quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Graciliano Ramos (A Última Noite de Natal)

Os grandes olhos claros e aguados boiavam na sombra nevoenta, cheios de espanto. Esfregou-os, arrastou-se pesado e entanguido, mal seguro à bengala, sentou-se num banco do jardim, fatigado, suspirando, examinou a custo os arredores. Gastou uns minutos passeando as mãos desajeitadas na gola do casaco. 0 exercício penoso enfureceu-o. Resmungou palavras enérgicas e incompreensíveis, esforçou-se por dominar a tremura.

Com certeza era por causa do frio que os dedos caprichosos divagavam no pano esgarçado e os queixos banguelos se moviam continuamente. Era por causa do frio, sem dúvida. Se conseguisse abotoar o casaco e levantar a gola, os movimentos incômodos cessariam.

Em que estava pensando ao chegar ali? Ia jurar que pensava em coisas agradáveis. Ou seriam desagradáveis? Pedaços de recordações incoerentes dançavam-lhe no espírito, acendiam-se, apagavam-se, como vaga-lumes, confundiam-se com os letreiros verdes, vermelhos, que se acendiam e apagavam também quase invisíveis na poeira nebulosa. Tentou reunir as letras, fixar a atenção nas mais próximas, brilhantes, enormes.

A igreja toda aberta resplandecia. O incenso formava uma neblina perturbadora. E, através dela, os altares refugiam como sóis, a luz das velas numerosas chispava nas auréolas dos santos.

Que doidice ! Não é que estava imaginando ver ali, nas transitórias claridades, a igreja vista sessenta anos antes? Tresvariava. Sacudiu a cabeça, afastou a lembrança importuna. De que servia desenterrar casos antigos, alegrias e sofrimentos incompletos?

O que devia fazer... Pôs-se a mexer os beiços, procurando nas trevas úmidas e leitosas que o envolviam o resto da frase. O que devia fazer... Repetiu isto muitas vezes, numa cantilena, distraiu-se olhando a chuva amarela, verde, vermelha, dos repuxos. Impossível distinguir as cores. Ultimamente a cidade ia escurecendo. As pessoas que transitavam junto aos canteiros sem flores eram vultos indecisos; .os prédios se diluíam nas ramagens das árvores, manchas negras; os letreiros vacilantes não tinham sentido.

O que devia fazer... De repente a ideia rebelde surgiu. Bem. Devia meter os botões nas casas e agasalhar o pescoço. Depois cruzaria os braços, aqueceria as mãos debaixo dos sovacos, ficaria imóvel e tranquilo. Mas os dedos finos e engelhados avançavam, recuavam, não havia meio de governá-los. Se pudesse riscar um fósforo, chegá-lo a um cigarro, esqueceria os inconvenientes que o aperreavam: o frio, a dureza das juntas, o tremor, a zoeira constante, sussurro de maribondos assanhados. Dores errantes andavam-lhe no corpo, entravam nos ossos e vinham à pele, arrepiavam os cabelos, fixavam-se nas pernas, esmoreciam.

Agora não estava no banco do jardim, perto das estátuas, das árvores, do coreto, dos esguichos coloridos. Estava longe, a sessenta anos de distância, ajoelhado na grama, diante da igreja da vila. Os rostos embotados, que se dissociavam, juntaram-se no largo onde um padre velho dizia a missa da meia-noite. Fervilhavam matutos em redor das barracas, num barulho de feira, e uma sineta badalava impondo em vão respeito e silêncio. Os cavalinhos rodavam. Esgueiravam-se casais pelos cantos. O padre velho dirigia olhares fulminantes àquela cambada de hereges. Uma figura pequenina cantava os hinos ingênuos, de versos curtos, fáceis. Tudo parecera de chofre muito sério, eterno. Os hinos capengas elevavam-se, estiravam-se. A mulher tinha um rosto de santa e exigia adoração. Sessenta anos. As fachadas enfeitavam-se com lanternas de papel, janelas escancaradas exibiam presépios, listas de foguetes cortavam o céu negro. A sineta badalava, zangada. E o burburinho da multidão não diminuía.

Sessenta anos. Da cinza que ocultava os olhos frios saltou uma faísca; os alfinetes pregados na carne trêmula embotaram-se; o espinhaço curvo endireitou-se; um débil sorriso franziu os beiços murchos; os braços ergueram-se lentos, buscando a imagem de sonho.

Imagem de sonho, que doidice! Era apenas uma bonita criatura de bom coração. Ligara-se a ela. E dezenas de vezes tinham-se os dois  ajoelhado ali na grama, olhando as lanternas, os presépios, os foguetes, o padre que dizia a missa da meia-noite. Algumas esperanças, muitos desgostos. Os meninos cresciam, engordavam. E no jardim da casa miúda um jasmineiro recendia.

Depois tudo fora decaindo, minguando, morrendo. Achara-se novamente só. Os filhos e os netos se haviam espalhado pelo mundo. Agora... Que extensa caminhada, que enormes ladeiras, pai do céu ! Já nem se lembrava dos lugares percorridos.

Conseguiu abotoar o casaco e levantar a gola.

Andar tanto e afinal chegar ali, arriar num banco, não perceber as letras que se acendiam . e apagavam. Certamente àquela hora, diante duma igreja aberta, outro homem novo admirava outra pessoinha ajoelhada, sentia desejos imensos, formava planos absurdos. Os desejos e os planos iam desfazer-se como a fumaça  luminosa dos repuxos.

(20 de dezembro de 1941).
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Graciliano Ramos (1892 - 1953)
        GRACILIANO RAMOS DE OLIVEIRA nasceu em Quebrangulo, no interior de Alagoas, em 1892. Faleceu no Rio de Janeiro em 1953, aos 60 anos, em decorrência de um câncer de pulmão. Passou a infância migrando pelo Nordeste devido às secas, morando em fazendas e cidades como Buíque (PE), Viçosa (AL) e Palmeira dos Índios (AL). Teve duas estadias marcantes no Rio de Janeiro: a primeira na juventude (1914-1915) e a segunda de forma definitiva a partir de 1937, após ser libertado da prisão política. Sua trajetória profissional foi bastante diversificada. Na juventude, trabalhou no comércio do pai, foi jornalista e revisor de imprensa. Ingressou na política e foi eleito Prefeito de Palmeira dos Índios (1928-1930) — cargo do qual ficou famoso pelos relatórios administrativos impecáveis e literários que enviava ao governador. Posteriormente, foi Diretor da Imprensa Oficial e Diretor de Instrução Pública de Alagoas. Em 1936, durante a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, foi preso sem acusação formal sob a falsa suspeita de ligação com a Intentona Comunista de 1935, permanecendo quase um ano encarcerado. Mais tarde na vida, filiou-se formalmente ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). 
Principal expoente do Romance de 30 (a vertente regionalista da Segunda Geração do Modernismo brasileiro). Sua carreira literária começou cedo com contos e sonetos publicados sob pseudônimos na imprensa escolar e em revistas. Estreou no romance em 1933. Teve o reconhecimento de críticos fundamentais como Antonio Candido. ao seu espírito crítico, antirretórico e avesso às vaidades intelectuais, Graciliano Ramos nunca quis pertencer à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele ironizava formalismos institucionais. Décadas após sua morte, a própria ABL criou o ciclo de palestras "Cadeira 41" justamente para homenagear os gigantes da literatura que nunca foram imortais da casa, abrindo o projeto com o nome de Graciliano. Recebeu importantes distinções em vida, incluindo: Prêmio Lima Barreto (da Revista Acadêmica), em 1936, pelo romance Angústia; Prêmio de Literatura Infantojuvenil (do Ministério da Educação), em 1939, por A Terra dos Meninos Pelados; Prêmio Felipe de Oliveira, em 1942, concedido pelo conjunto de sua obra.
Livros Publicados: Caetés (1933 — romance de estreia); São Bernardo (1934); Angústia (1936 — escrito pouco antes e finalizado na prisão); Vidas Secas (1938 — sua obra-prima máxima); A Terra dos Meninos Pelados (1939 — literatura infantojuvenil); Brandão Entre o Mar e o Amor (1942 — romance escrito em conjunto com Jorge Amado, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e Aníbal Machado); Infância (1945 — livro de memórias); Insônia (1947 — contos); Memórias do Cárcere (1953 — publicado postumamente, relata os horrores dos porões da ditadura Vargas); Viagem (1954 — crônicas de suas impressões sobre a URSS e Europa Ocidental, póstumo).
Graciliano Ramos é fundamental para a literatura de língua portuguesa porque promoveu uma verdadeira revolução estética e ética na prosa de ficção. Conhecido como o "mestre da palavra exata", ele eliminou da escrita os adjetivos desnecessários, os floreios românticos e o sentimentalismo fácil, inaugurando um estilo seco, direto, conciso e cortante, espelho da própria rigidez do sertão. Mais do que retratar a miséria socioeconômica do Nordeste e a tragédia dos retirantes (como fez magistralmente na saga da família de Fabiano em Vidas Secas), Graciliano investigou as profundezas da psique humana mutilada pela opressão. Seus livros denunciam como as estruturas sociais violentas desumanizam o indivíduo, tirando-lhe a fala e a dignidade. Sua honestidade intelectual intransigente fixou o patamar mais alto do realismo crítico na literatura brasileira.

Fontes:
Linhas Tortas. Publicado originalmente em 1962 (livro póstumo).
Biografia = E-Biografia, Wikipedia, Guia do Estudante Abril, USP (Jornal do Câmpus), Itaú Cultural, Brasil Escola, Toda Materia, Academia Brasileira de Letras, etc.

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