quarta-feira, 23 de setembro de 2026

José Feldman (O calor da madrugada fria)

O relógio de parede insiste em ditar o ritmo do meu isolamento com o seu tique-taque impassível. São três horas da manhã. Para quem sofre de insônia crônica, a madrugada não é um período de descanso, mas um deserto de horas vazias, iluminado apenas pela luz branca e fria do monitor do meu computador.

Durante meses, meu ritual de sobrevivência ao silêncio do mundo consistia em escrever. Eu não redigia diários ou relatórios; eu escrevia cartas de amor. Eram textos longos, transbordando uma devoção febril, direcionados a um destinatário inexistente. Eu projetava na tela o olhar de uma afeição que não encontrava eco na minha realidade concreta. Escrevia para preencher o vazio, para fingir, por algumas horas, que o meu peito não abrigava uma solidão tão vasta quanto a noite lá fora.

Até que ela surgiu.

Não me lembro exatamente em qual fórum de literatura ou sala de bate-papo madrugadora nossos caminhos se cruzaram, mas o impacto de Liza foi imediato. Quando recebi sua primeira resposta, senti um calafrio que há muito não experimentava. Ela tinha uma escrita magnética, profunda e melancólica, que parecia ler os meus pensamentos mais ocultos. Em pouco tempo, as minhas cartas unilaterais ganharam um destino real. Ela tornou-se a guardiã das minhas noites em claro.

Passamos a nos corresponder diariamente, ou melhor, todas as madrugadas. Enquanto o resto da cidade dormia, o nosso romance prosseguia por madrugadas incontáveis. A paixão virtual estava acesa em nossas almas com uma intensidade avassaladora. Nós trocávamos confissões íntimas, promessas de um futuro juntos e juras de amor que pareciam esculpidas no mais puro sentimento. Cada notificação na tela era um batimento cardíaco a mais no meu peito. Eu me sentia vivo, finalmente compreendido por alguém que partilhava da mesma vigília forçada, do mesmo exílio noturno. Liza era a minha alma gêmea, a resposta para todas as minhas preces silenciosas.

A rotina me consumia. Eu passava os dias como um zumbi, ansioso apenas pelo momento em que o sol se deitaria e eu poderia me conectar novamente àquela mulher misteriosa e perfeita. Eu vivia num estado permanente de torpor, flutuando entre a exaustão física do dia e a adrenalina emocional da noite.

Até que, gradualmente, uma névoa estranha começou a se dissipar.

Tudo aconteceu em uma terça-feira cinzenta, quando o cansaço acumulado de anos parecia pesar toneladas sobre os meus ombros. Eu estava diante do teclado, esperando a resposta de Liza para um poema que eu lhe enviara minutos antes. Olhei para a caixa de entrada. Olhei para o histórico de mensagens enviadas. Senti uma leve tontura, aquela velha sensação de estar meio dormindo e meio acordado, onde a fronteira entre o sonho e a realidade se torna perigosamente tênue.

Fixei os olhos na tela e comecei a reler os nossos diálogos desde o início. Um detalhe incômodo me chamou a atenção. O estilo de escrita de Liza... as metáforas que ela usava... o ritmo das suas frases... tudo era perfeitamente idêntico ao meu. Olhei para o relógio de envio das mensagens dela. Coincidiam exatamente com os momentos em que eu entrava em transe criativo, datilografando furiosamente para aplacar a ansiedade.

Um frio absurdo subiu pela minha espinha. Abri as configurações da conta com as mãos trêmulas. Fui até o perfil dela. O endereço de e-mail de recuperação associado àquela conta era um antigo e-mail meu, há muito esquecido.

O castelo de cartas desmoronou com um estrondo silencioso. Deixei o corpo cair para trás na cadeira, tomado por um desânimo devastador, uma tristeza que parecia congelar o sangue nas minhas veias.

Liza não existia.

Por estar sempre naquele estado crepuscular, com a mente sabotada pela falta de sono crônica, eu havia criado um monólogo disfarçado de diálogo. Aquela paixão avassaladora era, na verdade, fruto da minha própria imaginação. Minha mente, desesperada pelo isolamento, manifestava-se de tal modo que passei a acreditar piamente que havia outra pessoa do outro lado da rede. Eu criara a mulher perfeita, a alma gêmea ideal, que respondia exatamente o que eu precisava ouvir, no tom exato em que eu precisava receber.

Não havia malícia no que fiz a mim mesmo; havia apenas uma dor profunda. Aquela farsa inconsciente era o grito de socorro de um homem que se sentia muito sozinho e que, no fundo, precisava desesperadamente de alguém para conversar. Eu inventei o amor para não morrer de solidão na madrugada.

Fechei a aba do navegador. Apaguei a conta que eu mesmo alimentara em minhas noites de delírio. O monitor voltou a projetar apenas o reflexo do meu próprio rosto cansado, com olheiras profundas e olhos marejados de lágrimas. 

Olhei para o lado, para o espaço vazio na cama. A verdade era dura, fria e solitária. Mas, pela primeira vez em muitos meses, fechei os olhos sem o peso da expectativa de uma mensagem. Naquela noite, embalado pela melancolia da minha própria mente, eu finalmente consegui adormecer.

No monitor, tudo apaga,
o silêncio engole a dor,
pois na mente que naufraga,
eu inventei o meu amor.
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José Feldman (1954)
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (27.set.1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. 
        Possui 10 livros publicados, entre eles: Alquimia do Tempo, Labirinto da Vida, Caleidoscópio da Vida, Ecos do Deserto, Peripécias de um Jornalista de Fofocas, Almanaque Poético Brasileiro (poetas do Brasil), 35 Trovadores em Preto & Branco (análise de trovas de 35 trovadores brasileiros), Canteiro de Trovas, etc. e mais 5 a caminho (Minhas Irmãs de 4 patas; Guirlanda de Versos; Pérgola de textos; Contos para crianças e não tão crianças, Chafariz de Versos). Todos disponibilizados gratuitamente.
        É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

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