I
Para cantar de amor tenros cuidados,
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi pois o meu fúnebre lamento;
Se é, que de compaixão sois animados:
Já vós vistes, que aos ecos magoados
Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;
Da lira de Anfião ao doce acento
Se viram os rochedos abalados.
Bem sei, que de outros gênios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino:
O canto, pois, que a minha voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz digno entre vós também de fama.
* * * * * * * * * * * * * * * *
II
Leia a posteridade, ó pátrio Rio,
Em meus versos teu nome celebrado;
Por que vejas uma hora despertado
O sono vil do esquecimento frio:
Não vês nas tuas margens o sombrio,
Fresco assento de um álamo copado;
Não vês ninfa cantar, pastar o gado
Na tarde clara do calmoso estio.
Turvo banhando as pálidas areias
Nas porções do riquíssimo tesouro
O vasto campo da ambição recreias.
Que de seus raios o planeta louro
Enriquecendo o influxo em tuas veias,
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.
* * * * * * * * * * * * * * * *
III
Pastores, que levais ao monte o gado,
Vede lá como andais por essa serra;
Que para dar contágio a toda a terra,
Basta ver se o meu rosto magoado:
Eu ando (vós me vedes) tão pesado;
E a pastora infiel, que me faz guerra,
É a mesma, que em seu semblante encerra
A causa de um martírio tão cansado.
Se a quereis conhecer, vinde comigo,
Vereis a formosura, que eu adoro;
Mas não; tanto não sou vosso inimigo:
Deixai, não a vejais; eu vo-lo imploro;
Que se seguir quiserdes, o que eu sigo,
Chorareis, ó pastores, o que eu choro.
* * * * * * * * * * * * * * * *
IV
Sou pastor; não te nego; os meus montados
São esses, que aí vês; vivo contente
Ao trazer entre a relva florescente
A doce companhia dos meus gados;
Ali me ouvem os troncos namorados,
Em que se transformou a antiga gente;
Qualquer deles o seu estrago sente;
Como eu sinto também os meus cuidados.
Vós, ó troncos, (lhes digo) que algum dia
Firmes vos contemplastes, e seguros
Nos braços de uma bela companhia;
Consolai-vos comigo, ó troncos duros;
Que eu alegre algum tempo assim me via;
E hoje os tratos de Amor choro perjuros.
* * * * * * * * * * * * * * * *
V
Se sou pobre pastor, se não governo
Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes;
Se em frio, calma, e chuvas inclementes
Passo o verão, outono, estio, inverno;
Nem por isso trocara o abrigo terno
Desta choça, em que vivo, coas enchentes
Dessa grande fortuna: assaz presentes
Tenho as paixões desse tormento eterno.
Adorar as traições, amar o engano,
Ouvir dos lastimosos o gemido,
Passar aflito o dia, o mês, e o ano;
Seja embora prazer; que a meu ouvido
Soa melhor a voz do desengano,
Que da torpe lisonja o infame ruído.
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SONETO DO ANJO
Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti — as noites eu velei chorando,
Por ti — nos sonhos morrerei sorrindo!
____________________
SONETO DOS MOÇOS PERDIDOS
Um mancebo no jogo se descora,
Outro bêbedo passa noite e dia,
Um tolo pela valsa viveria,
Um passeia a cavalo, outro namora.
Um outro que uma sina má devora
Faz das vidas alheias zombaria,
Outro toma rapé, um outro espia...
Quantos moços perdidos vejo agora!
Oh! não proíbam pois ao meu retiro
Do pensamento ao merencório luto
A fumaça gentil por que suspiro.
Numa fumaça o canto d'alma escuto...
Um aroma balsâmico respiro,
Oh! deixai-me fumar o meu charuto!
__________________
SONETO DA PREGUIÇA
Ao sol do meio-dia eu vi dormindo
Na calçada da rua um marinheiro,
Roncava a todo o pano o tal brejeiro
Do vinho nos vapores se expandindo!
Além um Espanhol eu vi sorrindo,
Saboreando um cigarro feiticeiro,
Enchia de fumaça o quarto inteiro...
Parecia de gosto se esvaindo!
Mais longe estava um pobretão careca
De uma esquina lodosa no retiro
Enlevado tocando uma rabeca!
Venturosa indolência! não deliro
Se morro de preguiça... o mais é seca!
Desta vida o que mais vale um suspiro?
____________
SONETO DA ARMIDA
Os quinze anos de uma alma transparente,
O cabelo castanho, a face pura,
Uns olhos onde pinta-se a candura
De um coração que dorme, inda inocente.
Um seio que estremece de repente
Do mimoso vestido na brancura,
A linda mão na mágica cintura,
E uma voz que inebria docemente.
Um sorriso tão angélico! tão santo
E nos olhos azuis cheios de vida
Lânguido véu de involuntário pranto!
É esse o talismã, é essa a Armida,
O condão de meus últimos encantos,
A visão de minh'alma distraída!
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SONETO DA MORTE
Já da morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!
Do leito embalde no macio encosto
Tento o sono reter!... já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!
O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.
Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!
__________________
SONETO DA VIRGEM
Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós — e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...
Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!
Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!
Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! e dormir solteiro!
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SONETO DA DOR
Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flores!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
Sem que última esperança me conforte,
Eu — que outrora vivia! — eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
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SONETO DA MÃE
Ó páginas da vida que eu amava,
Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado!...
Ardei, lembranças doces do passado!
Quero rir-me de tudo que eu amava!
E que doido que eu fui! como eu pensava
Em mãe, amor de irmã! em sossegado
Adormecer na vida acalentado
Pelos lábios que eu tímido beijava!
Embora — é meu destino. Em treva densa
Dentro do peito a existência finda...
Pressinto a morte na fatal doença!...
A mim a solidão da noite infinda!
Possa dormir o trovador sem crença...
Perdoa, minha mãe — eu te amo ainda!
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SONETO DO AMIGO
Perdoa se hoje em verso rude não cadente
Ledos os sentimentos de minha alma exprimo:
Tu verás que na arte de poeta eu não primo
Porém verás que só digo o que meu peito sente.
Mas os teus anos que me alegram a mente,
Triste pensamento me faz vir do imo
De meu peito alegre. De ti que eu tanto estimo
Para o ano, em igual dia hei de estar ausente!
Mas se de ti separar-me a extensão tão imensa,
A grande distância que entre nós estiver
Lembrança de ti não me fará perder.
Faz que tua alma a distância também vença,
Neste dia entre os amigos não te esquece
Daquele em quem tua lembrança não fenece.
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Álvares de Azevedo (1831 - 1852)
MANUEL ANTÔNIO ÁLVARES DE AZEVEDO, conhecido na história da literatura como Álvares de Azevedo, foi o principal expoente da segunda geração do Romantismo brasileiro (o ultrarromantismo). Apelidado de "o poeta da dúvida" ou "o Byron brasileiro", sua obra é marcada pelo sentimentalismo exacerbado, morbidez, tédio e melancolia. Nasceu na cidade de São Paulo/SP em 1831. Faleceu precocemente aos 20 anos, em 1852, na cidade do Rio de Janeiro/RJ devido a uma tuberculose agravada por uma infecção abdominal desenvolvida após uma queda de cavalo. Aos dois anos de idade, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde passou toda a infância. Aos 16 anos, retornou para a cidade de São Paulo para cursar o ensino superior. Durante a faculdade, morou em repúblicas estudantis paulistas ao lado de amigos célebres como Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa. Devido à sua morte extremamente precoce, Álvares de Azevedo não chegou a exercer uma profissão formal definitiva. Toda a sua vida "profissional" concentrou-se na academia: foi um estudante brilhante e laureado no tradicional Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e ingressou em 1848 na renomada Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. Faleceu no quinto ano do curso, pouco antes de se graduar como bacharel em Direito.
Sua produção literária floresceu intensamente no ambiente universitário paulistano, onde participava ativamente da boemia e de sociedades intelectuais. Fundou e dirigiu a Revista Mensal da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano (1849), importante veículo de debate romântico da época. Não recebeu prêmios literários em vida, uma vez que o circuito de premiações no Brasil do século XIX era praticamente inexistente e sua obra sequer havia sido publicada oficialmente antes de sua morte. Como faleceu em 1852 — décadas antes da fundação das principais instituições literárias do país —, ele não pertenceu a nenhuma academia em vida. No entanto, seu imenso prestígio fez com que ele recebesse a maior honraria póstuma das letras nacionais: foi escolhido por Coelho Neto como o Patrono da Cadeira nº 2 da [Academia Brasileira de Letras. Ele também é patrono na Academia de Letras da Grande São Paulo.
Álvares de Azevedo não viu nenhum de seus livros publicados em vida; todos os seus manuscritos foram reunidos e publicados postumamente por iniciativa de seu pai e de seus amigos. Suas obras principais são: Lira dos Vinte Anos (1853): Sua obra-prima e único livro de poemas preparado pelo próprio autor antes de morrer. Divide-se entre a idealização do amor (face "Ariel") e a ironia sarcástica/mórbida (face "Caliban"); Noite na Taverna (1855): Livro de contos fantásticos e sombrios de teor gótico, repletos de mistério, crimes, horror e deboche; Macário (1855): Uma peça de teatro (drama fragmentário) de forte influência satânica e filosófica, inspirada no Fausto de Goethe; O Conde Lopo (1886): Poema narrativo longo e inacabado publicado muitas décadas após sua morte.
A importância de Álvares de Azevedo reside no fato de ele ser o ícone máximo do Ultrarromantismo e do "Mal do Século" no Brasil. Enquanto a primeira geração do Romantismo focava no nacionalismo e na figura idealizada do índio, Azevedo promoveu uma revolução intimista. Ele deslocou o foco da literatura brasileira para o universo psicológico interior: a dúvida, a obsessão pela morte, o amor inalcançável e o escapismo através do sonho. Além disso, sua genialidade está na capacidade de equilibrar o sublime e o grotesco. Ao mesmo tempo em que produzia as poesias líricas mais puras da língua portuguesa, ele rompeu o puritanismo da época ao introduzir o cotidiano banal, o cinismo, a ironia cortante e o humor negro no cancioneiro nacional. Ele influenciou profundamente as gerações literárias seguintes, moldando a identidade da poesia jovem brasileira e consolidando-se como um clássico imortal do nosso patrimônio cultural.
Fontes:
Álvares de Azevedo. Sonetos. s/d.
Biografia = E-Biografia, Wikipedia, Toda Matéria, E-Biografia, Academia Brasileira de Letras, etc.

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