A origem mais conhecida dessa expressão, revela o alto preço pago por Diego de Almagro (1475-1538), companheiro de Orelana e dos Pizarros, que no Século XVI, representando os espanhóis, conquistaram o Peru pelo Pacífico e retornaram à Europa descendo o Amazonas até a foz a partir de Quito - ao contrário de Pedro Teixeira, que representando Portugal, subiu o grande rio desde o Atlântico até os Andes, tendo o mérito de implantar vários povoados, que no futuro viraram cidades.
Após ouvir lendas sobre um povo que comia e bebia em vasilhas de ouro no Novo Mundo, os exploradores espanhóis navegaram com suas tropas, em 1524, rumo às terras desconhecidas. A primeira expedição chegou até o Equador, porém na segunda, surgiram evidências sobre a existência do Império Inca.
Assim, em 1526 saíram eles do Panamá em dois pequenos barcos, desembarcando na costa da atual Colômbia. Na ocasião, tiveram o primeiro contato com a riqueza daquele povo, confirmada também mais ao sul, onde a expedição foi confrontada por jangadas repletas de guerreiros Incas, que admitiram a existência de muitas outros tesouros naquela desabitada região.
Tais notícias encheram os ouvidos dos reis da Espanha, que buscavam avidamente ouro e prata em suas colônias para salvar a economia do país e com esse desiderato, os citados aventureiros foram autorizados a conquistar o Peru. E foi aí que a empreitada bélica vitimou Almagro, pois na tentativa de invadir uma fortaleza Inca, perdeu ele um dos olhos, atingido por uma flecha.
Sujeito sortudo, sobreviveu ao ataque e anos depois, ao pessoalmente relatar ao rei da Espanha Carlos V, os imensos custos e sacrifícios humanos da viagem destinada a conquistar as terras peruanas, Almagro declarou enfaticamente: “Defender os interesses do rei custou-me um olho da cara”.
A par da narrativa feita diretamente ao monarca, o conquistador continuou alardeando o heroico feito e seu enorme ônus pessoal para quem quisesse ouvi-lo. E esse episódio de tão exaustivamente repetido, chegou aos ouvidos dos soldados sob seu comando e deles, para a boca do povão.
O relato de Almagro ganhou tom metafórico, espalhou-se pela Península Ibérica e a expressão acabou incorporada ao espanhol, sendo adaptada depois ao português, para descrever qualquer coisa extremamente cara ou de valor exorbitante que alguém tem que pagar para conquistar algo que reputado valioso, quando não, para satisfazer caprichos pessoais. Nas compras que fazemos há sempre estabelecimentos comerciais que praticam preços convidativos e aqueles famosos por cobrarem “Os olhos da cara”.
Frutas sazonais encarecem nas entressafras, e o melhor exemplo disso é o nosso festejado açaí, base da alimentação do povão. Fruta típica do verão, no inverno amazônico evapora dos pontos de venda e quando é encontrado, mesmo com aquele gosto insípido de palha velha, custa os olhos da cara.
Há quem diga que a origem dessa expressão é bem mais antiga, vinda do hábito dos povos da Mesopotâmia de arrancar os olhos de quem pudesse colocar em risco a estabilidade do governo. Os assírios organizavam guerras sangrentas e os prisioneiros tinham as mãos, pés, orelhas e olhos arrancados, para tornar os inimigos, assim cruelmente cegos e mutilados, completamente inofensivos (...felizmente esse ritual macabro não pegou por aqui!...).
Na musica popular brasileira, a expressão virou mote para a canção "Os olhos da cara", de Mauro Aguiar e foi gravada no álbum “Transeunte” (ano de 2010), refletindo o preço emocional de uma paixão. Vejamos uma das estrofes:
“Entrando em cena sem me mostrar
meu coração dispara
não para de interpretar da boca pra fora
e sigo trocando as falas
por cima das horas ralas
arquitetando um filme no ar
só de sequências raras
que me poderá custar os olhos da cara”.
Quem ainda fala da Copa do Mundo deste ano? Nela, o ingresso mais em conta, estava por estratosféricos USS-2.200 cobrados pela FIFA, preço acessível apenas a quem pertence à elite econômica. Isso afastou muita gente boa que sonhava comparecer com a família à tradicional competição esportiva, que a cada quatro anos galvaniza todas as atenções, mesmo daqueles que nem se ligam muito em futebol.
Cada qual gasta sua grana, seja farta ou minguada, como acha que deve, é claro! Mas, “no meu fraco pensar” como dizia o saudoso vaqueiro Gregório antes de manifestar sua opinião entre os doutos, em vez de ir a eventos esportivos internacionais, onde se gasta os tubos, acho mais válido ficar por aqui mesmo, poupar os trocados e assistir a um eletrizante Remo X Paysandu no belo Estádio do Mangueirão, com ingressos infinitamente mais acessíveis dos que os da Copa, pois na Capital paraense, quando esses dois ícones do esporte se enfrentam, é de cediço conhecimento que apenas os flanelinhas “cobram os olhos da cara” para fingir que vigiam os nossos carros.
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Célio Simões (1947)
O advogado e escritor CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é uma das personalidades intelectuais e jurídicas mais respeitadas do estado do Pará, destacando-se como cronista, poeta e guardião da memória histórica e cultural da Amazônia. Nasceu na histórica cidade de Óbidos/PA, em 1947. Embora suas raízes obidenses definam profundamente sua identidade literária, ele construiu grande parte de sua vida residencial e profissional em Belém, capital paraense, onde mora atualmente. Entre 1945 e 1953, durante a juventude, também viveu em regiões de várzea às margens do Rio Amazonas. Sua trajetória na área jurídica e acadêmica é extensa e renomada: Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará e pós-graduou-se em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Atuou como Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) na classe de jurista e foi membro da Advocacia Consultiva da União. Professor na Universidade da Amazônia (UNAMA), na Escola Superior de Advocacia (ESA) e na Escola de Árbitros e Mediadores do Pará. Serviu como Conselheiro Estadual, Juiz do Tribunal de Ética e Disciplina e presidiu a Comissão de Combate ao Trabalho Forçado.
Prolífico cronista, ensaísta, poeta e memorialista. Suas produções abordam desde a cultura popular, expressões idiomáticas e histórias do cotidiano até profundos resgates históricos regionais. Pelo seu prestígio, integra importantes instituições: Academia Paraense de Letras (APL) – Membro "Imortal"; Academia Paraense de Letras Jurídicas (APLJ) – Membro titular e ex-presidente; Academia Paraense de Jornalismo (APJ) – Sócio-fundador e ex-vice-presidente; Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) – Idealizador, fundador e seu primeiro presidente; Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) – Sócio efetivo; Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGT), fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém, membro do Instituto dos Advogados do Pará. membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (de Floresta/PR).
Ao longo de sua carreira literária, recebeu três prêmios literários principais, incluindo uma destacada Medalha de Prata em concurso promovido pela tradicional Revista TROFÉU, de São Paulo. Em 2022, também foi condecorado com o Título Honorífico de Honra ao Mérito pela Câmara Municipal de Belém. Possui seis livros autorais publicados, além de coautorias. Destacam-se: Recados da Memória (2018) – Cujas rendas de lançamento foram inteiramente revertidas em doação para a Santa Casa de Misericórdia de Óbidos; Um Pouco de Muitas Histórias (2017); Rio Amazonas – Um Abraço Apertado – Obra em coautoria.
A relevância de Célio Simões para a literatura paraense e amazônica reside na sua atuação como um "escritor memorialista". Assim como fez o clássico autor obidense Inglês de Sousa, Célio Simões transporta para as suas crônicas e contos a alma do Baixo Amazonas, o cotidiano ribeirinho e a identidade do povo paraense. Além disso, seu papel institucional foi fundamental para descentralizar a cultura no estado; ao idealizar e fundar a Academia Artística e Literária de Óbidos, ele criou um polo essencial para a preservação e fomento de novos talentos fora da capital jurídica e literária de Belém.
Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada com IA Microsoft Bing
Biografia = Obidos.net, Obidense, Jeso Carneiro, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Confraria Brasileira de Letras.


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