colecionamos histórias e dividimos risadas. Numa cidade com tantas ladeiras, o que sofri com ele, subindo-as em primeira marcha e em zigue-zague, pois direto não tinha potência.
Olhando para essas velinhas hoje, percebo que a maior riqueza da minha jornada não veio da tecnologia que mudou, mas da base que me sustentou. Penso nos meus pais. Eles tinham pouca escolaridade, as mãos calejadas pela vida, mas uma sabedoria que nenhum livro acadêmico consegue ensinar. Nunca mediram esforços para me apoiar; o incentivo deles era o combustível que me fazia acreditar que eu poderia ir longe. Fecho os olhos e ainda consigo me ver sentado à mesa da sala, passando horas incontáveis jogando xadrez com o meu pai. Era o nosso momento de cumplicidade, um silêncio compartilhado cheio de afeto, enquanto, ao fundo, vindo da cozinha, subia o perfume delicioso da comida que minha mãe preparava com tanto carinho. Essa atmosfera de amor explodia de vez nos almoços de domingo. Aquela mesa cheia é a imagem mais viva da minha infância. Sentávamos todos juntos — eu, meu irmão, minha irmã e nossos pais. A gente conversava sobre a semana, dividia os planos, debatia bobagens e, acima de tudo, ria. Éramos sempre tão alegres. Não havia luxo, mas havia uma fartura de vida e de união que me moldou por inteiro. Lembro de minha mãe (que Deus a tenha) que sempre vibrava a cada conquista que eu obtinha, apesar da idade ela sempre fez questão de estar junto de mim e compartilhar minhas alegrias, e em meu baú de memórias, o sorriso dela por voos altos ou por bagatelas.
Essa minha longa caminhada fez brotar caminhos floridos, me presenteando com amigos e amigas preciosos, e me trouxe uma companheira de alma e uma esposa, ainda que separados, com quem ainda divido a vida - até que a morte nos separe. E o que dizer da minha filha? Ela, que mesmo em um sopro breve de tempo, me inundou com uma alegria ímpar, um amor que desafia o próprio relógio e permanece vivo em mim. E as minhas irmãs de quatro patas? Nossa! Elas são o suprassumo do afeto puro, pura alegria em forma de pelos. Olho para trás e sinto um desprendimento bonito: se a minha jornada findasse neste exato minuto, eu partiria com o coração transbordando de paz e gratidão. Tive — e tenho — tantas felicidades nesta vida, que não há conta no mundo capaz de registrar.
Hoje, aos 72 anos, cercado por modernidades que eu sequer conseguiria sonhar na infância, sinto que sou o resultado de cada jogada de xadrez com o meu pai e de cada almoço de domingo. Não sou um sobrevivente do passado; sou um entusiasmado habitante do presente que carrega um alicerce indestrutível de amor. Soprar essas velas hoje é agradecer por ter vivido tantas vidas diferentes dentro de uma só, e por ter tido a sorte de começar a minha nos braços de pais maravilhosos, é celebrar não apenas os anos que se somaram, mas a beleza de ter vivido tantas vidas diferentes dentro de uma só.
Que venham os próximos anos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Solicito que coloque o seu nome após o comentário, para que o mesmo seja publicado. Somente serão aceitos comentários relativo às publicações, outros que sejam políticos, pessoais, chulos, etc. serão excluídos. Veja política de conteúdo na página inicial. Outros assuntos relativos a postagens, use o formulário de contato na coluna à direita ou envie para o email gralha1954@gmail.com
Não coloque nos comentários telefones, emails, dados pessoais para não cair em golpes de terceiros.