— Não grita, por favor.
— Não estou gritando. Estou rindo.
— Falar alto ou gargalhar é a mesma coisa. É manifestação de animalidade que a minha natureza não suporta. Vocês conhecem a minha fascinação pelas mulheres. Nada para mim tem um poder de atração maior do que uma mulher. Porém a mulher mais linda, a mais perfeita, a mais fascinante, falando alto ou gargalhando, faz crescer em mim um ímpeto monstruoso e sinto que sou capaz de abrir com as mãos o seu pescoço. Fico desvairado; é uma repulsa incontida. Só os animais se expressam com alarido, só as criaturas desclassificadas, moral e espiritualmente, falam aos gritos e riem com a garganta. Já sabem, não gritem nem deem gargalhadas perto de mim se não quiserem transformar-me num criminoso. Fico descontrolado com o barulho, seja ele qual for.
Gaspar e dois amigos conversavam num bar, de madrugada, onde a fumaça dos cigarros e o cheiro de álcool misturavam-se ao som de um piano tocado por dedos já. cansados e indiferentes ao ambiente.
André, de temperamento alegre, depois de tomar duas ou três doses de álcool, expandia-se em piadas de mau gosto, acompanhadas de estridentes gargalhadas.
O outro, Maurício, quase silencioso, observava demoradamente os frequentadores do bar, Possuía um interesse especial por dois detalhes do corpo humano: mãos e nucas.
— Gaspar, você define e classifica as criaturas pelo falar alto e o gargalhar. Tem razão. Não pode haver inteligência nem condições espirituais numa pessoa que expressa suas alegrias e suas opiniões aos berros. Vocês dois criticam sempre a minha atitude quando em silêncio fico a maior parte do tempo com os olhos pregados nas mãos e na nuca das pessoas à minha frente. Eu explico. Gosto de definir, através das mãos e da nuca, a essência do indivíduo. Reparem, por exemplo, aquele sujeito sentado na mesa à nossa esquerda. Forçosamente tem de ser uma pessoa mesquinha, de fundo avarento, capaz de sujeiras frequentes nas vinte e quatro horas do dia. Está acompanhado de uma mulher que chama a atenção unicamente pela tristeza do olhar. O resto é comum e insignificante. O seu modo de trajar é suburbano. O seu olhar, entretanto, carrega pesadas humilhações e penas. O homem que a acompanha não vê nada disso que esmaga a pobre mulher.
— E você, Maurício, verificou a tristeza da mulher e a mesquinhez do caráter do homem pelas mãos dele, só pelas mãos? — perguntou André.
— Sim, pelas mãos. Observem seus gestos e a forma das suas mãos curtas e gordas, achatadas, de unhas minúsculas enterradas na carne, dedos cabeludos, pulsos cabeludos. Suas mãos, quando paradas, assemelham-se a aranhas adormecidas. São mãos asquerosas, devem ter uma transpiração abundante. Sempre molhadas de suor. Reparem nos seus gestos em curvas pequenas em direção à sua barriga, Parecem trazer as migalhas da mesa para o seu estômago. Nada em seu físico define com mais segurança a sua mesquinha personalidade do que as suas mãos.
— Você o conhece, para marcá-lo assim de maneira tão positiva?
— Não, nunca o vi. Mas desde que cheguei notei a sua repelente personalidade pelas suas mãos cabeludas, curtas e de movimentos repulsivos.
Enquanto Maurício falava sobre as suas observações, o homem reclamava aos brados, do garçom, uma insignificante quantia adicionada à nota das despesas. Dava a entender que o pagamento daquele mínimo excedente iria obrigá-lo a voltar a pé para casa.
A mulher que o acompanhava, de olhos baixos, sentia a humilhação de quem contribuíra para um grave problema financeiro do companheiro que a trouxera para o bar; como se reclamasse o preço excessivo da sua presença ao seu lado, A mulher somava tristezas.
Maurício olhou para os amigos com ar vitorioso de quem acerta no objetivo. 0 homem de mãos curtas e cabeludas exibira a sua essência.
— Vejam também agora a nuca deste sujeito que está sentado de costas para nós. Nuca pálida, enxundiosa, com o nascimento do cabelo muito alto e semelhante a uma franja rala. Nuca de homem tem de ser com o nascimento do cabelo no meio do pescoço, de fios grossos marcando vitalidade e decisão de atitudes. Desconfiem de todo homem que possuir uma nuca que sobe até o meio da cabeça. Não escapará de ser um indivíduo desleal, traiçoeiro, com tendência à vida sórdida, vivendo da exploração de mulheres.
— Ora, isso é bobagem. E os que não têm pescoço, os que não têm nuca, os que têm a cabeça. Diretamente pregada nos ombros, como são? — perguntou André já bastante alcoolizado.
— Bem, esses são os burros teimosos. Teimosos e vaidosos. Esses são perigosos. Sentem-se um deus de sabedoria e, se têm uma parcela de poder ou uma fortuna assegurada, entendem que têm o direito de arrasar com a humanidade, e que as suas opiniões estão na razão direta do seu dinheiro, Como já disse, esses sem pescoço são perigosos para a coletividade.
Nesse instante, Maurício chamou a atenção dos companheiros para o homem da nuca flácida.
— Reparem o que ele está fazendo e vejam como os meus estudos são infalíveis!
O homem recebia, sob a toalha da mesa, das mãos da mulher que o acompanhava, o dinheiro com que iria pagar as despesas feitas.
— Qual é a sua finalidade, Maurício, ao estudar e observar a personalidade das criaturas através dos detalhes das mãos e da nuca?
— A de definir para conhecer a essência das coisas. É um estudo como outro qualquer. É um divertimento. Meus estudos e observações não impedirão o nascimento de homens mesquinhos, sórdidos e de vidas repugnantes, eu sei. Mas cada vez que acerto nas minhas observações, mais vontade tenho de observar para acertar. É uma espécie de jogo comigo mesmo. O princípio da ignorância humana é o definir aquilo que se fala ou o que se prefere falar, sobre o que ainda não se sabe e nem se pode definir. Eu falo do que ainda não se pode definir. Tento chegar à ignorância humana.
— Por exemplo, o descontrole de Gaspar ao ouvir alguém gritar ou dar gargalhadas, parece-me uma reação intimamente ligada à sua sensibilidade. As suas impressões, as suas visões ou os seus ímpetos inesperados devem variar dependendo da sua receptividade brutalizada por risos estridentes e barulhos fortes. A reação da sensibilidade de cada pessoa pode encaminhar-se para o estoicismo ou para o crime. Conheci um rapaz que desde menino perdia a fala quando cercado de conversas tumultuosas ou de ruídos agudos. Permanecia completamente mudo por várias horas. Mas mudo mesmo. Trancava-se no quarto e entregava-se à leitura. A família desorientava-se com a sua mudez prolongada e repentina. A medicina não oferecia maiores explicações. A sua mudez era total e a sua audição também seguia o mesmo processo. No dia seguinte aparecia com a fala e a audição perfeitamente normais. Assustava-se, terrivelmente, quando ao longe percebia o ronco dos motores de um avião no céu. Quando o telefone tocava, se ele estivesse perto, corria para o quarto como um animal batido. Diziam que era um desequilibrado, mas essa conclusão foi posta por terra quando a família resolveu enviá-lo para uma fazenda no interior, onde ele só tinha contato com o silêncio. A solução foi afastá-lo de tudo e de todos na medida do possível. Durante esse período falava e ouvia normalmente, Interessante é que cantava canções de acalanto e a sua voz tinha uma sonoridade maravilhosa, 0 tumulto, os gritos, as conversas misturadas, as risadas, extinguiam instantaneamente a sua voz e a sua audição, mas voltavam perfeitas na substância do silêncio. Era por isso considerado um tipo estranho e enigmático. Ora, Gaspar deve estar incluído, sem saber, entre os raros que sofrem desse mesmo fenômeno. Daí o seu descontrole, a sua angústia, quando alguém a ao seu lado fala aos gritos ou dá estrondosas gargalhadas. Nota-se em Gaspar uma imediata transformação fisionômica, um ar desvairado, e não deve ser sem fundamentos que ele afirma a possibilidade de tornar-se um criminoso ao ouvir uma gargalhada.
Gaspar ouvia sem interromper Maurício, parecendo concordar com o diagnóstico do amigo.
Um grande silêncio envolveu a mesa dos três. Ao longe, rompendo a densidade da fumaça e o enjoativo cheiro de álcool que dominava o bar, o piano continuava tateado por mãos cansadas e indiferentes àquelas vidas gastando-se na madrugada. Vinda de um canto do bar, passou pela mesa dos três amigos uma mulher jovem. Não era bela nem feia. Era uma mulher de bar. Gaspar segurou-lhe o braço e indagou se estava sozinha. A mulher respondeu afirmativamente.
— Para onde vai?
— Para casa.
— Espere, vou com você.
Saíram os dois.
Num hotel barato, os outros hóspedes ouviram a porta de um quarto fechar-se. Depois o murmúrio de vozes do casal. De repente, uma gargalhada inundou o corredor do hotel. Outra gargalhada. Depois o silêncio absoluto.
Pela manhã, quando a arrumadeira iniciou o seu serviço, ao passar pelo quarto ocupado pelo casal da madrugada, viu pela porta entreaberta uma mulher nua, deitada na cama, tendo sobre a cabeça um travesseiro.
O seu corpo morto deixava fora do lençol um seio alvo e volumoso.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Adalgisa Nery (1905 - 1980)
ADALGISA MARIA FELICIANA NOEL CANCELA FERREIRA (adotou o sobrenome Nery após o casamento). foi uma das figuras mais fascinantes, combativas e multifacetadas da cultura brasileira no século XX. Transitando entre o lirismo intimista e o engajamento cívico, destacou-se não apenas como uma brilhante escritora, mas também como jornalista influente e pioneira na política nacional. Nasceu em 1905, no Rio de Janeiro (RJ) e faleceu nesta mesma cidade em 1980, aos 74 anos, em decorrência de um AVC. Viveu a maior parte de sua vida na cidade do Rio de Janeiro. Entre 1927 e 1929, morou na Europa com seu primeiro marido. Na década de 1940, também residiu no México, onde seu segundo marido (Lourival Fontes) serviu como embaixador do Brasil. Nos últimos anos de vida, morou em Petrópolis (RJ) e, posteriormente, em uma clínica geriátrica na capital fluminense. Ficou viúva muito jovem e, para sustentar os filhos, começou a trabalhar na Caixa Econômica e no Conselho de Comércio Exterior do Itamaraty. Tornou-se uma jornalista de destaque, escrevendo colunas diárias e combativas para o jornal Última Hora. Sua forte atuação social a levou para a política, sendo eleita deputada estadual em 1960 pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Reeleita duas vezes, tornou-se uma voz ativa na defesa dos direitos humanos. Em 1969, por causa do AI-5 durante a Ditadura Militar, teve seus direitos políticos cassados e sua coluna censurada.
Adalgisa não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL) e sua trajetória foi marcada por um histórico apagamento institucional por parte dos círculos literários mais tradicionais da época. Apesar do imenso sucesso de público e da aclamação de seus pares intelectuais (como Drummond, Murilo Mendes e Manuel Bandeira), ela não acumulou grandes prêmios oficiais em vida, enfrentando o esquecimento financeiro e editorial no fim da carreira. Conviveu intensamente com a vanguarda modernista. Casou-se aos 16 anos com o pintor Ismael Nery, com quem viveu uma relação efervescente e turbulenta. Após a morte dele, foi incentivada por amigos poetas a publicar seus próprios escritos. Sua obra passeia pela poesia mística, o sofrimento, o erotismo e o protesto social.
Poesia: Poemas (1937), A Mulher Ausente (1940), Og (1943), Ar do Deserto (1943), Cantas de Angústia (1948) e Mundos Oscilantes (1953).
Prosa (Romances e Contos): A Imaginária (1959 — seu livro mais famoso e autobiográfico), Sofonisba (1961), As Fronteiras da Quarta Dimensão (1965) e Neblina (1972).
A importância de Adalgisa Nery reside na sua coragem estética e temática em um período de forte opressão patriarcal. Ela foi uma das primeiras escritoras brasileiras a expor, sem filtros morais, a angústia existencial feminina, o confinamento do casamento, o desejo e as dores da maternidade e do luto. Na prosa, seu romance A Imaginária abriu caminhos para a autoficção no país, retratando dinâmicas de violência doméstica de forma pioneira. Ao unir o lirismo confessional ao jornalismo político de resistência, Adalgisa rompeu o estereótipo da "musa passiva" dos modernistas para se consolidar como uma voz autônoma, visceral e profundamente necessária para a literatura feminista e social do Brasil.
Fontes:
Adalgisa Nery. 22 menos um. Publicado originalmente em 1972.
Biografia – Elfikurten, Escritas.org, Wikipedia, Museu da TV, Gov.Br., Guia das Artes, Recanto das Letras, etc.

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